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O legado de Abelardo da Hora

"O Artilheiro", última obra de Aberlardo da Hora (Foto: NE10)

O artista plástico Abelardo da Hora, faleceu na manhã desta terça-feira (23) no Recife. Ele estava internado há quase um mês no Hospital Memorial São José com problemas respiratórios. Intercalando passagens pela UTI e um apartamento da unidade de saúde, Abelardo vinha reclamando que estava com muita dificuldade para respirar. Ele chegou a ter uma pequena melhora ontem, mas não resistiu a uma embolia pulmonar.

A escultura ‘O Artilheiro’, que tem cinco metros de altura e é feita em bronze polido foi um de suas últimas grandes obras. Foi inaugurada no dia do aniversário do artista, no último dia 31 de julho, em frente à Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, onde Abelardo nasceu.

Abelardo Germano da Hora Escultor, desenhista, gravador e ceramista, nasceu em 1924, na Usina Tiuma, em São Lourenço da Mata, Pernambuco. Escultor, desenhista, gravador, ceramista e professor. Entre os alunos está o também artista plástico Francisco Brennand, entre outros.

Fez curso de Artes Decorativas no Colégio Industrial Prof. Agamenon Magalhães, Curso Livre de Escultura na Escola de Belas Artes de Pernambuco e Curso de Bacharelado em Direito na Faculdade de Direito de Olinda.

Em 1942, à frente do Diretório Acadêmico de Belas Artes, comandava um grupo de alunos que pintava e desenhava paisagens nas matas do bairro da Várzea, quando seu trabalho chamou a atenção do industrial Ricardo Brennand que o contratou. Trabalhou para o industrial de 1943 até 1945, realizando vários trabalhos em cerâmica, jarros florais e pratos com motivos regionais em relevo e em terracota.

Nessa época, Brennand, vendo-o trabalhar se interessou em fazer as primeiras tentativas de pintar cerâmica e desenhar.

Em 1945, foi para o Rio de Janeiro onde trabalhou num atelier improvisado na garagem da casa de Abelardo Rodrigues.

Em 1946, volta ao Recife e passa todo o ano de 1947 preparando sua primeira exposição de esculturas, que foi realizada em abril de 1948, na Associação dos Empregados do Comércio de Pernambuco, sob o patrocínio do Departamento de Documentação e Cultura da Prefeitura Municipal do Recife. A exposição teve grande repercussão pelo conteúdo e forma, mas também porque foi a primeira exposição de esculturas realizada no Recife.

Ganhou o Primeiro Prêmio de Escultura nos III e IV Salões de Arte Moderna, em 1940 e 1950, respectivamente.

Idealizou e criou com Hélio Feijó e outros, a Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR) e, em 1952, fundou o Atelier Coletivo da SAMR, na Rua da Soledade, n.57 do qual foi professor e diretor.

Elaborou, entre 1955 e 1956, a pedido da Prefeitura do Recife, esculturas de tipos populares inspirados na cerâmica popular que estão em praças da cidade: Os cantadores e o Vendedor de caldo de cana, no Parque 13 de Maio, O sertanejo, na Praça Euclides da Cunha, em frente ao Clube Internacional e o Vendedor de pirulitos, no horto florestal de Dois Irmãos.

Foi eleito delegado de Pernambuco na Seção Brasileira da Associação Internacional de Artes Plásticas, da Unesco, em 1956.

Durante os anos de 1957 e 1958 expôs em vários países da Europa, na Mongólia, na Argentina, em Israel, na antiga União Soviética, na China e nos Estados Unidos.

Lançou, em 1962, o álbum de desenhos Meninos do Recife e em 1967, a coleção de desenhos Danças brasileiras de carnaval, na Galeria Mirante das Artes, em São Paulo.

Foi também um dos idealizadores do Movimento de Cultura Popular (MCP), na gestão do então prefeito do Recife, Miguel Arraes. Como um dos diretores do MCP construiu e dirigiu a Galeria de Arte, às margens do Capibaribe, o Centro de Artes Plásticas e Artesanato e as Praças de Cultura, no Recife.

A sua obra é muito extensa e muitas delas podem ser vistas em vários locais públicos e prédios do Recife como, Joaquim Nabuco e a Abolição da Escravatura, painel de azulejo no Edf. Joaquim Nabuco, na Praça Joaquim Nabuco; Monumento à Restauração Pernambucana, na Praça Sérgio Loreto; O Pescador, no Banco Itaú do Parnamirim; Monumento à Convenção de Beberibe, na Praça da Convenção; Monumento à juventude na Universidade Católica de Pernambuco; Mulher deitada, no parque de esculturas do Shopping Center Recife; Mulher sereia, no Mar Hotel, além de várias outras colocadas em diversos prédios residenciais.

Sobre a sua obra, diz Abelardo da Hora:

"Faço a minha arte respondendo a uma necessidade vital. Como quem ama ou sofre, se alegra ou se revolta, aprova ou denuncia e verbera. Fruto das coisas que a vida ensina...

A marca mais forte do meu trabalho tem sido entretanto o sofrimento e a solidariedade. A tônica é o amor: o amor pela vida, que se manifesta também pela repulsa violenta contra a fome e a miséria, contra todos os tipos de brutalidade, contra a opressão e a exploração."

Cronologia

Escultor, desenhista, gravador, ceramista, professor
s.d. - Recife PE - Eleito delegado da Seleção Brasileira da Associação Internacional de Artes Plásticas, filiada à Unesco
1943/1945 - São João da Várzea PE - Realiza vários trabalhos em cerâmica para o industrial Ricardo Brennard, focalizando tipos do Nordeste
1945/1946 - Rio de Janeiro RJ - Transfere-se para o Rio de Janeiro, a fim de participar do Salão Nacional de Belas Artes, para o qual concebe a obra A Família; no entanto o evento não ocorreu
1946 - Recife PE - Vive nessa cidade
1952/1957 - Recife PE - Diretor do Atelier Coletivo do Recife
1948 - Recife PE - Cria a Sociedade de Arte Moderna do Recife com Hélio Feijó
1949/1959 - Recife PE - É presidente a Sociedade de Arte Moderna do Recife
Década de 1960 - Recife PE - Diretor da Divisão de Parques e Jardins, fundador do Movimento de Cultura Popular, secretário de Educação e diretor da Divisão de Artes Plásticas e Artesanato
ca.1962/1964 - Recife PE - Luta pela integração das artes plásticas com o teatro, a música e atividades artesanais
1962 - Recife PE - Edita o álbum de desenhos Meninos do Recife, vinculado ao Movimento de Cultura Popular
1966 - São Paulo SP - Vive nessa cidade
1967 - São Paulo SP - Lança, em coleção de desenhos, a série Danças Brasileiras de Carnaval, na Galeria Mirante das Artes
1986 - Recife PE - É criado o Espaço de Esculturas Abelardo da Hora para exposições pela Prefeitura da Cidade

Exposições Individuais

1948 - Recife PE - Primeira exposição de esculturas, na Associação dos Empregados no Comércio
1986 - Paris (França) - Individual, na Embaixada do Brasil. Galeria Debret
1988 - Recife PE - Abelardo da Hora: retrospectiva

Exposições Coletivas

1949 - Recife PE - 1ª Exposição do Atelier Coletivo, na Sociedade de Arte Moderna do Recife
1949 - Recife PE - 4º Salão de Arte Moderna, na Sociedade de Arte Moderna do Recife - Prêmio Fídias
1949 - Rio de Janeiro RJ - 55º Salão Nacional de Belas Artes, no MNBA - menção honrosa
1950 - Rio de Janeiro RJ - 56º Salão Nacional de Belas Artes, no MNBA - medalha de bronze
1952 - Recife PE - Salão de Belas Artes de Pernambuco - 1º prêmio em escultura
1953 - Recife PE - Coletiva, no Clube de Gravura
1954 - Europa e Oriente Próximo - Mostra itinerante Gravuras Brasileiras, organizada pelo Clube de Gravura de Porto Alegre
1954 - Goiânia GO - Exposição do Congresso Nacional de Intelectuais
1954 - Recife PE - Salão de Belas Artes de Pernambuco - 1º prêmio em escultura
1956 - Recife PE - Salão de Belas Artes de Pernambuco - 1º prêmio em escultura
1957 - Rio de Janeiro RJ - 6º Salão Nacional de Arte Moderna
1963 - Salvador BA - Civilização ao Nordeste, no Museu de Arte Popular do Unhão
1966 - Rio de Janeiro RJ - 15º Salão Nacional de Arte Moderna
1967 - São Paulo SP - Oficina Pernambucana, no MAC/USP
1975 - São Paulo SP - 7º Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1976 - São Paulo SP - O Desenho em Pernambuco, na Galeria Nara Roesler
1978 - Recife PE - Memória do Atelier Coletivo, na Galeria Arte Espaço
1978 - Rio de Janeiro RJ - 50 Anos de Escultura Brasileira, no Espaço Urbano
1978 - Rio de Janeiro RJ - Escultura Brasileira no Espaço Urbano: 50 anos, na Praça Nossa Senhora da Paz
ca.1980 - São Paulo SP - A Escultura Brasileira no Século XX, no Masp
1981 - São Paulo SP - 13º Panorama de Arte Atual Brasileira, no MAM/SP
1984 - Rio de Janeiro RJ - Doações Recentes 82-84, no MNBA
1984 - São Paulo SP - Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, na Fundação Bienal
1985 - São Paulo SP - 18ª Bienal Internacional de São Paulo, na Fundação Bienal
1986 - Brasília DF - Pernambucanos em Brasília, na ECT Galeria de Arte
1992 - São Paulo SP - A Sedução dos Volumes: os tridimensionais do MAC, no MAC/USP
1994 - São Paulo SP - Os Clubes de Gravura do Brasil, na Pinacoteca do Estado
1995 - São Paulo SP - Colóquio Arte Dor, no MAC/USP
2000 - Recife PE - Ateliê Pernambuco: homenagem a Bajado e acervo do Mamam, no Mamam
2003 - São Paulo SP - Arte e Sociedade: uma relação polêmica, no Itaú Cultural as figuras populares, até as suas esculturas roliças e polidas, gostosas e sensuais. É desde 1948 que seus Temas/Técnicas se intercalam, se sucedem mantendo-se fiel à sua figuração expressionista".

Documentário sobre a vida e a obra do artista: http://migre.me/lQe3J

Fonte: João Carvalho, jornalista

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