sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Duda, monstro sagrado do futebol de Paulo Afonso, conta sua história em entrevista ao Blog de Assis Ramalho

Duda em entrevista a Assis Ramalho
Foto: Lucia Xavier

A juventude não viu Duda, um dos maiores jogadores da história do futebol de Paulo Afonso (BA) e região, atuar nas décadas de 70 e 80, atuando nos principais times da região, inclusive profissionalmente pelo Vitória da Bahia. Mas, certamente, as novas gerações tiveram oportunidade de escutar várias histórias a respeito desta verdadeira lenda viva do nosso futebol. Para aqueles que não conheceram e para os felizes torcedores que viram Duda jogar, a reportagem do Blog de Assis Ramalho detalha a carreira futebolística do ex-jogador.

Em entrevista exclusiva, Duda relembra o início da carreira, dizendo que, surpreendentemente, começou a atuar na posição de goleiro, somente passando a atuar na linha, onde se revelou um grande atacante, por uma fatalidade que você vai saber nesta reportagem. Duda fala também sobre sua passagem pelo Vitória da Bahia e desabafa em relação ao desprezo em que se encontra o futebol de Paulo Afonso.

Acompanhe na íntegra a entrevista com Duda, monstro sagrado do futebol de Paulo Afonso e região.

Assis Ramalho: Duda, você sem dúvida, foi e ainda é um dos jogadores mais badalados do futebol de Paulo Afonso e região. Gostaria que você aproveitasse este momento e fizesse um resumo da sua carreira.

Duda: Assis, talvez pouca gente saiba, mas eu comecei a minha carreira jogando de goleiro no time da Sacol.  Mas, nessa época, eu era pivete, tinha meus 15 ou 16 anos, e era "peru" de jogo. Eu sempre ia ver o time da Sacol treinar e era opção de goleiro. Eu ficava ao lado do campo, doido por uma chance para mostrar o meu valor no gol. Mas as coisas começaram a acontecer comigo foi no time de futebol de Salão do Copa. Lá, eu era  reserva do goleiro Régi e, certo dia, a gente ia jogar contra o Stoa. Chegou a hora do jogo e faltou um jogador no nosso time, ou seja, a gente tinha três jogadores de linha e dois goleiros. Como eu era o reserva de goleiro de Regi, o treinador disse: "Então, pra gente não jogar com três na linha e um goleiro sobrando na reserva, eu vou colocar Duda na linha, para o time não jogar com um a menos". E nesse jogo eu matei a pau, fiz vários gols, e ao final do jogo o treinador disse: "A partir de hoje, você não vai ser mais goleiro, você vai ser jogador de linha". E, a partir dali, eu passei a me destacar no futebol de salão e, depois, passei também a jogar futebol de campo.

Assis Ramalho: Duda, você chegou a atuar como jogador profissional do Vitória da Bahia. Mas existe uma história de que você não ficou por lá porque não aceitou ficar no banco de reserva, para (substituir) Marciano que, na época, em 1975, chegou ao Vitória vindo do Flamengo, de Zico, com a bagagem de titular absoluto. Você teria peitado o treinador, exigindo ser titular no lugar de Marciano, como se cogitou na época?

Duda:  Assis, é bom eu explicar tudo isso por etapa. Quando eu fui para o Vitória da Bahia, eu saí do Exército. Na época, eu já era destacado no futebol de Paulo Afonso, pois já tinha jogado em várias equipes como o Santa Cruz, o Caveira, entre outras equipes. Mas, foi através de um torneio das Companhias do Exército, realizado no Nordeste, que surgiu o convite para eu ir para o Vitória. Nesse torneio do qual eu participei pelo Exército, nós jogamos em Fortaleza e também na Fonte Nova (estádio de Salvador). E, lá na Fonte Nova, alguém me viu jogando e entrou em contato com Dr. Edson, que era um médico da CHESF, e através dele me levaram para o Vitória. Lá, eu passei um ano e sete meses. Antes, teve um presidente da Catuense (time do interior da Bahia) que queria me levar pra lá, mas eu preferir não ir, eu queria ficar no Vitória.

Assis Ramalho: E o episódio com Marciano, existiu ou não?


Duda: Assis, isso é muito bom eu explicar, porque não existiu nada disso que comentaram na época e que, ainda hoje, se comenta. O que houve foi um questionamento, quando Marciano veio do Flamengo para o Vitória, e na época eu era o atacante da equipe. Aí, teve uma festa de emancipação (política) em Paulo Afonso e o Vitória veio jogar em Paulo Afonso, no dia do aniversário da cidade. Aí, antes de o Vitória vir jogar em Paulo Afonso, teve um jogo amistoso na Fonte Nova, entre a Seleção Baiana e a Seleção Cearense. Nesse jogo, Marciano se contundiu. Aí, eu, na época um menino novo, estava empolgado, pensei: "Se Marciano está contundido e não vai poder jogar, é a minha chance de eu mostrar o meu futebol na minha terra". Só que Marciano tinha viajado com a delegação do Vitória para Paulo Afonso e, na hora do jogo, Marciano disse que tinha condições de jogar. O treinador escalou Marciano e me deixou de fora, e eu não aceitei. Não aceitei porque eu tinha treinado durante a semana e Marciano não tinha treinado, em virtude da contusão do jogo entre a Seleção Baiana e a Cearense. Aí, eu disse à diretoria que não ia voltar mais para o Vitória. Mas não tem nada de verdade do que inventaram, de que eu só não fiquei no Vitória porque eu queria ser o titular no lugar de Marciano, e que eu não aceitei ser reserva de Marciano. Falar, todo mundo pode falar, mas só quem está sentindo o que se passa é que sabe o problema.

Assis Ramalho: Você tinha contrato assinado com o Vitória?

Duda: Eu ainda fiquei com contrato assinado e preso ao Vitória. Na época, o Vitória ainda tentou me vender para o Ríver do Piauí, para o Ceará e até mesmo para outros times. Eles tentaram de tudo, mas eu não quis mais, eu resolvi ficar na minha terrinha.

Assis Ramalho: Hoje você se arrepende da atitude que tomou naquela época?

Duda: Assis, eu não me arrependo até hoje, porque foi uma coisa que eu fiz porque quis. Eu joguei futebol porque gostava, porque eu sentia prazer de jogar futebol, e nunca pensei em jogar futebol por dinheiro, até porque eu não tinha noção do que era ser um jogador profissional.

Assis Ramalho: Tem trairagem no futebol profissional, deu pra sentir isso?

Duda: Tem, tem muita trairagem no futebol. Naquela época, se você não tivesse um "pistolão", uma pessoa grande no meio, você estava frito. Hoje, como você sabe, as coisas estão mudadas. Os caras (dirigentes de futebol) vêm buscar jogador aqui, no Interior, eles vêm garimpar por aqui, coisa que na época a gente nem sonhava com isso.

Assis Ramalho: Pelo futebol que você jogava, você não acha que perdeu uma grande chance de ganhar muito dinheiro.

Duda: Assis, hoje o que eu tenho de riqueza é o respeito que eu tenho por meus amigos e eles comigo, e você é um deles. Isso pra mim, vale qualquer coisa. Dinheiro é bom, mas não é tudo.

Assis Ramalho: Mas jogar o que você jogava e ver hoje muitos ''pernas de pau'' ganhando fortunas, não lhe irrita?

Duda: Bem, Assis, isso é verdade. Hoje, a gente vê cada jogador que não joga nada, cada "perna de pau" ganhando uma fortuna de dinheiro, que é brincadeira. Se a gente olhar os jogadores que a gente tinha aqui, em tempos passados e, quando eu digo isso não estou me referindo somente a Paulo Afonso, mas a Petrolândia, Delmiro Gouveia e outras cidades aqui da região, que tinham grandes jogadores que não dá pra comparar com muitos profissionais que, hoje, atuam em grandes clubes e ganham rios de dinheiro.

Assis Ramalho: Qual o time do seu coração em Paulo Afonso?

Duda: Assis, eu joguei em quase todos os times de Paulo Afonso, mas teve um que eu não joguei porque fiz questão de não jogar, que foi o Olímpico. Isso por causa da rivalidade que existia contra o Caveira, pois eu fui fundador do Caveira. Nós fundamos o Caveira quando existiam os jogos estudantis. Nós tivemos a ideia de fundar o Caveira, que começou com futebol de salão. O detalhe é que éramos nós quem pintávamos as camisas. É bom lembrar que nós, do Caveira, criamos um sistema de jogo que revolucionou o futebol de salão da região, que era o sistema do rodízio. O sucesso daquele time foi tão grande que a gente conquistou uma grande torcida e, a partir dali, surgiu a ideia de fazer um time do Caveira de futebol de campo. Automaticamente, a torcida que acompanhava o nosso time de futebol de salão passou a acompanhar e torcer pelo time de futebol de campo, então surgiu a grande rivalidade com o Olímpico. Tamanha era o fanatismo dos seus torcedores que o Caveira virou nome de rua, virou nome de bloco carnavalesco e aquilo só aumentava a rivalidade com os outros times, mas principalmente com o Olímpico.

Assis Ramalho: Por que o futebol de Paulo Afonso caiu nesse fracasso, já que a última grande façanha alcançada foi o título do Campeonato Intermunicipal em 1985, época em que você ainda estava jogando, inclusive fazia parte daquele time? Qual o motivo do fracasso dos tempos de hoje?

Duda: Assis, eu fico muito triste com a situação em que chegou o futebol de Paulo Afonso. Hoje, você não vê ninguém abraçar as causas do futebol de Paulo Afonso, porque está um descaso total, a começar pelos políticos, que não dão o apoio necessário. Mas também falta qualidade dentro e fora de campo. Naquela época, a gente também tinha muita gente de valor fora das quatro linhas, que muito contribuíram para o crescimento do futebol de Paulo Afonso. Quem não se lembra, e com certeza você se lembra, de Zé Galego, Branchú, Grego, Eraldo Rocha e tantos outros que davam a pele pelo futebol de Paulo Afonso? Hoje, praticamente tudo isso se acabou, e muitos (dirigentes) que entram no esporte é para fazer trampolim político. Àqueles que fizeram algo pelo futebol, não é dado o devido valor, ninguém dá valor. O que se vê são pessoas, que não têm nada a ver com futebol, recebendo chances de ficar à frente do esporte nos seus municípios, sem se quer saber se uma bola é redonda ou quadrada. Mas é esse (tipo de dirigente) que os políticos valorizam, porque é a velha manha do "toma lá e me dá cá". Estamos pobres dentro e fora de campo, o que é lamentável e muito triste.

Assis Ramalho: Pelo fato de o atual prefeito de Paulo Afonso, Dr. Anilton, ter sido jogador de futebol, inclusive atuando na sua época, a decepção é maior?

Duda: Assis, Dr. Anilton foi a maior decepção que eu tive em Paulo Afonso (em relação ao esporte), e isso eu já disse a ele. Ele é uma pessoa boa, uma pessoa legal, mas deixou muito a desejar na área de esportes. E pelo fato de ele ter jogado bola é que a decepção, como você disse, é maior.

Assis Ramalho: Quando o político chega ao poder esquece tudo?

Duda: Olha, Assis, essa é uma pergunta que eu não sei responder. Mas, na verdade, não é bem ele, Dr. Anilton. São as pessoas, que ele botou lá dentro (da Prefeitura) para comandar a Secretaria de Esportes, que não têm nenhum vínculo com as coisas (do esporte).

Assis Ramalho: Duda, muito obrigado pela entrevista, bastante esclarecedora.

Duda: Assis, eu quero dizer que, pra mim, foi uma honra poder conceder esta entrevista pra você e falar de coisas que, com certeza, muita gente não tinha conhecimento, mas agora vai ter. Também lhe agradeço por você ser meu amigo, aliás, uma amizade de muitos anos.

Assis Ramalho, Duda e Edson Madera

Redação do Blog de Assis Ramalho
Fotos: Lúcia Xavier

Um comentário:

  1. Infelizmente o Duda está equivocado com relação a sua ida para o VItoria, a indicação foi feita pelo Sargento Baião que à época foi campeão pela Companhia do Exército de Paulo Afonso como Técnico, não só o Duda foi indicado daquele equipe. Abraços. Valter Baião FIlho.

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