Flávio recebeu 52,37% dos votos válidos em Maceió, contra 41,08% de Lula. Nas outras oito capitais nordestinas, o resultado foi inverso, com Lula na liderança.
Na comparação com o primeiro turno de 2022, os dois campos cresceram percentualmente em Maceió, mas o avanço do bolsonarismo foi maior. Há quatro anos, Jair Bolsonaro teve 49,59% e Lula, 40,43%. Agora, Flávio chegou a 52,37%, um aumento de 2,78 pontos percentuais em relação à votação do pai, enquanto Lula avançou 0,65 ponto, para 41,08%.
A votação na capital também contrasta com o resultado de Alagoas como um todo. Considerados os votos de todos os municípios do estado, Lula terminou o primeiro turno com 54,73% dos votos válidos, enquanto Flávio teve 40,45%. Mesmo assim, Alagoas foi o estado nordestino em que a diferença entre os dois foi menor.
No país, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Como nenhum candidato ultrapassou 50% dos votos válidos, os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
A diferença de Maceió para as demais capitais da região fica mais evidente quando se observa a votação de Flávio Bolsonaro. Depois da capital alagoana, onde ele alcançou 52,37%, seu melhor desempenho foi em João Pessoa, com 45,67%, seguida por Natal, onde recebeu 44,17%.
Mesmo nessas duas cidades, Lula ficou na frente: teve 46,50% em João Pessoa e 48,99% em Natal. Nas demais capitais nordestinas, a distância a favor do petista foi ainda maior.
Por que Maceió destoa do restante do Nordeste?
Para o cientista político Ranulfo Paranhos, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), há hipóteses que ajudam a entender esse comportamento eleitoral. Ele ressalta que são interpretações sobre o cenário político alagoano, e não uma relação de causa e efeito já comprovada por pesquisas.
A primeira delas está relacionada à falta de uma tradição eleitoral forte do PT em Alagoas. Segundo Paranhos, diferentemente de outros estados nordestinos, o partido nunca se consolidou como uma das principais forças políticas locais, especialmente em Maceió, maior colégio eleitoral do estado.
O professor cita como exemplo a presença historicamente reduzida do PT nas prefeituras, câmaras municipais e na Assembleia Legislativa. Mesmo quando participa de governos estaduais, o partido geralmente aparece como aliado de grupos políticos maiores, e não como protagonista.
“Maceió, como principal colégio eleitoral, não tem o PT como a principal âncora ou a principal referência político-partidária para converter isso em voto para o seu candidato para a Presidência da República”, explicou Paranhos.
Segundo ele, a política alagoana foi historicamente organizada em torno de outros grupos. Entre eles estão o MDB ligado aos Calheiros, o PSDB que teve como uma de suas principais lideranças o ex-governador Teotonio Vilela Filho e grupos ligados a Ronaldo Lessa, que passou pelo PSB e pelo PDT.
Isso não significa que esses grupos sejam necessariamente bolsonaristas. A questão, na avaliação do cientista político, é que a esquerda e, particularmente, o PT nunca tiveram em Alagoas o mesmo protagonismo partidário encontrado em outras partes do Nordeste.
Paranhos cita o MDB como exemplo. O partido mantém alianças com o PT em Alagoas e o próprio PT participou das gestões de Renan Filho e Paulo Dantas. Ainda assim, o MDB possui estrutura, lideranças e projeto político próprios.
“O PT gravita em torno do MDB”, resumiu o professor ao explicar a relação entre as duas legendas no estado.
A segunda hipótese está ligada justamente à composição das elites políticas e econômicas de Alagoas. Segundo Paranhos, os principais grupos que historicamente concentraram poder no estado não têm origem em partidos identificados com a esquerda.
Ele menciona, por exemplo, o grupo político do deputado federal Arthur Lira. Paranhos ressalta que Lira não é uma liderança que possa ser simplesmente classificada como ideológica ou de extrema direita, mas como um político de perfil mais pragmático. Ainda assim, o grupo ao qual pertence não tem tradição ligada à esquerda.
Para o professor, estruturas políticas desse tipo ganham força também por meio da atuação parlamentar e da destinação de recursos e emendas a seus principais redutos eleitorais, reforçando lideranças locais que não estão ligadas ao PT.
JHC e a herança do PL em Maceió
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JHC (PSDB) — Foto: TV Asa Branca Alagoas
Outro elemento citado por Paranhos é a trajetória política recente da própria capital. JHC, que deixou a Prefeitura de Maceió para disputar o governo de Alagoas em 2026, já pertenceu ao PL, partido de Jair e Flávio Bolsonaro, antes de migrar para o PSDB.
Para Paranhos, essa separação não elimina completamente a herança política construída anteriormente.
Segundo ele, a campanha de JHC procurou tratar as duas disputas de maneira independente: de um lado, sua candidatura ao governo; de outro, a eleição presidencial.
Ainda assim, o professor avalia que existe em Maceió uma estrutura política e eleitoral historicamente mais próxima de grupos de centro e de direita.
“Nós não temos no estado de Alagoas grupos de elites ligados ao PT ou grupos de elites ligados mais à esquerda”, afirmou Paranhos.
Ele reforça, porém, que as hipóteses ajudam a interpretar o resultado, mas não são suficientes para afirmar que esses fatores, isoladamente, fizeram os eleitores da capital escolherem Flávio Bolsonaro.














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