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Estiagem deve se agravar nos próximos anos. "Peço a Deus chuva para ver isso aqui como era antes, todo mundo feliz", diz Joana Nogueira, em Petrolândia, no Sertão de PE

Joana Nogueira, agricultora e proprietária de Granja de Avicultura no Projeto Apolônio Sales, em Petrolândia (Foto: Assis Ramalho)

Os problemas de seca prolongada registrados no semiárido brasileiro devem se agravar ainda mais nos próximos anos por causa das mudanças climáticas globais. O alerta é do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad). De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), há uma estimativa de que um terço da população dos países em desenvolvimento enfrentará experiências de desabastecimento já em 2025. E a falta de água potável não é o único desafio. A agricultura – responsável pelo consumo de 70% dos recursos hídricos do planeta – será afetada, com consequências diretas na produção e no preço dos alimentos.

Os primeiros sinais dessas previsões já podem ser vistos pelo Estado de Pernambuco. “Eu fiquei impedida de plantar, porque nada brota. É prejuízo na certa.”, desabafou dona Joana Nogueira, 62 anos, em Petrolândia, no Sertão, ao precisar interromper suas atividades no campo.

Para tentar dar fôlego à produção e minimizar os efeitos da estiagem em Pernambuco, produtores agropecuários e agroindustriais de pequeno porte serão beneficiados por uma medida do governo do Estado. As isenções do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestações de Serviços (ICMS) foram prorrogadas até o final do ano, nas saídas de milho. O incentivo deve reduzir os prejuízos, já que, segundo o presidente do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), Gabriel Maciel, quase nada está sendo plantado. “No momento o quadro é estável em termos de previsão. A gente está trabalhando com cautela nesse sentido, mas em relação ao plantio e à produção, nós não temos nada a mensurar”, disse.

O coordenador do Comitê Estratégico da Pecuária Leiteira de Pernambuco (Cepleite-PE), Benoit Paquereau, entregou ao secretário estadual de Agricultura e Reforma Agrária, Nilton Mota, um diagnóstico da grave crise que afeta a produção de leite familiar, como consequência, as indústrias de laticínios e o mercado de produtos lácteos. Os principais prejudicados são os produtores de leite da mesorregião do Agreste do Estado.

De acordo com a Adagro, a produção de leite chegou a cair de 2,5 milhões de litros por dia para 800 mil litros por dia. Atualmente, o setor apresenta uma melhora e a produção subiu para 1,8 milhão de litro/dia. Os produtores receberam incentivos do governo estadual para manter a produção durante o período mais seco e agora estão recuperando parte das perdas.

O Cepleite-PE cobrou medidas emergências para conviver com a seca. Sugestões foram apresentadas com o objetivo de garantir o funcionamento da bacia leiteira, com propostas que englobam medidas que podem ser adotadas em curto, médio e longo prazos. Segundo o governo estadual, todas as propostas e saídas para conviver com a seca serão analisadas por um comitê específico para tratar sobre o assunto. Além disso, o governador Paulo Câmara esteve reunido com a presidente Dilma Rousseff e governadores do Nordeste para tratar de projetos de infraestrutura e investimentos na convivência com a seca. Durante o encontro, ocorrido no dia 25 de março, a preseidente se comprometeu em agilizar obras e ações de enfrentamento à seca.

QUANDO O SERTÃO VIRAR MAR

Com a seca cada vez mais cruel, o projeto de integração do São Francisco é visto como um salva-vidas para um território que clama por água. O plano do governo federal é que as águas do Rio São Francisco cheguem às bacias do Rio Jaguaribe, que abastecem o Ceará, e do Rio Piranhas-Açu, que abastecem o Rio Grande do Norte e a Paraíba. Isso representa levar água a 12 milhões de pessoas em 390 cidades. Quando a obra foi lançada, há sete anos, após uma série de embates de políticos e entidades contrárias à transposição, o então presidente Lula prometia que toda a transposição ficaria pronta em 2012 por R$ 4,6 bilhões.

De acordo com um estudo realizado pela Agência Nacional de Águas (ANA), com financiamento do Banco Mundial e participação de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFCE), entre outras instituições, a disponibilidade hídrica dessas duas bacias deve diminuir sensivelmente nos próximos anos, contribuindo para agravar ainda mais a deficiência hídrica do semiárido.

O ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi, admitiu que o Projeto de Integração do Rio São Francisco terá um novo atraso. Durante o pronunciamento feito na Câmara dos Deputados, em Brasília, Gilberto explicou que a previsão é de que a obra seja concluída no segundo semestre de 2016.

Para João Suassuna, engenheiro agrônomo e especialista em convivência no semiário, autor de livros e mais de 80 artigos sobre o assunto, o Rio São Francisco não terá volume para atender esta nova demanda. “O rio é de múltiplos usos. Cerca de 95% da energia elétrica que abastece o Nordeste é gerada nele. Mais de 504 municípios já recebem água do rio e as margens já são utilizadas para irrigação. O problema é que o rio está limitado para atender esta obra. Ninguém pensou nisso quando fez o projeto. Estou há mais de 20 anos dizendo que esta transposição não dará certo”.

Ainda segundo o engenheiro, as espécies nativas de peixes e animais da região também serão afetadas. “São 200 espécies de peixes que serão separadas por dois canais. Quando o bombeamento começar espécies não nativas, predadoras, serão inseridas no rio e poderão destruir outras espécies. Ainda tem os animais. Serão feitos dois canais. Como é que um roedor vai atravessar de um lado para outro? Não pensaram nisso. Não há como um animal transitar de um ramal para outro. Todos estes questionamentos já foram feitos milhares de vezes, mas a obra continua aí”. Ele afirmou ainda que caso a obra seja concluída faltará água para todas as demandas que o rio precisa atender. “A Agência Nacional de Águas terá que promover ortogas para o povo ter acesso água, porque o uso terá que ser limitado e controlado”.

NOVOS CAMINHOS DAS ÁGUAS
O presidente da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), Roberto Tavares, apresentou ao Ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi, um projeto para antecipar o início da operação da Adutora do Agreste, que receberá água do Eixo Leste da Transposição do Rio São Francisco. A obra irá beneficiar 17 municípios inclusos na primeira etapa da obra, em execução pela companhia. O município de Arcoverde, no Sertão, deve ser a primeira cidade a ser beneficiada pela nova Adutora.

Dos mais de 72 mil habitantes da cidade, que fica a 256 km do Recife, 90% vivem na área urbana e enfrentam a pior crise hídrica da história. O regime de racionamento é severo, com uma distribuição de apenas três dias com água durante o mês. “É angustiante ver a nossa população sofrendo.”, afirmou a prefeita da cidade, Madalena Britto.

De acordo com o secretário de Agricultura do município, Alberto Vaz, 50% do rebanho bovino sumiu nos últimos anos. “Algumas cidades conseguiram recuperar a produção, mas Arcoverde não consiguiu. Hoje, ninguém está plantando nada por falta de água. Há dificuldade para conseguir manter os animais. A prefeitura disponibiliza água para pequenos produtos, mas não é suficiente. Estamos distribuindo, em parceria com o IPA, a palma forrageira, para servir de alimento para os bichos”, conta.

O projeto que levará água para o município consiste na construção de uma captação de água na Barragem do Moxotó, situada em Rio da Barra, no ponto onde o Eixo Leste da transposição cruza a BR-232, no município de Sertânia. Esse reservatório está em construção pelo Governo Federal e deverá receber água ainda este ano por meio do canal da transposição. A alternativa técnica encontrada pela Compesa para antecipar o uso das águas do Eixo Leste da Transposição envolve a construção de uma adutora de 84 km de extensão, de 1.200 metros de diâmetro, que transportaria água do Eixo Leste até Arcoverde, alimentando o primeiro trecho da Adutora do Agreste.

Segundo o presidente da companhia, “o empreendimento é um investimento de R$ 300 milhões e irá propiciar uma vazão de 2 mil litros de água por segundo. Essa ação será a redenção dessas cidades, que estão sofrendo com a falta de água, fruto da pior seca registrada nos últimos 50 anos”. Tavares estima que a obra seja executada no prazo de 10 meses após a assinatura do contrato, que ainda depende da análise e aprovação do Ministério da Integração e do processo de licitação.

NE10

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