Imagem de câmera corporal mostra o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto no corredor do prédio enquanto policiais atendem à ocorrência no apartamento onde sua companheira foi encontrada baleada — Foto: Reprodução/Polícia Civil
Do Jornal O Globo
Discussões com oficiais, insistência em tomar banho e frieza mesmo diante da possibilidade de sobrevivência da esposa. Essa era a postura do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto durante a tentativa de socorro de sua mulher, a soldado da PM Gisele Alves Santana, baleada na cabeça e morta a manhã de 18 de fevereiro, mostra um inquérito da Polícia Civil obtido pelo GLOBO.
Neto afirma que o caso se tratou de suicídio, mas investigações levaram o oficial a ser indiciado tanto pela Corregedoria da PM quanto pela Polícia Civil por feminicídio e fraude processual. Ele está preso na penitenciária Romão Gomes, em São Paulo.
As suspeitas vieram desde relatos de um comportamento abusivo do oficial contra sua parceira, quanto de mensagens que mostram que o tenente-coronel se considerava um “macho alfa” e que cobrava uma postura subserviente da mulher.
De acordo com a perícia técnica realizada na cena, as falas do tenente-coronel no dia do crime revelam um comportamento que as autoridades descrevem como “atípico” e “gélido”.
No dia do crime, Neto convidou um amigo, o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, para ir ao local. A iniciativa, segundo agentes que estavam na residência, criou um “entorno de autoridade” que inibiu a atuação de policiais de patentes inferiores, dificultando que impedissem o oficial de alterar a cena ou tomar banho.
Quando o desembargador chegou ao endereço, Neto apressou-se em validar sua versão de que o casal vivia separado dentro da mesma casa.
— Excelência, vem aqui, por favor. Esse é o quarto em que eu estava dormindo — afirmou, conduzindo uma espécie de “tour” pela cena enquanto a esposa era socorrida.
Durante esse percurso, de acordo com documentos da investigação, o oficial se irritou com agentes ao notar mudanças na disposição do quarto.
— Isso aqui não estava assim. Quem foi que fez isso? — perguntou.
Ao ser confrontado por um cabo da Polícia Civil sobre o fato de que toda a ocorrência estava sendo gravada por câmeras corporais, Neto foi incisivo:
— Então deixa eu falar uma coisa para você. Eu sei o que estou falando… isso aqui não estava assim, não fui eu que fiz.
Na sequência, o oficial insistiu em tomar banho, ignorando os alertas de que isso poderia destruir provas periciais, como resíduos de pólvora nas mãos.
— Irmão, eu tenho 34 anos de serviço. Eu sei o que estou falando. Eu vou tomar banho, irmão!
A subordinados, justificou:
— Vou tomar banho porque vou passar muito tempo na Polícia Judiciária.
Quando recebeu atualizações sobre o estado de saúde de Gisele, que ainda apresentava sinais vitais — “Ela foi socorrida, estava com pulso, ainda estava respirando”, segundo um policial — a resposta de Neto foi técnica:
— Irmão, tiro na cabeça. Eu sou instrutor de tiro. Tiro na cabeça, de ponto quarenta. Você sabe disso.
Segundo relatos, ele fez um gesto negativo com a cabeça ao dizer a frase.
Uma inspetora que acompanhava a ocorrência afirmou que, embora Neto emitisse sons de choro, “não caía nenhuma lágrima de seus olhos”.
Ao ser informado por um médico de que a situação da esposa era gravíssima, o oficial limitou-se a dizer:
— Socorre ela, por favor.
Minutos depois, ao ser questionado sobre o que sentia, voltou a falar de si:
— Estou péssimo. Estou passando mal… estou com o braço adormecido e falta de ar.
Para justificar por que não teria impedido o disparo, o tenente-coronel argumentou que confundiu o barulho da arma com uma discussão doméstica.
— Fazia o quê… um minuto que eu estava embaixo do chuveiro e escutei o barulho. Parecia até que fosse ela batendo na porta, porque foi uma batida forte.
Ao sair do banho e encontrar a companheira caída, ele afirmou ter mantido distância por “conhecimento técnico” sobre o dano causado por um disparo de calibre .40.
Essa versão, no entanto, foi contestada pela perícia, que encontrou manchas de sangue por gotejamento na bermuda usada por Neto — indício de que ele teria permanecido parado ao lado da vítima enquanto ela sangrava, e não trancado em outro banheiro, como afirmou.
Tiro por trás
Neto afirma que o caso se tratou de suicídio, mas investigações levaram o oficial a ser indiciado tanto pela Corregedoria da PM quanto pela Polícia Civil por feminicídio e fraude processual. Ele está preso na penitenciária Romão Gomes, em São Paulo.
As suspeitas vieram desde relatos de um comportamento abusivo do oficial contra sua parceira, quanto de mensagens que mostram que o tenente-coronel se considerava um “macho alfa” e que cobrava uma postura subserviente da mulher.
De acordo com a perícia técnica realizada na cena, as falas do tenente-coronel no dia do crime revelam um comportamento que as autoridades descrevem como “atípico” e “gélido”.
No dia do crime, Neto convidou um amigo, o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, para ir ao local. A iniciativa, segundo agentes que estavam na residência, criou um “entorno de autoridade” que inibiu a atuação de policiais de patentes inferiores, dificultando que impedissem o oficial de alterar a cena ou tomar banho.
Quando o desembargador chegou ao endereço, Neto apressou-se em validar sua versão de que o casal vivia separado dentro da mesma casa.
— Excelência, vem aqui, por favor. Esse é o quarto em que eu estava dormindo — afirmou, conduzindo uma espécie de “tour” pela cena enquanto a esposa era socorrida.
Durante esse percurso, de acordo com documentos da investigação, o oficial se irritou com agentes ao notar mudanças na disposição do quarto.
— Isso aqui não estava assim. Quem foi que fez isso? — perguntou.
Ao ser confrontado por um cabo da Polícia Civil sobre o fato de que toda a ocorrência estava sendo gravada por câmeras corporais, Neto foi incisivo:
— Então deixa eu falar uma coisa para você. Eu sei o que estou falando… isso aqui não estava assim, não fui eu que fiz.
Na sequência, o oficial insistiu em tomar banho, ignorando os alertas de que isso poderia destruir provas periciais, como resíduos de pólvora nas mãos.
— Irmão, eu tenho 34 anos de serviço. Eu sei o que estou falando. Eu vou tomar banho, irmão!
A subordinados, justificou:
— Vou tomar banho porque vou passar muito tempo na Polícia Judiciária.
Quando recebeu atualizações sobre o estado de saúde de Gisele, que ainda apresentava sinais vitais — “Ela foi socorrida, estava com pulso, ainda estava respirando”, segundo um policial — a resposta de Neto foi técnica:
— Irmão, tiro na cabeça. Eu sou instrutor de tiro. Tiro na cabeça, de ponto quarenta. Você sabe disso.
Segundo relatos, ele fez um gesto negativo com a cabeça ao dizer a frase.
Uma inspetora que acompanhava a ocorrência afirmou que, embora Neto emitisse sons de choro, “não caía nenhuma lágrima de seus olhos”.
Ao ser informado por um médico de que a situação da esposa era gravíssima, o oficial limitou-se a dizer:
— Socorre ela, por favor.
Minutos depois, ao ser questionado sobre o que sentia, voltou a falar de si:
— Estou péssimo. Estou passando mal… estou com o braço adormecido e falta de ar.
Para justificar por que não teria impedido o disparo, o tenente-coronel argumentou que confundiu o barulho da arma com uma discussão doméstica.
— Fazia o quê… um minuto que eu estava embaixo do chuveiro e escutei o barulho. Parecia até que fosse ela batendo na porta, porque foi uma batida forte.
Ao sair do banho e encontrar a companheira caída, ele afirmou ter mantido distância por “conhecimento técnico” sobre o dano causado por um disparo de calibre .40.
Essa versão, no entanto, foi contestada pela perícia, que encontrou manchas de sangue por gotejamento na bermuda usada por Neto — indício de que ele teria permanecido parado ao lado da vítima enquanto ela sangrava, e não trancado em outro banheiro, como afirmou.
Tiro por trás














