04 fevereiro 2026

O abuso das canetas emagrecedoras, as redes sociais e o sofrimento psíquico


Ao atuar no cérebro, esses medicamentos ajudam a reduzir a sensação de fome. — Foto: Freepik


Gazeta de Alagoas

Por Ramon Marcelino - médico endocrinologista e especialista em medicina do estilo de vida |

Se 2025 teve um medicamento símbolo, ele se chama Mounjaro. Onipresente nas redes sociais e nas conversas cotidianas, tornou-se também o mais abusado. Não à toa, o ano foi marcado por uma atuação reiterada da Anvisa, que precisou reforçar a exigência de receita médica para a venda dos análogos de GLP-1.

A medida ajudou, mas não resolveu. As prateleiras continuaram vazias, o desabastecimento persistiu e pacientes com obesidade grave, diabetes e alto risco cardiometabólico seguiram sem acesso a um tratamento que pode ser decisivo para sua saúde.

O uso dessas medicações fora de indicação médica teve efeitos concretos. Medicamentos caros passaram a não chegar a quem realmente precisa. O cenário foi agravado por furtos, contrabando, fraudes e até operações policiais envolvendo medicamentos manipulados, comercializados em larga escala de forma irresponsável. O resultado foi um mercado distorcido, instável e cada vez mais inacessível.

Mas há uma pergunta que permanece ignorada: por quê? Por que alguém se submeteria a injeções semanais, a pagar valores elevados e a aceitar efeitos adversos como náuseas, vômitos e diarreia, sem uma indicação médica clara?

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, com mais de 55 mil participantes, encontrou correlação significativa entre comparação social online e preocupações com imagem corporal, além de associação consistente com sintomas de transtornos alimentares. Em outras palavras, o problema não é apenas médico. É social, psicológico e estrutural.

Vivemos sob algoritmos que reforçam corpos irreais e padrões cada vez mais inatingíveis – ou atingíveis apenas com medicamentos, procedimentos e intervenções externas. A referência muda, o normal se desloca e, de repente, todos parecem “precisar” emagrecer mais um pouco.

Antes, televisão, cinema e publicidade ditavam padrões de beleza. Hoje, a diferença é a intensidade, a repetição e a precocidade da exposição. Crianças e adolescentes são impactados diariamente por imagens filtradas, editadas ou geradas por inteligência artificial. O resultado é uma epidemia silenciosa de distorções de autoimagem, ansiedade corporal e sofrimento psíquico.

Esse fenômeno não se limita às canetas emagrecedoras. Inclui também o uso abusivo de esteroides anabolizantes com fins estéticos. Não é mais possível dissociar redes sociais de saúde pública.

De um lado, enfrentamos uma pandemia de obesidade, com custos elevados e tratamentos crônicos. Do outro, uma pressão crescente de indivíduos sem indicação clínica, movidos por sofrimento psíquico em uma sociedade ainda profundamente gordofóbica, potencializada por algoritmos que vendem um corpo idealizado.

No fim, a conta chega para todos. O abuso inflaciona preços, agrava a escassez e amplia desigualdades no acesso à saúde. Ignorar esse cenário é empurrar o problema para frente – com custos cada vez maiores para a sociedade.

Ramon Marcelino - médico endocrinologista e especialista em medicina do estilo de vida |

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