
Apesar de promessa, Marcha para Jesus vira embate político entre Flávio e governo Lula - Foto: MIGUEL SCHINCARIOL / AFP
Apesar da promessa da organização do evento de vetar manifestações políticas, a Marcha para Jesus, maior evento evangélico do país, foi palco ontem em São Paulo de um embate entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Palácio do Planalto, e o presidente Lula, que disputará a reeleição.
Do alto do carro de som, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro associou o governo petista ao “mundo do mal”. Já Lula, em conversa telefônica no viva-voz com o apóstolo Estevam Hernandes, organizador da Marcha, disse não participar de celebrações religiosas em época de eleição para não “passar a ideia de que estou tentando ter proveito político de uma coisa sagrada”.
O diálogo foi reproduzido nas redes sociais pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, que representou o presidente.
Lula não compareceu à Marcha neste mandato. O segmento evangélico é majoritariamente alinhado com o bolsonarismo e em uma das edições Messias, que é da Igreja Batista, chegou a ser vaiado quando foi anunciado como representante de Lula.
Passos do pai
Flávio repetiu a postura do pai, há quatro anos, quando também fez da Marcha um palanque. Na ocasião, Bolsonaro definiu a disputa contra Lula, da qual viria a sair derrotado, como uma “guerra do bem contra o mal” e afirmou ser “contra o aborto, a ideologia de gênero e a liberação das drogas”, apostando na pauta de costumes para atrair o voto conservador.
— Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso desse governo do Brasil este ano. Em nome do senhor Jesus, amém — discursou Flávio, que dividia o trio elétrico com o ministro Jorge Messias.
Lula, por sua vez, justificou, pelo telefone, sua ausência. Ele ligou para Messias, que estava ao lado do apóstolo Estevam Hernandes.
— Eu não participo de nada da religião em época de eleição, porque eu não quero passar a ideia de que estou tentando ter proveito político de uma coisa sagrada — afirmou o presidente na ligação.
Lula disse estar “muito feliz” com o evento e fez questão de lembrar que foi ele quem sancionou, em setembro de 2009, a lei que criou o Dia Nacional da Marcha para Jesus.
Estimativa de público
Na véspera, o apóstolo Estevam Hernandes, líder da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, disse ao GLOBO que não haveria espaço para discursos políticos. Apesar disso, declarou que, pessoalmente, está inclinado a apoiar Flávio:
— Não tenho ainda uma definição de apoio, mas é uma tendência natural, até em função do quadro polarizado que temos hoje.
A Marcha começou por volta das 10h na estação da Luz, no Centro, e percorreu 3,5 quilômetros até a Praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Zona Norte, com oito trios elétricos. No destino final houve apresentações de artistas da música gospel.
O evento reuniu 33,8 mil pessoas, segundo o Monitor do Debate Político da USP/CEBRAP em parceria com a ONG More in Common. Como a margem de erro é de 12%, isso quer dizer que havia entre 29,8 mil e 37,8 mil participantes às 10h20, horário de pico entre a concentração e o deslocamento. Já os organizadores divulgaram uma estimativa de público de 2 milhões.
À tarde, na estrutura para shows montada na Praça Heróis da FEB, Flávio foi novamente convidado a falar, sob os gritos de “Bolsonaro”. O senador apontou os dedos para o céu e cantou um louvor, enquanto carregava a bandeira israelense.
— Quero pedir a todos que orem por Jair Messias Bolsonaro, pelo Brasil, que voltará a ser uma nação irmã de Israel. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.
Não havia previsão de fala de Flávio, segundo informado na quarta-feira por Hernandes, apenas do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), por serem autoridades com participação direta na realização da Marcha.
Constrangido publicamente pelo senador Flávio Bolsonaro durante o percurso, Jorge Messias criticou o adversário de Lula. Ao GLOBO, o ministro afirmou que o evento “não é dia de comício”.
—Hoje é o dia de louvar e adorar a Deus, não é dia de comício. Eu vim aqui com esse espírito. As pessoas vão julgar o comportamento e a declaração de todos que estão aqui. Não sou eu que vou julgar. Jesus nos ensina a não julgar — disse o advogado-geral da União, ao ser questionado sobre a declaração de Flávio.
Messias colocou “nas mãos de Deus” o reenvio, por Lula, de sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF), rejeitada pelo Senado. Apoiador do nome do chefe da AGU, o ministro André Mendonça, do STF, também marcou presença na Marcha.
No trio principal, Messias manteve postura discreta e ficou distante do senador e de Tarcísio. Entre os shows de artistas gospel, o governador cantou uma música com o público e Nunes disse que o grupo defende “a família, o combate às drogas, o direito à vida”. Todos se ajoelharam para uma oração conjunta.
A edição marcou o reencontro entre Flávio e Tarcísio após a operação da Polícia Civil, vinculada ao governador, contra Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora de “Dark horse”, filme sobre Bolsonaro. A polícia investiga se uma ONG presidida por ela desviou recursos da prefeitura de São Paulo para o longa. O Instituto Conhecer Brasil foi contratado para instalação de pontos de wi-fi. A gestão Nunes nega irregularidades.














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