segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Maria Bonita ganha biografia com detalhes sobre vida no cangaço

Maria Bonita: trajetória revisitada pela pesquisadora Adriana Negreiros. (Foto: Acervo Benjamin Abrahão)
Risadas altas eram sinal de vulgaridade e, no código cruel do cangaço, mulher que traía podia ser apedrejada. 

Maria Bonita era uma mulher transgressora. Naqueles anos 1920, mulheres não podiam votar nem se divorciar. Puladas de cerca por parte dos maridos eram naturais e esperadas, e contrair doenças venéreas costumava ser visto como símbolo de virilidade. Mas ai da mulher que resolvesse ter um amante. Risadas altas eram sinal de vulgaridade e, no código cruel do cangaço, mulher que traía podia ser apedrejada. No entanto, Maria da Déa (no sertão e por todo o Nordeste, era comum o pronome de posse atrelado ao nome da pessoa para indicar a quem "pertencia") não temia o marido, o sapateiro Zé de Neném.

Quando ele trampolinava, ela ficava zangada, se refugiava na casa dos pais e se divertia no forró. Insatisfeita com a vida sexual e com o casamento com Zé de Neném, Maria não hesitava em declarar o fascínio por Lampião, o fora da lei mais temido e procurado do Nordeste brasileiro. Fugiria com ele em um estalo, caso Virgulino Ferreira da Silva quisesse. E um dia, ele quis. Maria deixou então de ser da Déa para se tornar Bonita e virar símbolo de valentia no cangaço. Essa trajetória, a jornalista Adriana Negreiros conta com detalhes em Maria Bonita — Sexo, violência e mulheres no cangaço.

Quando começou a pesquisa para o livro, Adriana não imaginava a dificuldade em reunir informações. A história do cangaço sempre foi contada do ponto de vista masculino, com Lampião como protagonista. "Mas me deparei com uma grande lacuna de informação sobre essas mulheres", diz a autora.

“E decidi contar a história a partir da perspectiva da Maria Bonita e das outras cangaceiras que compuseram o bando. Ao longo da pesquisa, fui percebendo essa questão do silenciamento: essas mulheres tinham suas narrativas constantemente desacreditadas e achei que seria uma boa contar a história dessa maneira”, conta Adriana, que mergulhou em reportagens publicadas em jornais da época, na bibliografia oficial, mas também num sem número de publicações de memorialistas do cangaço guardadas em coleções particulares. Raras vezes as mulheres ganharam voz nessa narrativa, embora algumas, como Dadá (Sérgia Ribeira da Silva) — cujo depoimento foi colhido por vários pesquisadores até sua morte, em 1994 — tenham sido fontes importantes em relação à vida das mulheres no cangaço.

Maria Bonita entrou para o cangaço por vontade própria, mas não foi o caso de boa parte das mulheres cujas vidas acabaram atreladas aos cangaceiros. Muitas eram raptadas, violentadas e sofriam todo tipo de violência. Foi o caso de Dadá, estuprada inúmeras vezes por Corisco, aos 14 anos, quando foi levada da casa dos pais. No entanto, a imagem que se construía delas era outra.

"Eu percebi que essa lógica do silenciamento das mulheres, de não dar voz a essas mulheres, é uma lógica que já vem de muito tempo", conta Adriana, que é nordestina de Mossoró (RN), cresceu em Fortaleza e ouve, desde pequena, as histórias do cangaço. "Quando se descobriu que as mulheres começaram a entrar para o cangaço, os jornalistas noticiavam isso, mas não davam grandes cabimentos para essa história. Havia pouca informação sobre as mulheres e, geralmente, essas informações eram fornecidas pela polícia, fonte oficial dos repórteres. Então, há muita informação distorcida sobre essas mulheres, elas são tratadas como bandidas, você tinha uma visão de que eram tão criminosas quanto seus companheiros."

No livro, Adriana narra em detalhes a vida das cangaceiras. Elas não eram admitidas em batalhas, mas acabavam submetidas a um código cruel e implacável, incluindo uma rotina de sexo e violência. Traições eram punidas com morte e gravidez, quando acontecia, também engendrava uma sentença trágica: a criança era deixada com alguma família de coiteiros (que davam abrigo aos bandos) e a morte era uma perspectiva real em um parto sem assistência alguma.

As contextualizações acompanham toda a narrativa de Adriana, e a autora faz questão de pontuar os acontecimentos do livro com os fatos históricos que marcaram aquela década de 1930. Aos 43 anos, ela encara a obra como uma atitude política e feminista. "O livro veio no momento em que comecei a me perceber e me assumir como uma feminista. Então pensei: já que vou contar uma história que me interessa tanto, uma história do cangaço, tenho que tomar uma atitude política e contar da perspectiva das mulheres, até para romper um pouco com essa tradição de se contar tudo da perspectiva dos homens", conta. Impressionada com a figura de Maria Bonita e com as semelhanças entre a maneira como as mulheres eram tratadas e os dias de hoje, a autora procurou, também, estabelecer um paralelo que diz muito sobre o Brasil de hoje.

Entrevista //Adriana Negreiros

O que mais impressionou na figura da Maria Bonita?
Foi uma pioneira, é algo que só ela tem. No sertão do Nordeste, havia grupos de cangaceiros pelo menos desde o século 17. Só que nunca havia mulheres nesses grupos porque os cangaceiros, de maneira geral, consideravam que a presença das mulheres poderia dar azar, achavam que elas não segurariam o tranco de ficar no cangaço, que atrapalhariam e seriam uma perdição para os cangaceiros. Até 1930, existia esse padrão de grupos de cangaceiros só de homens. E a Maria Bonita acompanhou o grupo de cangaceiros porque ela quis, se apaixonou pela figura do Lampião, um homem poderoso, celebridade, e aceitou. Imagina acompanhar o fora da lei mais procurado do Brasil! Na época, ela era a única mulher do bando. Essa transgressão é algo que me impressionou muito na figura dela.

Temos uma imagem de que essas mulheres eram valentes e fortes mas, lendo o livro, percebemos que muitas delas viviam situações terríveis de violência…..
De fato, a Maria entrou no bando porque quis, mas muitas mulheres entraram à força e têm histórias horríveis. A gente tem essa imagem dessas mulheres valentonas, matadoras, justiceiras, só que, quando entravam no bando, reproduziam as relações de submissão que tinham nas suas vidas domésticas, só que com o agravante de que eram submetidas a relações de violência forte. Essas mulheres sofriam todo tipo de humilhação, eram submetidas a um código de conduta extremamente rígido. E elas se consideravam como propriedades privadas desses homens. Então o senso comum vem de uma ideia muito equivocada dessas mulheres. O que não diminui o fato de serem mulheres lutadoras. Sobreviver, para elas, era uma batalha.

Por que é importante contar essa história no Brasil de hoje?
Lampião é uma figura que desperta muita fascinação em muita gente. O Ariano Suassuna até falava que era um admirador do Lampião. Sabia que era um facínora, um sanguinário, mas tinha admiração por ele porque não era uma alma comum, pequena. Mas tem um aspecto, que a gente pode relacionar com o Brasil de hoje, que é um certo entusiasmo pela violência. Tem muita gente que gosta de Lampião, não pelo motivo poético do Ariano e sim porque acha que tem que fazer justiça com as próprias mãos, resolver as coisas na bala. São pessoas que admiram Lampião por ter esse jeito valentão, que não quer muita conversa, que sai matando porque acha que tudo se resolve com base no autoritarismo.

E em relação às mulheres?
O que mais me chama a atenção é perceber que aquilo que acontecia nos anos 1930 hoje acontece em outra escala e outro contexto, mas as mulheres continuam sendo mortas pelos seus homens, que se julgam donos delas. Ainda há hoje, como naquela época, quem acredite que aquelas mulheres eram merecedoras de punições e que, de alguma maneira, fizeram por merecer a violência. Uma das coisas que mais me chocou nessa pesquisa foi perceber que muitas dessas mulheres, que contaram com riqueza de detalhes a vivência no cangaço, foram muito desacreditadas. É impressionante a quantidade de gente que disse que a Dadá estava mentindo quando contou o rapto dela pelo Corisco. Diziam que ela exagerou, fez drama, que o Corisco era bonitão e que ela gostou dele. Tem gente que ainda insiste em desqualificar o discurso das mulheres, como hoje, quando ela são vítimas de violência e, na delegacia, o delegado fica perguntando que roupa estava usando, o que ela fez. É a mesma lógica, mas em momentos diferentes.

Por: Correio Braziliense


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