quarta-feira, 18 de julho de 2018

Suspeito de morte, 'Doutor está foragido; responsável pelo procedimento estético que levou à morte da bancária Lilian Calixto


O médico Denis Cesar Barros Furtado, de 45 anos, tem um rosto bastante conhecido. Nas redes sociais, são mais de 650 mil seguidores, que costumam assistir aos vídeos em que divulga seu trabalho. Responsável pelo procedimento estético que levou à morte da bancária Lilian Calixto, de 46 anos — realizado sábado à noite na sala de sua cobertura, na Barra — ele está foragido da Justiça do Rio, que expediu mandado de prisão preventiva contra Denis e Maria de Fátima Barros, de 66 anos, mãe do médico. Segundo a polícia, ela estava presente durante o atendimento à vítima. A namorada dele, Renata Fernandes Cirne, de 19 anos, que trabalha como sua secretária, foi presa no domingo

APLICAÇÃO TERIA CUSTADO R$ 20 MIL
No sábado, Lilian saiu de Cuiabá, no Mato Grosso, rumo ao Rio, onde Denis aumentaria seu glúteo usando PMMA, polimetilmetacrilato, uma substância sintética. O produto, segundo especialistas, não é o mais indicado para o objetivo estético de Lilian, mas isso ela não sabia. Casada, ela teria pagado R$ 20 mil para ganhar os contornos que sempre desejou. Mas ela passou mal logo depois da intervenção e foi levada pelo próprio Denis e pela mãe dele para o Hospital Barra D’Or. Imagens de câmeras do hospital mostram Lilian numa cadeira de rodas, aparentando mal-estar. Já era tarde. Ela morreu por volta de 1h de domingo. O médico, que nas redes sociais é conhecido como Doutor Bumbum, costumava fazer atendimentos fora de clínicas e hospitais não só no Rio, mas também em São Paulo e Brasília.
O que Lilian também não sabia era que Denis acumulara, ao longo dos anos, sete anotações criminais, uma delas por homicídio. Também não devia ter a informação de que a mãe dele, formada em medicina, tivera a carteira profissional cassada pelo Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), punição pouco comum, destinada àqueles que cometem falhas gravíssimas. No Rio, Denis sequer poderia exercer a profissão porque não tinha registro do Cremerj. Mas ele já tinha feito o mesmo em outros estados. No Distrito Federal, segundo o site G1, a Polícia Civil informou que Denis já tinha sido indiciado quatro vezes por exercício ilegal de medicina e crime contra o consumidor. Em novembro de 2017, foi alvo de uma operação para desmonte de uma clínica clandestina que mantinha no Lago Sul, área nobre de Brasília. Ele ainda não foi denunciado à Justiça e, portanto, não é considerado réu.

Segundo a delegada titular da 16ª DP (Barra da Tijuca), Adriana Belém, o fato mais grave atribuído a Denis é um homicídio, em 1997. A polícia, no entanto, não deu detalhes sobre o caso que teria ocorrido quando o médico tinha 24 anos. Denis tem ainda, em sua folha de antecedentes, crime por porte ilegal de arma (2003), contra a administração pública (2003), de resistência à prisão (duas vezes, em 2006 e 2007), de violação de domicílio (2007) e de exercício arbitrário das próprias razões (2007), quando a pessoa tem direto a algo, mas cobra de maneira errada.

Ontem, o presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), Nelson Nahon, disse que vai abrir uma sindicância para investigar a conduta de Denis na morte de Lilian. Segundo ele, o médico é registrado em Goiás e em Brasília, mas não poderia atuar no Rio, sem a autorização da entidade:

— Em nove anos de Cremerj, jamais imaginei ver uma coisa como essa.

No domingo à noite, agentes da 16ª DP estiveram perto de prender Denis, que, no entanto, conseguiu fugir com a mãe. A namorada dele que atuava como secretária, foi presa. Tudo graças ao taxista que levou Lilian até a casa de Denis, cujo papel é considerado decisivo na elucidação do caso. Foi ele o primeiro a notar que algo havia dado errado quando, no sábado à noite, estranhando a demora da passageira, ligou para o celular dela e quem atendeu foi Denis. O médico desceu do prédio e lhe deu R$ 300 para que fosse embora, alegando que ainda demoraria. Desconfiado, ele permaneceu e pôde ver Denis saindo coma paciente para levá-la ao hospital. Ele ligou então para uma amiga de Lilian.

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Não foi a única ação do motorista. No domingo, ao ser chamado pela namorada de Denis, que queria entregar-lhe objetos pessoais de Lilian, ele chamou a polícia que o acompanhou. Foi quando Renata foi capturada. Denis escapou da sala que usa como endereço de consultório — mas que tem registro de salão de beleza. Na fuga, derrubou até uma cancela do shopping.

— O Denis fugiu. Depois, a PM encontrou o carro dele abandonado — disse Adriana Belém.

Denis, Renata e da mãe dele e a técnica de enfermagem Rosilane Pereira da Silva, de 24 anos, que também participou do procedimento, foram indiciados por homicídio doloso qualificado e associação criminosa. A advogada Naiara Baldanza, que defende o médico, emitiu nota ontem: “Qualquer conclusão acerca da morte de Lilian e a eventual responsabilidade do meu cliente sobre essa fatalidade é precoce”.

Já a advogada de defesa de Renata, Valéria Vieira, negou a participação da jovem no procedimento que levou à morte de Lilian:

— Ela é recepcionista, atende telefone. É uma menina do interior, está assustada. Na condição de empregada, de subalterna, ela fazia o que o patrão mandava. E atender telefone não é crime. O fato de ela beijar na boca de uma pessoa esporadicamente também não lhe faz conivente, coautora, partícipe ou criminosa.

Para Adriana Belém, a atuação de Renata ia além da marcação de consultas:

— Ela era responsável pela contratação das pessoas, recebia todos os pagamentos, indicava onde o procedimento seria feito. Não se pode alegar o desconhecimento da lei. Qualquer pessoa sabe que aquilo ali é uma coisa clandestina.

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As histórias envolvendo Denis estão se espalhado pelo país. Em março deste ano, ele e a mãe foram condenados a pagar R$ 12,2 mil a duas pacientes que receberam uma dose menor do que a contratada em um tratamento hormonal. A juíza Mariaba Sperb, de Jacareí, São Paulo, observa no despacho que mãe e filha pagaram R$ 900 por cada consulta e R$ 9.991 pelos medicamentos.

Uma ex-paciente de Denis quebrou o silêncio ontem. A economista brasiliense Thais Oliveira Buenno, de 23 anos, conta que em abril do ano passado também fez aumento de glúteos, mas na casa da mãe do médico, em Brasília. Ela disse que pagou por metacryl (PMMA), mas ele também teria injetado silicone industrial.

Funcionários do condomínio em que Denis mora, na Barra, disseram que ele recebia muitas pessoas à noite e que só frequentava a academia. É comum fotos dele sem camisa, exibindo os músculos, que sugerem um cuidado especial com o corpo.
O Globo


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