A Marcha para Jesus, que acontece hoje em São Paulo, será palco do primeiro encontro de Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), nas ruas desde a explosão do escândalo envolvendo o filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). É também o primeiro encontro dos dois desde a operação policial envolvendo a produtora do filme.
O que aconteceu
Tarcísio e Flávio estavam em distanciamento momentâneo. O governador vinha evitando agendas com o senador, em uma tentativa de não se contaminar com a revelação do áudio em que Flávio pede dinheiro ao então banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, para custear o filme "Dark Horse". Os dois estiveram juntos em 15 de maio, dois dias após a divulgação do caso, no lançamento da pré-campanha de Guilherme Derrite (PP-SP) ao Senado em Campinas (SP) —na ocasião, uma entrevista coletiva prevista não aconteceu.
Encontro também ocorre dias depois de operação envolvendo produtora do filme. A investigação da Polícia Civil paulista, comandada por Tarcísio, mira suspeita de fraudes em um contrato da prefeitura de São Paulo com o ICB (Instituto Conhecer Brasil) para fornecimento de pontos públicos de wi-fi em regiões da periferia da cidade.
A dona da ONG é Karina Ferreira Gama, também proprietária da GoUP Entertainment, que produziu "Dark Horse". A polícia apura ainda se dinheiro do contrato custeou o filme.
Investigação foi criticada pelo prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), também aliado de Tarcísio, e por Flávio. No dia da operação, o senador disse que a apuração não tinha nada a ver com o filme e esperava que "parte" da polícia não estivesse sendo usada para "fins eleitoreiros". Já Nunes afirmou que é "erro grave" se a investigação tiver relação com a obra. "Perseguição política", criticou o emedebista.
Tarcísio defendeu a autonomia da polícia para investigar. "A operação da polícia é uma coisa que a gente não interfere. A polícia tem autonomia para fazer as suas investigações, para fazer as suas operações. É uma instituição de Estado", declarou o governador no dia seguinte à operação.
Reencontro acontece em meio a desconfiança de aliados de Flávio com postura de Tarcísio. Nos bastidores, bolsonaristas reclamam da falta de defesa enfática do governador ao pré-candidato. Lembram que, após o vazamento de áudios que apontam relação entre ele e Vorcaro, Tarcísio disse publicamente, na semana passada, que tem "muitas questões que ele mesmo precisa explicar".
Além de Flávio e Tarcísio, Ricardo Nunes também é esperado no evento. O trio deve participar da caminhada pela manhã, que sai da região da Luz, e do evento à tarde na praça Heróis da FEB, quando discursarão ao público. O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), confirmou presença. Evangélico, ele participa anualmente do evento. O pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) também irá.
Presidente Lula (PT) foi convidado, mas não comparecerá. Neste terceiro mandato, o petista não esteve em nenhuma edição da Marcha. Em 2026, o representante do governo no evento será Jorge Messias, advogado-geral da União, como acontece desde 2023. Evangélico, Messias costuma ser responsável por fazer a ponte entre a gestão petista e o segmento.
´Lula enfrenta resistências no eleitorado evangélico. Em 2023, Messias foi vaiado por parte do público da Marcha ao ler uma carta do presidente.
Flávio busca recuperar voto evangélico
Flávio vai à Marcha em meio a uma tentativa de superar desgaste causado pelo caso Dark Horse. O pré-candidato não participou da edição do evento ocorrida no Rio de Janeiro, no fim de maio, apesar de ser esperado. A ausência coincidiu com a divulgação de uma pesquisa Datafolha que mostrava sua queda nas intenções de voto após a revelação de que Vorcaro custeou o filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Senador perdeu intenções de voto entre evangélicos após áudio. Segundo a última pesquisa Datafolha, divulgada no fim de maio, o pré-candidato saiu de 49% para 42% neste eleitorado. A rejeição subiu de 28% para 34%.
Presidente da Marcha avalia que impacto do caso não foi "significativo" a ponto de afastar Flávio de evangélicos. Para o apóstolo Estevam Hernandez, da Igreja Renascer em Cristo, no entanto, a presença no evento ajuda a fortalecer sua candidatura junto a esse eleitorado. "A presença dele o conecta, é uma pessoa que professa o nome de Jesus. Acaba sendo favorável", afirmou ao UOL.
O próprio apóstolo diz não ter visto "ilegalidade" no pedido de dinheiro a Vorcaro. Hernandes afirmou que a reação negativa ao episódio foi baseada na forma como a informação foi divulgada ao público.
"Eu acredito que, inicialmente, aquilo que foi colocado, o momento em que foi colocado, no aspecto de se procurar um empresário, um banqueiro, alguém que sabidamente você tinha condições de pedir patrocínio, isso não causa problema ou constrangimento ou qualquer ilegalidade nisso. Óbvio que a opinião pública quer olhar os aspectos, os detalhes no aspecto do que foi divulgado", disse Apóstolo Estevam Hernandes. presidente da Marcha para Jesus.
Já Lula se afasta de evangélicos ao não comparecer à Marcha, avalia o apóstolo. "Acontece esse distanciamento, efetivamente. Óbvio que ele deve ter seus motivos, suas razões, mas, obviamente, a ausência dele acaba aumentando esse distanciamento.".
Estevam avalia que Lula poderia receber vaias se comparecesse, mas seria tratado com "todas as honras" do cargo de presidente pelo evento. "Claro que a gente sabe que há reações do público, são reações incontroláveis, mas, quanto à direção, não há absolutamente nenhum tipo de restrição e, numa eventual vinda, ele seria recebido como presidente da República e com todas as honras do cargo."
Já Flávio não deve ser alvo manifestações negativas. Apesar das denúncias sobre Vorcaro, o apóstolo acredita em um ambiente mais tranquilo para o senador.
"Olha, eu acredito que [possíveis vaias] não seriam numa intensidade que a gente possa falar que pode haver manifestação contrária. Mas é completamente imprevisível. Independente de quem seja, no caso do Messias, que representa uma ideologia de esquerda, a gente procura fazer com que o público respeite esse aspecto dentro do que está nos princípios cristãos", disse Apóstolo Estevam Hernandes. presidente da Marcha para Jesus.´














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