Por Natália Portinari, Fabio Serapião e Cézar FeitozaColunistas do UOL, em Brasília
Nas conversas no celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, não aparece nenhuma menção a pagamento ou patrocínio para um documentário sobre o presidente Lula (PT). A PF (Polícia Federal) apreendeu o aparelho em novembro de 2025, quando o ex-banqueiro foi preso pela primeira vez.
Todo o conteúdo do celular de Vorcaro que foi apreendido abrange o período de julho de 2012 a 17 de novembro de 2025, dia de sua prisão. O documentário "Lula", do diretor Oliver Stone, foi lançado em maio de 2024 e produzido entre 2022 e 2023, ou seja, em um período coberto pela extração do celular de Vorcaro.
Em áudio publicado pela revista Veja nesta sexta-feira, Vorcaro afirma ter bancado um filme sobre o presidente. "O filme do Lula eu coloquei acho que até mais [que no filme sobre Jair Bolsonaro]. Só que o do Lula foi por fora, foi errado", diz o ex-banqueiro no áudio.Fontes na PGR e na PF ouvidas pelo UOL negam que esse documento exista, dizem desconhecer a gravação e atribuem a divulgação a uma tentativa da defesa de Vorcaro de influenciar na eleição.
Em nota, a PGR disse que não houve depoimento oral de Vorcaro, "justamente por conta da rejeição da proposta, cujos motivos foram expostos à defesa".
A PGR "esclarece que as tratativas de colaboração premiada envolvendo o senhor Daniel Vorcaro foram sempre mediadas por advogados contratados pelo investigado, como devido".
"Todas as propostas formalizadas pela defesa foram recebidas na forma como livremente elaboradas por ela, sem juízo nem recusas prévias. Não houve interlocução direta do senhor Vorcaro com qualquer representante da PGR.".
Por meio de nota, a campanha de Lula afirma que o conteúdo publicado pela Veja é uma "grande farsa montada por Flávio Bolsonaro e Vorcaro". A defesa do petista também anunciou cinco medidas após a reportagem, entre elas um pedido à PF para "apurar a veracidade das declarações atribuídas a Vorcaro" e "a responsabilidade de quem forjou ou difundiu informações falsas", uma queixa-crime contra o ex-banqueiro, e uma ação indenizatória contra a Veja.
Não há menção a filme
A extração do celular de Vorcaro mostra conversas citando investimentos nos filmes de Jair Bolsonaro e Michel Temer, mas não sobre Lula.
Sobre o "Dark Horse", cinebiografia de Bolsonaro, as mensagens com o cunhado Fabiano Zettel discutem remessas em dólar. Em janeiro de 2025, ele escreve: "Esse é o mais importante disparado. Não pode falhar mais".
Em novembro de 2023, Zettel pergunta: "Que empresa vai fazer o filme do Temer??". Vorcaro indica uma empresa e acrescenta: "Mas não queremos logo. Nada. Só participar".
A primeira proposta de delação de Vorcaro, entregue à PF e à PGR no início de maio, não menciona o filme sobre Lula. O documento também não trata de "Dark Horse".
Ainda em maio, o site Intercept Brasil revelou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou com Vorcaro US$ 24 milhões para o filme sobre o pai. Ao menos US$ 10,6 milhões foram pagos, segundo o site.
No anexo escrito, portanto, o filme sobre Lula aparece como patrocínio, nos mesmos termos de "Dark Horse". No áudio publicado pela Veja, Vorcaro faz a distinção oposta: "O do Flávio não foi [por fora], porque foi patrocínio, foi patrocínio normal".
A PGR rejeitou a segunda proposta de delação em junho, depois de a PF concluir que ela não trazia novidades em relação ao material apreendido. Segundo a Veja, a Procuradoria não levou adiante o relato sobre o filme por falta de provas.
Fundos de pensão: acesso sem dinheiro
A outra parte do relato de Vorcaro divulgada pela Veja trata de fundos de pensão de estatais federais. Essa investida aparece nas mensagens do ex-banqueiro.
A proposta de delação e mensagens obtidas pelo UOL confirmam a tentativa de acessar os fundos de estatais federais através de dois intermediários.
O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, levado pelo então sócio Augusto Lima, cuidaria de Banco do Brasil e Caixa, segundo Vorcaro tentou delatar.
O único encontro de Vorcaro com Padilha registrado no celular foi um jantar na casa do banqueiro em Brasília, fora da agenda oficial, na noite de 23 de outubro de 2024. A Folha revelou o encontro em setembro.
"Daniel, acertado!!!! Padilha e Olavo amanhã às 22 horas, um jantar contigo em bsb", escreveu Júlio na véspera. No dia, ele listou cinco convidados: Padilha, o então secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, um primo de Olavo, um assessor do ministro e ele próprio.
Às 21h26, Júlio avisou: "O Padilha já está a caminho". Nove minutos depois: "Estão no portão".
No dia seguinte, Júlio pediu a Vorcaro que ligasse para Olavo: "O PR vai te receber". Menos de dois meses depois, em 4 de dezembro, Lula recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto, também fora da agenda.
"Daniel, acertado!!!! Padilha e Olavo amanhã às 22 horas, um jantar contigo em bsb", escreveu Júlio na véspera. No dia, ele listou cinco convidados: Padilha, o então secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, um primo de Olavo, um assessor do ministro e ele próprio.
Às 21h26, Júlio avisou: "O Padilha já está a caminho". Nove minutos depois: "Estão no portão".
No dia seguinte, Júlio pediu a Vorcaro que ligasse para Olavo: "O PR vai te receber". Menos de dois meses depois, em 4 de dezembro, Lula recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto, também fora da agenda.
Nas semanas seguintes, Júlio marcou reuniões de Vorcaro com os presidentes da Petros e do Postalis, como mostrou a Veja. Em abril de 2024, pediu R$ 500 mil ao banqueiro. "Quero ir pro jantar tranquilo", escreveu.
Vorcaro pagou e explicou como contabilizaria o dinheiro. "Já foi feito. Tem crédito na casa. Depois abatemos dos negócios", respondeu. "Quero ver agora você virar uma boleta de verdade." "Boleta" é o jargão do mercado para uma aplicação fechada.
A entrada na lista foi negociada desde o início de 2024. Em janeiro, um diretor do Master escreveu a Vorcaro: "O cara de Brasília consegue em sete dias a nossa entrada na lista exaustiva. 1,0 mm".
A aplicação é investigada pela PF, e o conselho do fundo não a aprovou. Na delação, Vorcaro diz que a propina sobre esse aporte foi paga por meio de nota fiscal da empresa de Júlio.
Previ, Petros, Postalis e Caixa Asset não chegaram a aplicar no Master. Em 2025, Júlio tentou levar ao banco os fundos de servidores do Espírito Santo, de Rondônia e do Amazonas.
Em fevereiro de 2025, Vorcaro reclamou a um diretor do banco. "Perdi tempo demais da minha vida com essa turma", escreveu. "Fazem cadastro, fala que aprovou crédito, mas grana nunca vem."
Outro lado
Em nota, Padilha afirma que o suposto depoimento e o áudio atribuídos a Daniel Vorcaro tem "indícios de fraude e manipulação" para "tumultuar" o processo eleitoral em favor de Flávio Bolsonaro. O ministro diz ter pedido à AGU medidas judiciais e direito de resposta, além de perícia sobre a autenticidade do áudio, e nega ter atuado em defesa de Vorcaro ou do Banco Master.















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