quarta-feira, 27 de junho de 2018

Petrolândia: Sr. Dedinho a arte da marcenaria e a Música


Nascido na antiga Petrolândia, a arte modificou seu destino de menino pobre. Essa história fala de determinação, do amor pela música, da origem da Banda Adolfo Alexandre de Melo e retrata uma época de uma cidade que hoje não existe mais.

HISTÓRIA COMPLETA

Ele viu quarenta e cinco aviões pousarem no campo de aviação de Petrolândia, ampliado para receber o Presidente Getúlio Vargas, e a banda da Polícia MIlitar de Pernambuco tocando na cerimônia. Viu também os soldados enfileirados desde a Usina , onde presidente se hospedou, até a Estação de Trem formando uma cerca viva protetora. Viu Luiz Guará, o mestre dos artesãos, reproduzir igualzinho aqueles mesmos aviões de guerra de quatro motores. Admirava mas não podia comprar. Contentava-se em brincar com os carretéis de linha que o próprio Luiz Guará dava um jeito de transformar em carros.


Aos sete anos de idade José Costa da Silva, Seu Dedinho, como é conhecido, já trabalhava carregando água do rio abastecendo as casas de muita gente na velha Petrolândia para ajudar em casa. Na época não havia água encanada e os chafarizes só vieram depois. Tão novo era para o serviço que Dr. Ramalho, pai de Dr. Dario, médico da cidade, um dia tomou-lhe a lata, derramou a água e amassando-a disse-lhe com firmeza , mas com carinho, que lugar de menino era na escola. Mas o quefazer? Filho de Otacílio Gomes da Silva e Maria Gomes da Costa , desde pequeno viu a mãe trabalhando duro. Ela originária de Salgueiro, veio para Petrolândia fugindo da seca. Eram tempos difíceis. Muita seca, muito pedinte na rua. Petrolândia, por causa da Rede Ferroviária e do rio, atraía muita gente. A casa onde nasceu em 23 de Outubro de 1935, construída por seu pai, que era metido a pedreiro apesar de não ser dos melhores, diz ele, era de tijolo cru com base de pedra e coberta por palhas de coqueiro. Até hoje não sabe como a casa sem reboco resistiu às chuvas. Depois, foi sua mãe que lavando roupa no rio e fazendo carrego de água foi comprando telhas, caibros e ripas para construir um telhado. Seu pai bebia muito. Chegou a trabalhar na rede ferroviária na construção do túnel na pequena usina construída para geração de energia a partir da cachoeira de Itaparica, mas perdeu o emprego. Depois disso vivia de fazer filtro de pedra junto com seu irmão Nêgo, pai de Seu Tita. Trabalhava três meses e em seguida passava outros três bebendo. Assim sendo, procurou desviar-se de Dr. Ramalho, mas continuou a carregar água para ajudar a mãe. Agora já não era com uma lata água na cabeça, mas com dois galões nos ombros. Às vezes chegava a carregar até cinqüenta galões por dia. Começou a freqüentar as aulas que Dona Afonsina Cavalcanti dava na casa dela, mas não aprendeu nada. Carregava água até ás 11h, no sol quente. Chegava morto de cansado, só tinha vontade de ir para casa. Saiu da escola e só veio a estudar novamente depois quando começou a trabalhar na olaria. Já rapazinho, tinha vergonha de não saber assinar seu próprio nome. Também não gostava da idéia de ter que pedir aos outros para escrever carta para a namorada e ficarem sabendo dos seus segredos. Procurou D. Silvia Costa, sua parente, que era professora. Aí foi diferente. Além do seu próprio interesse, ela também tinha muito jeito para ensinar. “Parecia que ela conseguia abrir a cabeça da gente, além disso, eu sentia que ela queria mesmo que eu aprendesse” , “ com ela aprendi também a gostar de matemática”, ele lembra agradecido. Até então, não tinha tempo para escola. Aos 11 anos de idade foi trabalhar na olaria aberta pela Comissão do Vale do São Francisco. Prensava telhas. Junto com ele mais de vinte pessoas, metade delas criança também. O trabalho não era nada leve. A princípio carregava telhas, depois passou a ser prensador. As fôrmas eram colocadas em baixo da máquina prensadora. Puxava a pesada prensa e com ela ia moldando as telhas francesas que seguiam para o forno. Alem desse trabalho, fazia uns extras.. Um dia foi chamado para carregar lenha para o forno da olaria. Esse extra lhe rendeu 65,00 cruzeiros. Com esse dinheiro comprou uma assadeira inteira de pão doce e comeu todinho. Deus 50,00 à mãe, que lhe comprou uma alpercata. Com o restante comprou uma tarrafa e nunca mais faltou peixe em casa. Acontece que passado o tempo seu corpo começou reclamar . Apareceram muitos tumores, o cabelo começou a cair, adoeceu. Levado ao médico da Comissão foi constado que o gás-óleo usado para untar as formas, e que acabavam encharcando sua roupa, era a causa da doença. O médico proibiu de continuar trabalhando lá. Assim, foi transferido para a Carpintaria. Treze anos haviam se passado na olaria. Agora, adulto, tinha a chance de aprender outro ofício. A carpintaria, assim como a Olaria , haviam sido criadas para fornecer material para a construção das casas do Núcleo Colonial de Petrolândia, no distrito de Barreiras . Lá aprendeu a serrar linhas de madeira, caibros, fazer portas e janelas, carroceria de caminhão e reboque para tratores. José de Sá era o encarregado. Trabalhavam lá também Nelson Gomes de Almeida, Antonio e Joaquim Barbosa ( irmão de D.Eulália, tios de Gilvan), Pedro Antonio de Souza e André Piau . Em 1962, durante o governo Kubistchek houve uma reclassificação e só assim passou a ter carteira assinada e poder contribuir para o IPASA , o que lhe permitiu aposentar-se anos mais tarde. Nessa época aos 23 anos, casou com Maria Lunguinha Souza Silva, sua amiga e vizinha com quem, sem perceber, viu-se namorando. Tiveram onze filhos: Francisco, falecido aos três dias de nascido, João, Eugênio, Eugênia, Cristovão e Cícero (gêmeos), Roque, Maria Clara, Maria Luiza, Cecília e Emanuel. Tempos difíceis. Salário pequeno e muito filho para criar. A música entrou na sua vida quando Milton Pachola, um rapazinho que tocava piston , depois de haver passado um tempo em Pão de Açúcar, acompanhando o pai padeiro, voltou a morar em Petrolândia e tentou montar uma banda. Convidou algumas crianças a aprenderem a tocar um instrumento. Dedinho foi junto, tinha uns 14 anos. Os instrumentos foram cedidos por Manoel Ovídio. Eram da extinta Sociedade Musical mantida pelos comerciantes de Petrolândia no ano de 1938. A escola foi proveitosa, mas a banda não foi pra frente. Só ele continuou interessado por música. Continuou aprendendo com Zezinho de Chica. Zezinho tinha sido aluno de Edson Porto , um ex-integrante de circo responsável por formar a Banda da Sociedade Musical.. Logo Zezinho começou a juntar quem tocava para formar uma bandinha para tocar no carnaval. Era uma bandinha pequena, mas ajudava a treinar. Pouco tempo depois chegou em Petrolândia um músico de Serra Talhada, Valdomiro Lima (Biró), interessado em montar uma banda. Solicitou os instrumentos que a Comissão já possuía. Ela não só disponibilizou os instrumentos como lhe arranjou um emprego para que pudesse ensinar música aos que já tinham alguma experiência. Convidou a turma de Zezinho de Chica para participar. Ele, Dedinho, foi . A Comissão tinha interesse em formar uma banda para animar as cerimônias cívicas e os festejos promovidos por ela. Como reforço, a Comissão conseguiu que Policia Militar cedesse o Sargento Cícero , maestro de banda. Foi aí que a Banda cresceu, ganhou trajes de gala e marcou presença nas escolas, nos eventos do município e nas festas de Barreiras. No início, desde a turma de Zezinho de Chica, tocava de graça só por prazer e para treinar. Era capaz de até pagar para ver os amigos pularem carnaval na sua frente, de tanto que gostava da música e da farra. Foi por prazer que na vitória de Jânio Quadros para presidente, como não sabia o hino da campanha, tocou O Bloco da Vitória à noite inteira: “ O bloco da vitória está na rua desde que o dia raiou, venha minha gente pro nosso cordão, que a hora da virada chegou, ô, ô, ô...” No outro dia, acordou de ressaca e atrasado para o trabalho. Saiu correndo quando João Baiano lhe chamou; ” Dedinho vem cá! Seu Rui Aquino, o prefeito, lhe mandou entregar essa encomenda”. Quando abriu o envelope quase caiu de costa: tinha lá 700 cruzeiros como gratificação por animar o povo com o trombone. Era muito dinheiro para quem ganhava um salário de 600 cruzeiros por mês. Nesse dia , Sr, Moura , chefe da Carpintaria, vendo seu estado, e provavelmente Janista como o prefeito, o liberou do expediente da tarde. Assim, depois de almoçar pegou a mulher e foi correndo comprar rede, roupas e sapatos. Na época tinha dois filhos e todo mundo dormia junto, porque ainda não tinha cama para todos. Compraram o que precisavam e ainda sobrou dinheiro. Ajudou a mãe e guardou a sobra para ir gastando aos poucos. A música, além de lhe fazer feliz, começava render frutos. A partir daí, era com o ganho do Réveillon e Carnaval que ele pagava a matrícula dos filhos na escola. Já músico conhecido, José Soares, diretor do Ginásio Municipal de Petrolândia querendo trazê-lo para a banda do Ginásio e sabendo do seu talento para a matemática o incentivou a continuar a estudar. Adulto, casado e pai de filhos fez o supletivo. Chegou a comprar o livro de Admissão ( naquela época para entrar no ginásio tinha de ser aprovado no exame de Admissão) e estudar com o professor Zé de Ana, mas acabou desistindo. O ginásio era Municipal mas cobrava mensalidade. Pensou nos muitos filhos...não teria condições. Decidiu não continuar os estudos. Preferia investir neles. Era pensando nos filhos que, além do trabalho na carpintaria da Comissão do Vale, ganhava um extra com a música e ajudava no serviço de auto falante de Panta que funcionava na Galeria Elite, restaurante montado por Panta e Messias, onde depois funcionou o Bar de Pedro Espíndola. Lá atendia aos pedidos de música ofertadas aos aniversariantes. Engraçado era ver o povo batendo palmas na rua logo depois dos anúncios, lembra ele . Lembra também que era comum nessa época ,nos dias de calor, o povo pedir música para dançar na frente de suas casas. Lembra até dos dizeres quando anunciava a hora da Ave Maria: “ 18h horas meus amigos ouvintes, hora certa da Ave Maria. Nas catedrais e nas capelas humildes milhares de sinos elevam suas vozes sonoras a fim de elevar um louvor a Maria mãe de Deus e mãe dos homens. .., etc, etc.. Então, foi assim, com muito trabalho, que conseguiu construir sua casa. Aos poucos conseguiu construir mais duas . Aposentou-se pelo IPASA . Vendeu uma das casas. Com o dinheiro comprou todos os equipamentos e montou sua própria carpintaria. Com o início dos levantamentos para a construção da barragem a marcenaria se encheu de encomendas. Ganhou muito dinheiro. Melhorou a casa, comprou carro. Trabalhava como um louco, mas nunca parou de tocar. Às vezes chegava ao ensaio cheio de pó de serra, mas não faltava. José Araújo, então prefeito do Município havia requisitado os instrumentos da Comissão do Vale e oficializou a Banda Municipal. José Dantas, o prefeito seguinte, começou a pagar cachê pelas apresentações, chegavam a ganhar dois mil cruzeiros por evento. Era um bom dinheiro para a época. Depois Dr. Simões, assumindo a prefeitura, assinou a carteira de trabalho dos músicos e sugeriu colocar o nome de Adolfo Afonso de Melo , um dos componentes da banda que estava muito doente , e que, inclusive veio a falecer pouco tempo depois de receber a homenagem. Afirma rindo: “ Deus me livre de ser um dia homenageado! Prefiro continuar vivo!”. Depois de ter tocado Bombardine e Trombone por 57 anos , aos 82 anos já não toca mais. Fumante por muitos anos, diz que deve a vida ao Trombone. Tudo de ruim saiu através do sopro, diz ele, do cigarro à depressão. Tem muito orgulho em ter deixando herdeiros na carpintaria e na música. Seu filho Emanuel é marceneiro, já Cícero toca saxofone e junto com outros forma a Banda quando aparece convite. Convicto de que as mudanças provocadas pela barragem foram necessárias para o desenvolvimento do país, não se importa de ter sido obrigado a mudar para a nova cidade, apesar da saudade das pescarias que fazia na antiga. Só lamenta ver a banda hoje praticamente desfeita. Sente pelos amigos como José leite filho, ótimo músico teórico, que teve de ir embora da cidade e outros como Divacy ,excelente músico prático, na banda desde o início, que permanece até hoje lutando para ela não se acabar de todo. Emociona-se ao lembrar dos aplausos que recebiam quando desfilavam pelas ruas e do prazer e orgulho que sentia quando o povo, acordado pela alvorada no dia sete de setembro, abria suas janelas para ver a banda passar. De sua calçada sonha com o dia em que abrirá, ele também, sua janela para aplaudir a banda.


Museu da Pessoa
História de: José Costa da Silva (Sr. Dedinho)
Autor: Paula Rubens


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