domingo, 19 de agosto de 2018

Maguila conta rotina em clínica e diz que deu KO em doença: "Vou viver 100 anos"


A chegada do novo acolhido agitou a tranquilidade do Centro Terapêutico dos Anjos, um espaço de 36 mil metros quadrados encravado em Itu e que mais se parece com um sítio, em novembro. O paciente entrou pelos portões azuis da clínica como já haviam entrado tantos outros, trazido em uma maca e supervisionado de perto por médicos e familiares. Mas sua situação era crítica. José Adilson Rodrigues dos Santos estava debilitado, alimentava-se por meio de uma sonda e mostrava agressividade irracional, bem diferente daquela que exibia no ringue. Seu estado era terminal.

O folclórico ex-pedreiro que o Brasil aprendeu a admirar pelos nocautes e declarações tão hilárias quanto humanas nas décadas passadas encarava naqueles momentos a maior e mais importante de todas as suas batalhas: pela vida. Sua sobrevivência dependia de uma combinação improvável que reunia mudança no tratamento, reabilitação do organismo e contenção das avarias em seu cérebro, condenado após uma carreira toda dedicada ao boxe.

Pouco mais de oito meses após ser praticamente desenganado naquela chegada ao centro em Itu, Maguila enfim conseguiu sair das cordas.

- É mais uma luta que eu tenho que enfrentar e mais uma luta que vou vencer. Já venci essa luta - afirmou o ex-pugilista ao GloboEsporte.com. - "Tava" meio fraco, meio debilitado. A pessoa meio debilitada fica meio fraca de cabeça, mas agora "tô" bem, graças a Deus.
Maguila sofre há anos de encefalopatia traumática crônica (ETC), doença gerada pelas incontáveis pancadas que levou na cabeça em seus 60 anos de vida - completados no dia 12 de junho. O mal lhe acarreta severas dificuldades motoras e distúrbios de memória. Antes também conhecida como demência pugilística, a ETC é uma enfermidade neurodegenerativa evolutiva e incurável.

Seu oponente é muito mais encardido que qualquer outro peso-pesado que já encarou. E por isso surpreende como, de fato, Maguila tem domado o avanço da doença desde que entrou na clínica. Com a fala ligeiramente arrastada, mas segura, contou que considera o local "sua casa".

Ele ocupa sozinho um quarto no centro terapêutico. Segundo seus cuidadores, houve um pedido para que fosse colocado um saco de boxe para dar jabs e diretos eventualmente, embora nem sempre tenha disposição para se exercitar. Maguila também pede para rever algumas de suas lutas, sobretudo as contra Andre Van Den Oetelaar e o argentino Daniel Falconi - ele julga o combate contra o holandês, a quem venceu por nocaute em 1986, seu preferido.

Quando sai do quarto, preenche seu tempo com caminhadas pelo lago ou pelo campo de futebol que ficam bem à vista de quem entra na clínica. Mas gosta mesmo é de ver as vacas que ficam em um aclive. Sua preferida é a que atende pelo nome de Paloma. Geralmente, é dela que vem o leite fresco, recém-ordenhado, que ele gosta de tomar em um gole só.

- O corpo "tá" bem e a cabeça "tá" boa. Quando a cabeça "tá" boa, o corpo "tá" bom. Aí "tô" legal aqui. Tranquilo e favorável.

O sergipano é acompanhado intensivamente por um cuidador, médicos e outros profissionais de saúde. Submete-se diariamente a sessões de fisioterapia e toma inúmeros remédios para frear a ETC. Antes de chegar ao Centro Terapêutico dos Anjos, ele ficou dois anos internado na Santa Casa de São Paulo, prejudicado por um renitente pneumonia. Depois da alta, permaneceu um ano em casa, enfraquecido e com pouco contato com o mundo.

Hoje, os especialistas que o acompanham creditam muito da debilidade a um problema de avaliação. O ex-boxeador tinha recebido o diagnóstico de Mal de Alzheimer, cujos sintomas são de fato muito parecidos com os da ETC. As suspeitas de que não se tratava dele começaram porque Maguila não apresentava qualquer melhora, mesmo bombardeado de medicamentos.

- Não foi um erro médico, porque é facilmente confundível. Mas, pela atividade do Maguila, a gente tinha obrigatoriamente que desconfiar que poderia ser alguma outra coisa, como a encefalopatia traumática crônica. Foi conversado com a esposa dele [Irani] e houve uma troca de postura medicamentosa. E, com a mudança, em poucos meses ele passou a ter uma grande recuperação grande. O Maguila teve oportunidade de reassumir essa alegria. Então, fico contente de ajudar uma pessoa que é ídolo de tanta gente - afirmou o médico Renato Anghinah, que atende o ex-boxeador.

Apesar da melhora, Maguila ainda inspira cuidados. E muitos. Sua saúde ainda é débil. Sua família quis organizar um evento na região metropolitana de São Paulo para comemorar seus 60 anos, mas teve de cancelá-lo porque ele estava resfriado. Depois, remarcou a confraternização, mas novamente a adiou porque o ex-boxeador ainda não estava recuperado.

Ou seja, todo cuidado é pouco, em que pese a euforia pela reabilitação. Não há previsão de saída da clínica e tanto sua mulher quanto os médicos preferem que ele fique por lá.

- Ele chegou na ambulância, acamado, e lentamente nós fomos trazendo ele de volta. Bem lento. Me surpreende porque eu mesma, quando ele chegou, não acreditei muito na recuperação tão ligeira. E foi ligeiro. Não deu muito tempo. Eu acho que é a força de vontade dele também, né? -afirmou Norma Vieira, outra médica, que o trata na clínica.

Maguila levou sua carreira profissional por 17 anos, entre 1983 e 2000. Somou 77 vitórias, das quais 61 por nocaute, e amargou sete derrotas e um empate. Conquistou um título da inexpressiva Federação Mundial de Boxe em 1995, mas sua persona única, a quintessência do "cabra-macho" humano e cheio de deliciosos defeitos, foi muito além no imaginário social. Cheio de confiança, ele proclamou que ainda vai viver muito, ainda que forçosamete longe do boxe:

- Tem muito chão. Eu acho que eu vou chegar aos 100 anos. Se cheguei aos 60, vou chegar aos 100. Vivendo assim, vou chegar lá. Que Deus abençoe a todos e a mim em primeiro lugar, né? Porque não dá para abençoar os outros e me deixar sem a bênção - brincou.

Por Lívia Laranjeira e Paulo Roberto Conde, Itu, São Paulo


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