18 maio 2026

A Feira de Caruaru ‘faz gosto a gente ver’: conheça a história da música que eternizou a feira. (Clássico de Onildo Almeida, eternizado na voz de Luiz Gonzaga)

Feira da Moda de Caruaru reúne compradores de todo o país — Foto: Reprodução/PMC

Clássico de Onildo Almeida, eternizado na voz de Luiz Gonzaga, ajudou a apresentar Caruaru ao Brasil e atravessa gerações como um retrato cantado da cidade que completa 169 anos.

Por Larissa Juliana, g1 Caruaru, Tv Asa Branca

Poucas obras conseguem resumir tão bem a alma de uma cidade quanto “A Feira de Caruaru”. 70 anos depois da primeira gravação, a música composta por Onildo Almeida segue atravessando gerações e transformando em melodia o cotidiano da maior feira ao ar livre do Nordeste. No momento em que Caruaru, no Agreste de Pernambuco, celebra 169 anos nesta segunda-feira (18), o clássico permanece como uma espécie de retrato cantado da cidade.

Mais do que uma canção, “A Feira de Caruaru” virou documento histórico, patrimônio afetivo e cartão-postal sonoro do município. Gravada inicialmente pelo próprio Onildo Almeia, em 1956, e eternizada no ano seguinte na voz de Luiz Gonzaga, a música ajudou a projetar nacional e internacionalmente a feira que, como diz a letra, vende “de tudo que há no mundo”.


Entrada da Feira de Caruaru, no Parque 18 de Maio, faz referência a música composta por Onildo Almeida — Foto: Reprodução/PMC

A cidade que nasceu da feira

À esquerda: Uma das primeiras fotos da Feira de Caruaru, registrada em 1895 por Francisco Bocage; à direita: registro atual do Parque 18 de Maio — Foto 1: Francisco Bocage — Foto 2: Divulgação/Elvis Edson/Defesa Civil

A relação entre a feira e a própria origem de Caruaru é, para historiadores, impossível de separar uma da outra. Segundo o historiador José Urbano, a cidade surgiu justamente a partir da atividade comercial desenvolvida ao redor da antiga capela de Nossa Senhora da Conceição, construída em 1782.

“A feira é a gênese da nossa cidade. A posição geográfica e a vocação comercial são os dois fatores responsáveis pelo desenvolvimento econômico e social de Caruaru”, explicou.

A dinâmica local ainda guarda uma curiosidade rara. “Do ponto de vista da sociologia, a cidade nasceu após a feira, quando geralmente é o contrário”, disse José Urbano.

Hoje, no entorno do Parque 18 de Maio, funcionam 14 feiras livres, entre elas a Feira de Artesanato, de Importados, de Flores, de Ervas Medicinais, de Couro e de Bolos e Doces. A principal delas, conhecida historicamente como Feira da Sulanca e referência nacional no comércio de confecções, passou a se chamar oficialmente Feira da Moda de Caruaru em setembro de 2025, após sanção de projeto de lei pela prefeitura.

O espaço abriga ainda o Mercado de Carne, o Mercado de Farinha, a Casa da Cultura José Condé e a Casa Rosa, antigo matadouro municipal transformado em mercado cultural.

O baião que atravessou fronteiras


Onildo Almeida no Parque 18 de Maio, em Caruaru — Foto: Joalline Nascimento/g1

Foi observando esse universo popular, ainda na infância, que Onildo Almeida encontrou inspiração para escrever o baião que mudaria sua trajetória e a história cultural de Caruaru. O compositor relembra que percebeu que a feira tinha mais histórias do que cabiam na primeira versão da música.

“Quando eu aqui cheguei, eu disse: ‘esse negócio está pequeno. De Caruaru tem mais o que dizer’. Aí fiz mais duas estrofes e concluí a música”, contou em entrevista à TV Asa Branca.

A canção foi apresentada pela primeira vez na antiga Rádio Difusora de Caruaru, onde Onildo trabalhava como operador. Foi pelos corredores da emissora que Luiz Gonzaga ouviu a gravação e pediu para conhecer o autor. A frase dita pelo Rei do Baião virou quase uma lenda da música nordestina: “Como é que você tem um negócio desse e não me amostra?”.

Em 1957, Luiz Gonzaga gravou “A Feira de Caruaru”. O disco vendeu 100 mil cópias em apenas dois meses e garantiu ao cantor o primeiro disco de ouro da carreira. Para Onildo, a parceria entre a música e Gonzaga foi decisiva para transformar a feira em referência cultural no país.

“Ela passou a ser famosa através da música. Quem não conhecia a feira teve o desejo de conhecer”, afirmou o compositor. “O Luiz Gonzaga foi muito importante na divulgação da feira lá fora”, completou.

'Vende de tudo'


Feira da Moda de Caruaru reúne compradores de todo o país — Foto: Reprodução/PMC

A feira mudou de endereço ao longo dos séculos, cresceu e se modernizou, mas sem perder a essência popular descrita nos versos de Onildo. Em 2006, recebeu do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.

“Ela mudou um pouco. Mas não deixou de ser feira. Vende de tudo”, resumiu Onildo. “Quando tem uma coisa pra vender e não consegue, vai pra feira que você vende.”

A própria música parece funcionar como um passeio pelas bancas do Parque 18 de Maio. Entre “massa de mandioca”, “sorvete de raspa”, “bonecos de Vitalino” e “fruta de parma”, cada verso constrói uma fotografia sonora da cultura popular nordestina.

Talvez por isso a canção nunca tenha conseguido tradução perfeita para outros idiomas. “É uma música que não pôde ser traduzida porque são coisas que lá fora não tem”, disse Onildo. “Tem coisas que é só nossa.”

'De tudo que há no mundo só tem na feira de Caruaru' — Foto: Reprodução/PMC

A voz de uma cidade


Onildo Almeida e sua esposa Lenita Almeida na residência onde moram. — Foto: Reprodução / Tv Asa Branca

Sete décadas depois da primeira gravação, “A Feira de Caruaru” continua ecoando entre gerações como uma espécie de hino popular da cidade. O áudio original gravado por Onildo Almeida em 1956, em disco de 78 rotações, ganhou neste mês uma restauração e remasterização assinadas por Thiago Rad, levando novamente às plataformas digitais a primeira versão da música.

Onildo Almeida, que completa 98 anos em 2026, soma mais de 500 músicas gravadas por artistas como Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Gilberto Gil e Chico Buarque. Patrimônio vivo da cultura pernambucana e doutor honoris causa, ele segue compondo e acompanhando a permanência de sua obra nas novas gerações.

Sete décadas depois, a feira continua lotando corredores, espalhando cheiros, sotaques e mercadorias. E a música segue fazendo o mesmo. Em Caruaru, feira e canção parecem ter se tornado uma coisa só.

A Feira de Caruaru

(Onildo Almeida)

A Feira de Caruaru
Faz gosto a gente ver
De tudo que há no mundo
Nela tem pra vender
Na feira de Caruaru

Tem massa de mandioca
Batata assada, tem ovo cru
Banana, laranja, manga
Batata doce, queijo e caju
Cenoura, jabuticaba
Guiné, galinha, pato e peru
Tem bode, carneiro e porco
Se duvidar inté cururu

Tem cesto, balaio, corda
Tamanco, gréia, tem cuêi-tatu
Tem fumo, tem tabaqueiro
Feito de chifre de boi zebu
Caneco alcoviteiro
Peneira boa e mé de uruçu
Tem carça de arvorada
Que é pra matuto não andar nu

Tem rede, tem balieira
Mode menino caçar nambu
Maxixe, cebola verde
Tomate, cuentro, couve e chuchu
Armoço feito nas torda
Pirão mexido que nem angu
Mobilha de tamburete
Feita do tronco do mulungu

Tem louça, tem ferro velho
Sorvete de raspa que faz jaú
Gelada, cardo de cana
Fruta de parma e mandacaru
Bonecos de Vitalino
Que são conhecidos inté no Sul
De tudo que há no mundo
Tem na Feira de Caruaru


Feira de Artesanato de Caruaru — Foto: Joalline Nascimento/g1

Por Larissa Juliana, g1 Caruaru, Tv Asa Branca

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