Faltam pouco mais de 40 dias para o primeiro turno. A temporada de debates, que deveria ser ponto alto da campanha, já nasce esvaziada. No domingo (23), o tradicional confronto da Band abre a série com os presidenciáveis. Pelas informações até agora, Lula escolherá não ir. E sem Lula, Flávio Bolsonaro diz que também não vai.
A campanha do presidente apresenta pelo menos três razões. A primeira é a discordância em relação aos convites para as participações de Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), candidatos que pontuam nas pesquisas com timidez e cujos partidos não têm tamanho suficiente para gerar a obrigatoriedade do convite por força da lei. Ou seja: foi uma escolha editorial dos organizadores.
A segunda explicação seria uma "desigualdade de condições": o formato ampliado transformaria o presidente em alvo simultâneo de adversários. Na prática, seriam 4x1, dado que Flávio, Ronaldo Caiado, Renan e Zema são abertamente de direita. Além de Augusto Cury, escritor bestseller de autoajuda e candidato pelo Avante.
O terceiro motivo foi vocalizado pelo próprio presidente no podcast Inteligência Ltda: o baixo nível. Segundo Lula, ele “não vai ao debate para ouvir bobagem”, porque “não vai se prestar a dar colher de chá para quem não merece”. Para ilustrar seu ponto, mencionou que um candidato à prefeitura de Fortaleza teria como “mote de campanha” a “depilação do ânus”.
Um argumento, digamos, escalafobético. É uma referência a André Fernandes, deputado bolsonarista que publicava vídeos de humor antes de entrar para a política. Entre suas “obras de arte”, produziu essa espécie de relíquia. Mas não usou como mote de campanha.
Flávio, por sua vez, condicionou a própria presença à do adversário maior. Sem Lula, o debate perderia o sentido. Na prática, a ausência evita um clima de grande prévia eleitoral da direita. O que Flávio mais deseja evitar é a ideia de que a vaga para enfrentar Lula no segundo turno está em disputa.
De fato, o cálculo político dos líderes das pesquisas é maior do que os seus compromissos com a democracia. No primeiro turno, Lula e Flávio jogam pelo zero a zero, com o regulamento embaixo do braço. Dispostos a sonegar ao eleitor o direito à informação. Como se saem nos debates aqueles que desejam governar o país? Suas ideias resistem ao confronto com outras visões? Suas posturas são adequadas em ambiente livre, sem o controle de marqueteiros e assessores? Lula e Flávio tiram do eleitor o direito de fazer essas avaliações.
O esvaziamento do debate degrada a democracia. Há um efeito sobre a própria legitimidade dos planos de governo. Sem a discussão adequada, as propostas perdem aderência social. Isso aumenta o custo de negociação no Congresso. Na prática, piora a governabilidade, que já anda bastante complicada com o crescimento dos poderes do legislativo.
Cabe ao eleitor escolher se manterá o seu aplauso conivente.














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