06 novembro 2026

Após fugir para os EUA, Flávio Bolsonaro admite não ter provas de fraude na eleição

Renato Pizzutto/Band

* Senador reproduz teorias conspiratórias e se recusa a responder sobre ajuda em plano de fuga

* Filho de Bolsonaro abandona tom mais moderado da campanha e afirma que resultado do 2º turno é inexplicável

247 – O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que fugiu do Brasil após as eleiçoes deste ano, reconheceu que não possui provas de fraude na eleição presidencial de 2026, mas voltou a questionar a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), anunciou que seu partido pretende buscar a cassação da chapa Lula-Alckmin e afirmou que poderá disputar novamente a Presidência da República em 2030. Vivendo nos Estados Unidos desde que deixou o Brasil após a derrota eleitoral, o parlamentar também criticou a decisão do pai, Jair Bolsonaro, de retornar ao país em 2023, e disse que não pretende repetir o que considera um erro do ex-presidente.

As declarações foram dadas em entrevista à Folha de São Paulo, publicada nesta sexta-feira (6), a primeira concedida pelo senador a um veículo brasileiro desde sua fuga para os Estados Unidos. Durante a conversa, realizada na quinta-feira (5), em Miami, Flávio Bolsonaro afirmou que não reconhece integralmente a legitimidade do resultado eleitoral, embora tenha admitido não dispor de elementos concretos para comprovar as suspeitas que levanta.

Questionado diretamente sobre a ausência de provas de irregularidades na votação, o senador respondeu: “Não tenho provas e nem terei, porque é proibido investigar esse assunto.”

Flávio também colocou em dúvida a condição de Lula como presidente eleito, apesar do reconhecimento oficial do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e por partidos que apoiaram sua própria candidatura, incluindo o PL.

“Nem eu nem Lula podemos falar com 100% de certeza que alguém foi eleito presidente do Brasil. Eu tenho todas as ressalvas, motivos e indícios para desconfiar do que aconteceu nessas duas horas em que as eleições foram interrompidas, porque certamente elas não foram interrompidas para que as pessoas pudessem votar”, declarou.

A suspeita apresentada pelo senador está relacionada à prorrogação do horário de votação determinada pelo TSE. A medida, no entanto, também foi solicitada pelo próprio PL e aplicada em todo o território nacional, não apenas na Bahia, como sugeriu Flávio durante a entrevista.

O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Jair Bolsonaro (PL), afirmou que a extensão do horário não provocou problemas na totalização dos votos.
PL pretende pedir cassação da chapa Lula-Alckmin

Apesar de admitir que não tem provas de fraude eleitoral, Flávio Bolsonaro afirmou que o PL pretende questionar judicialmente a vitória de Lula por suposto abuso de poder econômico.

Segundo o senador, a iniciativa terá como fundamento medidas adotadas pelo governo federal durante o período eleitoral, entre elas o aumento do Bolsa Família, o programa Pé-de-Meia Universitário e a transferência de R$ 5 mil a microempreendedores individuais (MEIs).

“A nossa parte jurídica vai ser que ele usou a máquina pública fora da lei. Isso não é permitido na legislação brasileira, se fosse a chapa do Flávio Bolsonaro, estava cassada”, afirmou.

Flávio classificou as iniciativas do governo como instrumentos de favorecimento eleitoral, mas não apresentou, na entrevista, uma decisão judicial que reconheça irregularidades nas medidas mencionadas.

O senador também contestou o crescimento da votação de Lula entre o primeiro e o segundo turno.Os dois candidatos ampliaram suas votações na etapa decisiva: Lula recebeu 10,3 milhões de votos adicionais, enquanto Flávio conquistou mais 3,7 milhões. O segundo turno também registrou aproximadamente 3 milhões de eleitores a mais e uma redução de 1,8 milhão de votos inválidos.

Mesmo diante desses números, o parlamentar insistiu em suas suspeitas.

“Qual a garantia que tenho que não venci a eleição no primeiro turno?”, questionou.
Flávio diz que não repetirá decisão de Jair Bolsonaro de voltar ao Brasil

Outro ponto central da entrevista foi a permanência de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos. O senador afirmou que ainda não decidiu onde pretende estabelecer residência com a família, mas indicou que não pretende retornar ao Brasil enquanto considerar que corre risco de sofrer perseguição judicial.

Ao comentar a trajetória de Jair Bolsonaro, que deixou o país após a derrota eleitoral de 2022 e retornou em 2023, Flávio afirmou que o pai confiou na possibilidade de receber um julgamento justo.

“Ele vai para os Estados Unidos e volta por saber que é inocente, acreditando que ia passar por um processo justo. Eu aprendo com os erros e os acertos do presidente Bolsonaro, e não vou cometer o mesmo erro”, declarou.

Jair Bolsonaro foi posteriormente condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a cumprir uma pena de 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. Flávio rejeita a legitimidade da condenação e sustenta que o pai foi alvo de perseguição política.

O senador também afirmou que sua saída do Brasil ocorreu diante da possibilidade de enfrentar uma investigação semelhante às que atingiram outros integrantes da família.

“Não vou legitimar processo ditatorial comandado pelo [ministro do STF] Alexandre de Moraes”, disse.

Flávio acusou o STF, o TSE, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal de atuarem sob influência política do governo Lula. Não apresentou, contudo, provas que sustentem a acusação de controle dessas instituições pelo Executivo.
Senador se recusa a revelar quem organizou e financiou sua fuga

Durante a entrevista, Flávio Bolsonaro evitou esclarecer as circunstâncias de sua saída do território brasileiro, ocorrida após a eleição presidencial.

Questionado sobre quem teria planejado e financiado a operação, respondeu: “Não vou falar sobre isso.”

O senador relatou que começou a discutir a possibilidade de deixar o país com a esposa após receber uma intimação da Polícia Federal.

Segundo sua versão, ao visitar Jair Bolsonaro na segunda-feira posterior à eleição, foi informado por policiais federais de que não poderia sair do Brasil.

Flávio contou que o pai demonstrou preocupação com o desdobramento da situação.

“Você sabe onde é que eles querem chegar, né?”, teria perguntado Jair Bolsonaro, segundo o relato do senador.

“Pai, fique tranquilo que eu sei o que tenho que fazer”, afirmou Flávio ter respondido.

O parlamentar não explicou como conseguiu chegar aos Estados Unidos após ter sido informado da restrição de saída do país.

Ao ser questionado sobre reportagem que apontou a participação de um ex-agente do Mossad, serviço de inteligência israelense, em sua fuga, limitou-se a afirmar: “Não tem nada a ver com o governo israelense.”

Flávio Bolsonaro também disse que ainda pretende regularizar sua situação migratória nos Estados Unidos e negou ter procurado integrantes do governo norte-americano para tratar de sua permanência no país.
Flávio Bolsonaro admite disputar Presidência em 2030 e diverge de Tarcísio

O senador também tratou da sucessão presidencial de 2030 e deixou aberta a possibilidade de disputar novamente o Palácio do Planalto.

Questionado sobre a intenção do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de concorrer à Presidência, Flávio afirmou que todos têm o direito de apresentar suas candidaturas.

“Todos podem se candidatar. Se houver eleição antes, tenho esse direito; em 2030, também, se eu quiser e o partido concordar”, declarou.

O senador condicionou uma eventual candidatura à concordância do PL e à possibilidade de retornar ao Brasil.

“Mas até lá, se as coisas tiverem mudado, eu posso voltar. Veremos em 2030, se tiver eleição, que eu não sei se vai acontecer, como é que esse atual governo vai conduzir o país, com tudo que ele vai tentar implementar de projeto comunista”, afirmou.

Ele também foi questionado sobre a possibilidade de Jair Bolsonaro recuperar seus direitos políticos e voltar a disputar a Presidência.

“Se ficar elegível, é o meu candidato”, respondeu.

As declarações evidenciam diferenças entre Flávio Bolsonaro e Tarcísio sobre o posicionamento da direita após a eleição. O governador paulista reconheceu publicamente a vitória de Lula e defendeu o encerramento da disputa eleitoral.

Flávio, por sua vez, rejeitou essa posição.

“Eu não concordo, não sou obrigado a concordar com tudo que ele fala”, afirmou.

O senador disse que conversou com Tarcísio após a eleição e comunicou sua disposição de participar de uma nova disputa presidencial.

“Eu falei com ele após eleições, expliquei meu ponto de vista, falei que se tiverem novas eleições eu sou candidato”, relatou.
Críticas ao STF e acusações contra Alexandre de Moraes

Na entrevista, Flávio Bolsonaro também retomou os ataques ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e defendeu seu impeachment.

O senador citou questionamentos envolvendo a atuação do magistrado e o relacionamento profissional de sua esposa com o empresário Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master.

“Não só por causa do Vorcaro, por tudo. Ninguém está acima da lei no Brasil”, afirmou ao ser questionado sobre o afastamento de Moraes.

Flávio Bolsonaro acusou o ministro de participar de julgamentos nos quais, em sua avaliação, deveria ter declarado impedimento ou suspeição.

O senador também responsabilizou a presidência do Senado pela ausência de andamento dos pedidos de impeachment apresentados contra Moraes.

Questionado sobre Kassio Nunes Marques, ministro indicado por Jair Bolsonaro e cujo filho também teve relações financeiras com o Banco Master, Flávio adotou uma posição mais cautelosa.

“Se ele descumprir a lei, qualquer um. Mas se não teve pedido de impeachment, não tem sobre o que emitir opinião”, respondeu.

Ao contrário da declaração, mais de um pedido de impeachment contra Nunes Marques já foi protocolado no Senado federal. .
Flávio Bolsonaro afirma que continuará no Senado e diz viver de reservas financeiras

Mesmo permanecendo nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro afirmou que não pretende renunciar ao mandato de senador pelo Rio de Janeiro.

“De forma alguma. Sempre que houver a possibilidade de participar das sessões de forma virtual, vou participar”, declarou.

O parlamentar também foi questionado sobre como pretende financiar sua permanência em Miami, cidade conhecida pelo elevado custo de vida.

“Tenho reservas”, respondeu.

Ao explicar a origem de seus recursos, citou sua trajetória como parlamentar, empresário e advogado.

“Sou parlamentar desde os 21 anos, empresário e advogado. Minha principal renda vem da advocacia. Mas certamente vou ter que trabalhar como todas as pessoas que vêm de fora dos Estados Unidos para cá”, afirmou.

Flávio Bolsonaro também comentou a investigação da Polícia Federal envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a ele e ao advogado Willer Tomaz. Ambos negam irregularidades.

O senador afirmou que Tomaz teria sido perseguido em razão da amizade entre os dois e negou qualquer sociedade empresarial com o advogado.

Conteúdo postado por:Paulo Emílio, Portal 247 com Folha de S. Paulo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários são publicados somente depois de avaliados por moderador. Aguarde publicação. Agradecemos a sua opinião.