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Daniel Vorcaro após dar entrada no sistema prisional — Foto: Reprodução
Parlamentares ouvidos pelo GLOBO reconhecem que há pouco espaço político e institucional para que as frentes de investigação avancem no curto prazo
Por Camila Turtelli —O Globo/Brasília
A revelação de que o empresário Daniel Vorcaro trocou mensagens com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no dia em que foi preso pela primeira vez ampliou a pressão política para que o Legislativo avance em investigações sobre o caso do Banco Master. A instalação de uma CPI específica para tratar do caso, contudo, ainda esbarra na apreensão geral de parlamentares de que as conexões do banqueiro possam colocar o Congresso no centro do escândalo.
Parlamentares ouvidos pelo GLOBO ainda resistem a tratar publicamente do episódio, mas, reservadamente, reconhecem que há pouco espaço político e institucional para que as frentes de investigação avancem no curto prazo. A CPI do INSS, que analisa dados da quebra de sigilo de Vorcaro, está próxima do fim, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), já deu sinais que não deve renová-la. Além disso, o banqueiro tem proximidade com caciques partidários, como Ciro Nogueira (PP) e Antônio Rueda (União), além de outros elos políticos revelados em mensagens.
Ontem, Vorcaro chegou a Brasília e foi transferido ao sistema penitenciário federal. A mudança ocorreu por determinação do ministro André Mendonça, do STF, após a Polícia Federal apontar riscos à segurança pública e à integridade física do investigado caso ele permanecesse na Penitenciária de Potim, no interior de São Paulo.
Sem condições políticas
Reportagem publicada pela colunista Malu Gaspar, na edição de ontem, mostrou que Vorcaro enviou uma série de mensagens a Moraes no dia da operação da Polícia Federal que levou à sua prisão, em 17 de novembro de 2025, no desenrolar das investigações sobre o banco. O ministro nega ter recebido as mensagens. Elas foram extraídas pela PF.
Na prática, porém, a avaliação de parlamentares é que há poucos instrumentos disponíveis para avançar nessa direção. A CPI do INSS tem prazo de encerramento previsto para o próximo dia 28. Alcolumbre indicou que não deve estender essa data por mais 60 dias, como pede a cúpula da CPI.
Também está nas mãos de Alcolumbre a instalação de uma comissão específica para investigar o banco. No início de fevereiro, a oposição protocolou requerimento para uma CPI mista, mas a criação depende da leitura do chefe do Congresso em sessão das duas Casas. Em novembro, O GLOBO mostrou que um aliado de Alcolumbre, Jocildo Lemos, se tornou alvo de questionamento no Amapá por levar o fundo de pensão do estado, a Amprev, a alocar R$ 400 milhões em papeis do Master. Além de Jocildo, Alberto Alcolumbre, irmão do senador, era conselheiro fiscal. Davi afirmou, à época, que não tem influência em nomeações ou decisões administrativas da Amprev.
Além disso, a prisão de Vorcaro ocorre em meio a outras revelações envolvendo personagens políticos nas investigações. Mensagens obtidas pelo GLOBO mostram, por exemplo, que Vorcaro mencionava Ciro Nogueira em conversas privadas. Em um dos diálogos de 2024, o empresário afirma que o parlamentar é “um dos meus grandes amigos de vida”.
Imagem aérea mostra Vorcaro chegando ao IML — Foto: Reprodução/GloboNews
Em outro trecho das mensagens, Vorcaro comemora uma emenda apresentada por Ciro durante a tramitação da PEC que trata da autonomia orçamentária do Banco Central. A proposta favorecia o Banco Master. Procurado, Ciro Nogueira afirmou que mantém diálogo por mensagens com diversas pessoas e que isso não significa proximidade. O senador disse que está tranquilo e afirmou que nunca manteve conduta inadequada relacionada ao caso.
Líderes de partidos de centro e centro-direita afirmam que a menção ao nome de Moraes aproxima diretamente o caso do Banco Master do Supremo e aumenta a necessidade de uma apuração feita pelo Parlamento. Apesar do discurso público mais duro, parlamentares admitem reservadamente que a cúpula do Congresso não tem condições políticas para o enfrentamento.
Relator da CPI do Crime Organizado no Senado, Alessandro Vieira (MDB-SE) afirmou que os fatos revelados exigem investigação e podem trazer novos elementos para o trabalho da comissão.
— São fatos gravíssimos que exigem apuração rápida e transparente. Ao que tudo indica, nós temos relações, no mínimo, não republicanas entre ministros da Suprema Corte e um cidadão que hoje está preso e denunciado por fazer parte do crime organizado, com fraudes e golpes bilionários — disse.
Na Câmara, o deputado Duarte Júnior (PSB-MA), vice-presidente da CPI do INSS, afirmou que pretende levar o tema à comissão e avalia a apresentação de um convite para que Moraes preste esclarecimentos ao colegiado.
— Os dados são bem reveladores. Não se trata de um encontro institucional entre um ministro do Supremo e um magistrado dentro do tribunal, mas de encontro particular, com relações pessoais e mensagens perguntando sobre supostos bloqueios de processo. Questões graves que precisam ser aprofundadas.
Convocação de namorada
O deputado Kim Kataguiri (União-SP) apresentou requerimentos na CPI para ampliar a apuração sobre as relações de Vorcaro. Um deles pede a convocação de Martha Graeff, então companheira do empresário, apontada nas investigações como pessoa que teria conhecimento de encontros e contatos mantidos por Vorcaro com autoridades, inclusive Moraes.
Em outro requerimento, o parlamentar solicita que o ministro do STF seja convidado a prestar esclarecimentos à comissão sobre mensagens interceptadas pela Polícia Federal que mencionam interações entre o magistrado e o controlador do Master.
O pedido argumenta que os diálogos revelados nas investigações levantam questionamentos sobre a natureza dessas relações e sua eventual conexão com o objeto de apuração da CPI.
Mesmo entre parlamentares da oposição, o engajamento no tema ainda é limitado. Nos bastidores, integrantes do Congresso avaliam que as investigações sobre o Banco Master acabam tangenciando nomes de diferentes partidos, o que reduz o apetite político para ampliar o confronto.
De acordo com a colunista Malu Gaspar, informações extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro mostram que o banqueiro dava informações ao ministro sobre o avanço das negociações para a venda do Master e sugerem que também falou sobre o inquérito sigiloso que estava em andamento na Justiça Federal de Brasília e o levou à prisão.
Duas vezes, durante o dia, ele pergunta a Moraes se tinha alguma novidade, e ainda questiona: “Conseguiu bloquear?” O ministro afirmou que “não recebeu as mensagens referidas na matéria” e que “trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o STF”.
A revelação de que o empresário Daniel Vorcaro trocou mensagens com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no dia em que foi preso pela primeira vez ampliou a pressão política para que o Legislativo avance em investigações sobre o caso do Banco Master. A instalação de uma CPI específica para tratar do caso, contudo, ainda esbarra na apreensão geral de parlamentares de que as conexões do banqueiro possam colocar o Congresso no centro do escândalo.
Parlamentares ouvidos pelo GLOBO ainda resistem a tratar publicamente do episódio, mas, reservadamente, reconhecem que há pouco espaço político e institucional para que as frentes de investigação avancem no curto prazo. A CPI do INSS, que analisa dados da quebra de sigilo de Vorcaro, está próxima do fim, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), já deu sinais que não deve renová-la. Além disso, o banqueiro tem proximidade com caciques partidários, como Ciro Nogueira (PP) e Antônio Rueda (União), além de outros elos políticos revelados em mensagens.
Ontem, Vorcaro chegou a Brasília e foi transferido ao sistema penitenciário federal. A mudança ocorreu por determinação do ministro André Mendonça, do STF, após a Polícia Federal apontar riscos à segurança pública e à integridade física do investigado caso ele permanecesse na Penitenciária de Potim, no interior de São Paulo.
Sem condições políticas
Reportagem publicada pela colunista Malu Gaspar, na edição de ontem, mostrou que Vorcaro enviou uma série de mensagens a Moraes no dia da operação da Polícia Federal que levou à sua prisão, em 17 de novembro de 2025, no desenrolar das investigações sobre o banco. O ministro nega ter recebido as mensagens. Elas foram extraídas pela PF.
Na prática, porém, a avaliação de parlamentares é que há poucos instrumentos disponíveis para avançar nessa direção. A CPI do INSS tem prazo de encerramento previsto para o próximo dia 28. Alcolumbre indicou que não deve estender essa data por mais 60 dias, como pede a cúpula da CPI.
Também está nas mãos de Alcolumbre a instalação de uma comissão específica para investigar o banco. No início de fevereiro, a oposição protocolou requerimento para uma CPI mista, mas a criação depende da leitura do chefe do Congresso em sessão das duas Casas. Em novembro, O GLOBO mostrou que um aliado de Alcolumbre, Jocildo Lemos, se tornou alvo de questionamento no Amapá por levar o fundo de pensão do estado, a Amprev, a alocar R$ 400 milhões em papeis do Master. Além de Jocildo, Alberto Alcolumbre, irmão do senador, era conselheiro fiscal. Davi afirmou, à época, que não tem influência em nomeações ou decisões administrativas da Amprev.
Além disso, a prisão de Vorcaro ocorre em meio a outras revelações envolvendo personagens políticos nas investigações. Mensagens obtidas pelo GLOBO mostram, por exemplo, que Vorcaro mencionava Ciro Nogueira em conversas privadas. Em um dos diálogos de 2024, o empresário afirma que o parlamentar é “um dos meus grandes amigos de vida”.
Imagem aérea mostra Vorcaro chegando ao IML — Foto: Reprodução/GloboNewsEm outro trecho das mensagens, Vorcaro comemora uma emenda apresentada por Ciro durante a tramitação da PEC que trata da autonomia orçamentária do Banco Central. A proposta favorecia o Banco Master. Procurado, Ciro Nogueira afirmou que mantém diálogo por mensagens com diversas pessoas e que isso não significa proximidade. O senador disse que está tranquilo e afirmou que nunca manteve conduta inadequada relacionada ao caso.
Líderes de partidos de centro e centro-direita afirmam que a menção ao nome de Moraes aproxima diretamente o caso do Banco Master do Supremo e aumenta a necessidade de uma apuração feita pelo Parlamento. Apesar do discurso público mais duro, parlamentares admitem reservadamente que a cúpula do Congresso não tem condições políticas para o enfrentamento.
Relator da CPI do Crime Organizado no Senado, Alessandro Vieira (MDB-SE) afirmou que os fatos revelados exigem investigação e podem trazer novos elementos para o trabalho da comissão.
— São fatos gravíssimos que exigem apuração rápida e transparente. Ao que tudo indica, nós temos relações, no mínimo, não republicanas entre ministros da Suprema Corte e um cidadão que hoje está preso e denunciado por fazer parte do crime organizado, com fraudes e golpes bilionários — disse.
Na Câmara, o deputado Duarte Júnior (PSB-MA), vice-presidente da CPI do INSS, afirmou que pretende levar o tema à comissão e avalia a apresentação de um convite para que Moraes preste esclarecimentos ao colegiado.
— Os dados são bem reveladores. Não se trata de um encontro institucional entre um ministro do Supremo e um magistrado dentro do tribunal, mas de encontro particular, com relações pessoais e mensagens perguntando sobre supostos bloqueios de processo. Questões graves que precisam ser aprofundadas.
Convocação de namorada
O deputado Kim Kataguiri (União-SP) apresentou requerimentos na CPI para ampliar a apuração sobre as relações de Vorcaro. Um deles pede a convocação de Martha Graeff, então companheira do empresário, apontada nas investigações como pessoa que teria conhecimento de encontros e contatos mantidos por Vorcaro com autoridades, inclusive Moraes.
Em outro requerimento, o parlamentar solicita que o ministro do STF seja convidado a prestar esclarecimentos à comissão sobre mensagens interceptadas pela Polícia Federal que mencionam interações entre o magistrado e o controlador do Master.
O pedido argumenta que os diálogos revelados nas investigações levantam questionamentos sobre a natureza dessas relações e sua eventual conexão com o objeto de apuração da CPI.
Mesmo entre parlamentares da oposição, o engajamento no tema ainda é limitado. Nos bastidores, integrantes do Congresso avaliam que as investigações sobre o Banco Master acabam tangenciando nomes de diferentes partidos, o que reduz o apetite político para ampliar o confronto.
De acordo com a colunista Malu Gaspar, informações extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro mostram que o banqueiro dava informações ao ministro sobre o avanço das negociações para a venda do Master e sugerem que também falou sobre o inquérito sigiloso que estava em andamento na Justiça Federal de Brasília e o levou à prisão.
Duas vezes, durante o dia, ele pergunta a Moraes se tinha alguma novidade, e ainda questiona: “Conseguiu bloquear?” O ministro afirmou que “não recebeu as mensagens referidas na matéria” e que “trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o STF”.
Por Camila Turtelli —O Globo/Brasília














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