11 fevereiro 2026

Pão de Açúcar/AL além da versão oficial: história, memória e as distorções de Jaciobá


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Pão de Açúcar–AL está prestes a comemorar seus 172 anos de emancipação política no próximo dia 03 de março, ocorrido em 1854, quando se desmembrou de Mata Grande e foi elevado à condição de Vila.

A povoação surge nos registros históricos em 1611, com o nome primitivo de Jaciobá, palavra de origem tupi-guarani que significa “espelho da lua”, numa referência direta às águas do rio São Francisco refletindo o brilho noturno. Muito antes de qualquer marco oficial, porém, aquele território já era espaço de vida, circulação e pertencimento indígena, habitado pelos Urumaris e Xokó, povos originários que ocuparam a região. Analisando hermeneuticamente a história de Pão de Açúcar, percebe-se várias distorções históricas e cronológicas. A história oficial do município afirma que a povoação do município surgiu da doação de terras do rei de Portugal, D. João IV (1604-1656), no entanto, essa afirmação diverge de outras fontes como o site da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA), que afirma que foi D. João VI (1767-1826) e ambas divergem do contexto histórico daquela época, pois quando do descobrimento das terras de jaciobá em 1611, vigorava a União Ibérica (1580-1640), onde Portugal estava sob o domínio dos reis Felipe da Espanha. Já em relação a D. João VI, a disparidade ainda é maior, pois este só se torna rei de fato em 1816.

Outra distorção na história de Jaciobá, e é prudente ressaltar, que não é consenso — nem há respaldo histórico — é sobre a doação de terras feita pela coroa portuguesa aos povosoriginários. Todos conhecem e sabem como se deu o processo colonial no Brasil, seguindo um caminho totalmente inverso, como romanceado na história de Pão de Açúcar: era um dos objetivos da colonização, talvez até o principal, a expropriação dos territórios originários, a imposição da autoridade europeia e a concessão de sesmarias a colonos, militares ou religiosos ligados à Coroa.

Essas distorções históricas se arrastam por décadas, passando de geração a geração; mas não por falta de alerta, pois desde 2016 que tento dialogar com o poder público na tentativa de colaborar com a justa correção da história e identidade da minha terra.

Pensar numa “doação pacífica” em Jaciobá, como insiste a história oficial, é desconsiderar a lógica da colonização e os conflitos que marcaram a ocupação do sertão nordestino, incluindo o apagamento progressivo dos Urumaris e o nome primitivo de Jaciobá, que anos mais tarde foi substituído por Pão de Açúcar. Contudo, há um registro que ajuda a organizar essa narrativa: em 1660, já após a Restauração portuguesa, D. Luísa de Gusmão, rainha de Portugal e viúva de D. João IV, teria doado as terras de Jaciobá ao fidalgo Lourenço de Brito Correia. Este, transformou a antiga Jaciobá em fazenda de criação de gado, atividade típica da ocupação do sertão nordestino, e lhe deu o nome de Pão de Açúcar.

A escolha do nome dialogava com a memória econômica de sua família no Recôncavo Baiano, onde o fabrico do açúcar era moldado em fôrmas cônicas conhecidas como “pães de açúcar”. Essas fôrmas foram comparadas ao Morro do Cavalete, elevação existente na antiga Jaciobá, cuja silhueta se assemelhava ao formato desses moldes, criando um elo simbólico entre a paisagem local e o universo açucareiro baiano. Assim, o nome que hoje identifica o município nasceu de uma comparação econômica e cultural,deslocada do litoral açucareiro baiano para o interior pastoril no sertão alagoano.

Foi em 3 de março de 1854 que a então vila de Pão de Açúcar, foi oficialmente desmembrada da vila de Mata Grande, alcançando sua emancipação político-administrativa. Essa combinação de lacunas documentais, disputas de memória e diferentes versões históricas, ajuda a entender por que a história de Pão de Açúcar foi, em muitos momentos, romanceada. Reconhecer essas camadas não diminui a importância do município; ao contrário, fortalece sua identidade ao permitir uma leitura mais honesta e madura do passado. Em 2026, Pão de Açúcar celebra 172 anos de emancipação política e 415 anos de história. Datas que pedem não apenas comemoração, mas reflexão. Parabéns, Pão de Açúcar! Terra de Jaciobá, espelho da lua e guardiã de uma trajetória marcada por memória e resistência. Ao celebrar essa história, convido o leitor a conhecer mais profundamente suas origens por meio do meu livro Jaciobá: Origens, um convite a revisitar o passado e compreender as raízes que formaram essa terra.

Luís Laércio Gerônimo é filho natural de Pão de Açúcar-AL, graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe, Mestre em Educação e doutorando em Ciências da Educação pela Universidad Autónoma de Asunción no Paraguai.

Fonte: Alagoas na Net

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