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Em 2025, as exportações para outros países cresceram 3,5%, mesmo com a queda de 6,6% para os EUA — Foto: Jonne Roriz/Bloomberg
Uma das apostas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para mitigar os efeitos para as empresas brasileiras das ameaças de novo tarifaço por parte dos Estados Unidos é redirecionar os produtos para outros países. Essa estratégia, porém, tem efeitos limitados em alguns setores, como máquinas e equipamentos, têxteis e pescados. Diferentemente de commodities, a demanda por esses itens tem variações relativas a especificações do comprador ou preferências culturais. Além disso, o mercado americano costuma absorver produtos de maior valor agregado.
Nesta semana, a conclusão de duas investigações do Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR) na sigla em inglês recomendaram a adoção de tarifas de importação adicionais para produtos comprados do Brasil.
A primeira, vinculada a um processo específico contra práticas “desleais” brasileiras que prejudicam o comércio dos EUA, sugere a aplicação de uma taxa de 25%. De acordo com Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), essa cobrança deve afetar 21% da pauta exportadora para os EUA.
A segunda, relacionada a uma investigação contra 60 países sobre falhas na proibição de importação de produtos fabricados com trabalho forçado, atinge o Brasil com uma tarifa de 12,5%. Ambas têm exceções, como petróleo, aeronaves, carnes, café e algumas frutas, e estão sujeitas à consulta pública.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. — Foto: Ricardo Stuckert / PRSe confirmadas, devem começar a valer em julho. No mesmo mês, deve terminar o prazo de uma tarifa global de 10% adotada pelo governo de Donald Trump em fevereiro, após a Suprema Corte americana derrubar a taxação aplicada no ano passado com base em uma lei de emergência nacional, que, no caso do Brasil, impunha uma cobrança de 50%.
Lula afirmou que quer negociar com o governo de Donald Trump, como vem fazendo desde o ano passado, quando foram anunciadas as primeiras tarifas. Os setores empresariais também vão participar do processo, subsidiando o governo federal e argumentando junto às investigações americanas. Mas o presidente disse que, se os EUA não quiserem comprar os produtos brasileiros, “não vai ficar chorando”.
— Nós não vamos ficar chorando. Nós vamos procurar outros parceiros. Se ele (os EUA) não quer comprar, a gente vai vender para quem quiser comprar A gente não vai ficar reclamando. Se não quiser investir aqui, nós vamos procurar outro — afirmou na abertura da reunião ministerial nesta semana.
O economista João Carmo, da 4Intelligence, reconhece que o tarifaço do ano passado deixou claro que o Brasil tem grande capacidade de redirecionar exportações, mas afirma que, para alguns setores mais dependentes do mercado americano, como de máquinas e equipamentos, agroindústria e têxtil, o impacto das novas taxas deve ser maior.
— Eu não duvido da capacidade que o país tem de redirecionar, por isso esperamos que o impacto na balança não seja tão grande. Mas setorialmente é mais difícil, setores que têm menor participação e menor poder vão ter mais dificuldade.
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Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da Confederação Nacional da Indústria (CNI), acrescenta que a diversificação não é uma alternativa ao mercado americano, mas é complementar. Até porque os EUA são líderes em compras de alto valor agregado do Brasil, de indústrias de média e alta intensidade tecnológica. Segundo a CNI, a cada R$ 1 bilhão exportados para os EUA, são criados 24,3 mil empregos no Brasil. Para destinos asiáticos, a média é de 16 mil empregos.
— Pela qualidade de exportações com os EUA, não podemos nos dar o luxo de virar a página e não trabalhar para eliminar essas barreiras que estão prejudicando as exportações, de alguma maneira, já prejudicaram, já temos evidências. A prioridade é eliminar as barreiras enquanto se trabalha em frentes complementares de diversificação de parcerias que sejam capazes de trazer essa complexidade.
Um estudo do BNDES evidencia que, na experiência de taxação do ano passado, o redirecionamento das exportações para outros países minimizou os impactos sobre o resultado agregado da balança comercial brasileira, mas não reverteu os prejuízos de todos os setores.
Em 2025, as vendas para outros países cresceram 3,5% ante 2024, considerando o valor, mesmo com a queda de 6,6% dos embarques para os EUA. “Tal descompasso evidencia a importância de novos mercados nas relações comerciais entre o Brasil e o resto do mundo”, diz o estudo.
Analisando o período de agosto, quando entraram em vigor as tarifas, a dezembro de 2025, houve aumento de 8% das exportações do Brasil para o mundo, em contraste com a redução de 21% de vendas para os americanos. Alguns segmentos, porém, não conseguiram escapar das perdas.
O setor de madeira, carvão vegetal e obras de madeira teve queda de 50% nos embarques para os EUA e de 22% para o mundo. Em peixes e crustáceos, o recuo foi de 53% e 18%, respectivamente. No caso de máquinas, aparelhos e materiais elétricos e suas partes, houve baixa de 10% nas exportações para os EUA e de 4% para o mundo.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), Eduardo Lobo, afirma que novas alternativas de mercado foram abertas no ano passado, para rodar o estoque, mas o valor da venda foi abaixo do normalmente praticado.
Além disso, foi mantida alguma parcela da exportação para os EUA, só que com a margem cortada. Desta vez, para piorar, os pescados são a única proteína fora da lista de exceções sugerida pelo USTR.
— Essa taxação coloca o setor novamente sem competitividade para os EUA, em relação aos competidores da América Central e o Caribe. Diferentemente, de todos os países que foram taxados pelos EUA, a gente tem 37,5%, a maioria dos países vai ter uma taxação de 12,5%. Ainda não temos certeza se a tarifa de 10% (hoje vigente) vence ou se soma. Pode ser 47,5%, muito parecido com os 50% do ano passado.
Lobo diz que vai pedir para o governo brasileiro a inclusão novamente no Plano Brasil Soberano, que reúne medidas para mitigar o impacto financeiro de empresas afetadas pelas cobranças tarifárias dos EUA e também pela guerra no Oriente Médio.
O presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, afirma que o setor é o mais afetado pela nova ameaça tarifária, porque, no top 3 de segmentos brasileiros que mais exportam para os EUA, é o único que não foi poupado pelo governo Trump, ao contrário de petróleo e aeronaves.
No ano passado, Velloso afirma que a queda das vendas para os americanos, de 9%, só não foi maior com a tarifa de 50% porque houve aumento do valor exportado. No total, as exportações subiram 5%, graças à retomada das compras pela Argentina, com a melhora da economia por lá, e a uma demanda mais forte de Cingapura.
O executivo disse, contudo, que não houve redirecionamento da produção que tinha como destino os EUA, porque o produto demandado pelo americano é específico, com as medidas em libra e polegada, por exemplo, em vez de quilo e metro.
— Se não tivéssemos as tarifas, teríamos provavelmente R$ 500 milhões a mais de exportações em 2025. A participação dos EUA nas exportações do setor caíram de 26,9% em 2024 para 23,3% no ano passado.
Agora, apesar da diplomacia empresarial e a governamental, Velloso acredita que as tarifas serão aplicadas, mas como são menores do que as de 2025, a expectativa é de que as perdas também sejam reduzidas. A expectativa do setor é que a nova MP do Brasil Soberano seja aprovada da maneira que foi enviada pelo governo.
O diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, chama atenção que, mesmo dentro de um mesmo setor, os impactos são diferentes e o resultado macro às vezes esconde prejuízos significativos para determinados segmentos.
A exportação da indústria para os EUA até cresceu entre agosto e dezembro do ano passado, 4,31%, mas apenas por conta do desempenho das vendas de cordas de sisal, que são usados na agropecuária dos EUA e não foram sobretaxados. A queda em moda/confecções foi de 18,34%, de filamentos, de 83,64%, de fibras têxteis, de 67,3% e de tecidos, de 23,74%.
As exportações totais, para todos os países, tiveram aumento de 8%. Mas Pimentel explica que tem empresas menores que são altamente dependentes da receita dos EUA, especialmente as do setor de confecções, já que o Brasil é bastante conhecido em alguns mercados de nicho, como moda praia. Segundo ele, cerca de ⅓ das vendas externas do segmento de moda do país vai para os EUA.
— As empresas buscaram outros mercados, Europa, América do Sul, mercado interno, então as exportações do ano passado ficaram mais ou menos equilibradas. Mas quando falamos do macro, esquecemos do micro, que são pequenas empresas, que atuam nesse mercado de nicho e tem 30% a 40% da sua receita advinda dos EUA.
Pimentel afirma que não há como “do dia para noite” trocar o mercado americano por outros países ou mesmo redirecionar para o público brasileiro.
— Não é assim que as coisas funcionam. Quando você trabalha com atendimento de cliente, você constrói uma relação, você constrói um tipo de produto para atender aquele cliente, porque é um produto de nicho. Você não tá vendendo milhões de produtos ao mesmo tempo. Você está construindo marca e relacionamento. Fácil falar, mas é muito mais difícil fazer, principalmente no mundo atual.
Em relação ao mercado interno, o representante da Abit afirma que há um entrave a mais, que é a competição com os importados asiáticos, especialmente após a derrubada da “taxa das blusinhas” por uma medida provisória enviada pelo governo Lula ao Congresso. O setor quer reverter isso no Legislativo. Juntando os dois fatores, as últimas semanas, segundo Pimentel, foram de “tremenda tempestade” para o setor.
O Globo














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