26 janeiro 2026

Tacaratu/Petrolândia/São Paulo - Adelmo Freire da Silva: o campeão improvável

Registro raro de 1977, no Ginásio do Ibirapuera, São Paulo.

Adelmo teve a vida marcada por uma infância simples, pelo ofício do pai, pedreiro, e pelos banhos no rio São Francisco.Ainda jovem, em Petrolândia, revelou coragem ao vencer uma corrida que entraria para a história da cidade pelo desfecho inesperado.

Origem

Antes de qualquer medalha, Adelmo “fez-se gente” pelas mãos de seus pais: Miguel Freire da Silva, natural de Tacaratu, e Gercina Maria de Araújo, da Vila de Moxotó (então distrito de Petrolândia). Veio ao mundo em 22 de dezembro de 1953, em uma casa singular que resiste ao tempo em Tacaratu–PE: uma construção de fachada arredondada, em forma de meia-lua. Na parte da frente funcionava um bar. Ao lado, com entrada independente, ficava a residência da família.

A rua, outrora de chão batido, ganhou calçamento e uma praça com bancos de cimento. Hoje, a casa encontra-se em processo de tombamento, por integrar o conjunto arquitetônico reconhecido como patrimônio histórico da cidade. Permanece lá, intacta na paisagem urbana, e segue inteira na memória do campeão.

Casa em formato de meia-lua, onde Adelmo nasceu.



Ofício do pai e Caraibeiras
Da infância em Tacaratu, Adelmo guarda lembranças que se confundem com a figura do pai, homem de mão firme e fé concreta. Pedreiro de profissão, acostumado a erguer casas e o que mais fosse preciso, foi ele quem construiu, em Caraibeiras, distrito de Tacaratu, a igreja e o colégio ao lado. Naquele tempo, ainda menino, Adelmo o acompanhava no trabalho. Sem compreender bem o motivo de ser levado (talvez para aliviar a rotina da mãe, que cuidava de muitos filhos), seguia com ele até Caraibeiras.

Enquanto o pai trabalhava, Adelmo ficava na casa de Risalva, que mais tarde se tornaria sua cunhada e, na vida, uma segunda mãe. Naquela casa, entre crianças, brincadeiras e o vai e vem do tear de fazer redes, o menino passava os dias, vendo a vida simples se desenrolar entre o trabalho e o afeto.

Igreja de Santa Cruz de Caraibeira, lembrança do pai Miguel Freire da Silva, referência silenciosa para o filho


Família e mudança para Petrolândia

A família era grande, imensa. Ao todo, quatorze filhos, dos quais doze sobreviveram. Adelmo é o oitavo na ordem, criado num lar onde dividir espaço, comida e atenção era regra. Por isso, a infância foi de liberdade, mas sempre vigiada.


Em 1971, a família se mudou para Petrolândia e o cotidiano ganhou novas cores: o pai comprou um jipe, e Adelmo se aventurava dirigindo pelas estradas de terra ao lado do irmão mais velho. A mãe ficava com os filhos durante a semana, enquanto o pai trabalhava fora.

O rio e as travessuras

Foi ali que a vida ganhou gosto de aventura. Adelmo e os primos escapavam de casa para tomar banho no Rio São Francisco, sem que a mãe soubesse. Subiam a escadaria do cais, corriam pela muralha alta e larga e pulavam na água, sem medo ou sem noção do perigo. Era um tempo em que os rapazotes faziam “muita arte”, como ele mesmo diz. O castigo vinha quando o pai descobria. Bastava chegar em casa com o “bigode de barro” denunciando o banho proibido. Sem espelho para esconder a prova, o chicote falava antes das explicações. Na escola, porém, Adelmo era aluno aplicado e comportado.

A corrida improvável


Um dia, soube que estavam abertas as inscrições para uma corrida comemorativa do colégio. Lembra vagamente que seria em celebração à Semana da Pátria, próxima ao sete de setembro, ou coisa parecida. Nunca havia corrido antes, a não ser nas brincadeiras de esconde-esconde e nas corridas improvisadas da infância. Ainda assim, viu ali uma chance: quem sabe, se chegasse entre os três primeiros, ganharia algum dinheiro como premiação. Resolveu se inscrever.

O percurso da corrida começava na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Barreiras, e seguia até o colégio, em Petrolândia, num trajeto de mais ou menos dez quilômetros. A orientação era ir de camiseta, calção e sapato Conga — um tênis simples, barato, muito usado na época e que fazia parte do fardamento escolar.

Na casa de Adelmo, com tantos filhos, embora o pai tivesse uma condição financeira razoável, as dificuldades eram muitas. O tênis que ele usava para ir à escola era folgado, porque precisava ser dividido com o irmão. Pensou consigo mesmo: “Quando eu começar a correr, esse sapato vai me fazer raiva e soltar do pé. Melhor ir logo de sandália.” E assim fez.

A mangação foi grande quando ele se juntou ao grupo. Todos riam, faziam deboche. Valdão, jogador de futebol e preparador físico informal dos próprios colegas, era o favorito, e todo mundo sabia disso, inclusive Adelmo. As gozações, em vez de desanimá-lo, serviram de estímulo. Agora é que ele ia correr mesmo, para mostrar do que era capaz.

Dada a largada, Valdão, como previsto, disparou na frente. Com ele, uma multidão de estudantes que logo ficou para trás — Adelmo também. Mas seguiu firme. No caminho, muitos corredores, sem preparo e sem alimentação adequada, passaram mal e foram sendo recolhidos de carro. Quando Adelmo se deu conta, já estava em frente ao colégio. Era o primeiro a chegar, para espanto do diretor, o professor Osmar Salles.

— Como assim, você chegou primeiro? — perguntou.
Adelmo respondeu, com convicção, que havia chegado sim e que, se fosse preciso, fazia o mesmo percurso de volta, ali mesmo, na hora.

Depois souberam que o favorito fora um dos que passaram mal e precisara ser levado ao hospital para tomar soro. Adelmo era o campeão, de fato e de direito. Para sua decepção, não houve prêmio em dinheiro, apenas uma medalha simples, daquelas que mal pesam no pescoço.

Guardou a medalha como quem guarda um testemunho. De certa forma, estava feliz: sabia que a sorte havia jogado a seu favor, mas tinha provado a si do que era capaz. Pegou gosto pela corrida e nunca mais deixou de correr.

São Paulo e o alto rendimento

Pouco tempo depois, a vida tomaria outro rumo. O pai decidiu ser hora de partir. Por volta de 1975, levou a família para São Paulo. Adelmo acredita, com convicção, que essa decisão salvou o destino deles.



Primeira foto em terras paulistanas em 1975.

Ali o mundo se abriu. Prestou concurso e ingressou no serviço público estadual. Com o interesse pelo atletismo, foi transferido para a Secretaria de Educação Física, Esporte e Turismo, onde passou a treinar com estrutura profissional, inclusive orientação técnica, no Ginásio do Ibirapuera, em clubes como Corinthians e Palmeiras e nas pistas e piscinas da FEBEM. Durante três ou quatro anos, viveu entre treinos e competições, correndo e nadando em campeonatos estaduais. Viajou por todo o interior de São Paulo, vivendo uma rotina intensa, feita de treino, estrada e competição.

Nesse período, conviveu com grandes nomes do esporte brasileiro, como Adhemar Ferreira da Silva e João do Pulo. Adhemar, em especial, foi referência e articulador, o homem que fazia a engrenagem funcionar na Secretaria de Esporte e Turismo. Uma fotografia daquela época, por volta de 1977, tirada no ginásio do Ibirapuera, é hoje o único registro material dessa fase — sobrevivente de um tempo em que as fotos ainda não tinham o valor que a memória aprenderia a lhes dar depois.

Registro raro de 1977, no Ginásio do Ibirapuera, São Paulo.


Família, trabalho e permanências

Com o passar do tempo, os apoios ao esporte rarearam. Adelmo foi se desmotivando. Conheceu Eliana de Sousa Freire, com quem se casou em julho de 1982, já longe das competições. Vieram os filhos – Rita de Cássia de Sousa Freire e Guilherme Augusto de Sousa Freire – e, com eles, mais responsabilidades.

Seguiu no serviço público com constância: o trabalho regular como funcionário público, atividade à qual se dedicou ao longo dos anos e por meio da qual alcançou a aposentadoria que hoje desfruta.




Hoje

Hoje, já na condição de avô de Maria Clara Fernandes Freire, Adelmo olha para trás com serenidade. O corpo cobra o preço do tempo, as peças pedem conserto. A memória, contudo, segue firme: a casa em meia-lua, o pai pedreiro, o rio e a corrida improvável de rapazote franzino que resolveu se inscrever sem saber sequer se chegaria ao fim. Talvez seja isso que melhor defina sua história — a coragem silenciosa de quem entra na prova sem garantias, movido apenas pela vontade de seguir em frente.

Família completa

Por: Paula Rubens, via telefone, em 30.11.2025.

* Paula Francinete Rubens de Menezes é Presidente Instituto Geográfico e Histórico de Petrolândia (IGHPetrolândia)

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