quarta-feira, 14 de junho de 2017

A propósito da sangria (vertimento) do reservatório da hidrelétrica de Xingó

Foto: Xingó Parque Hotel/Divulgação

"A consequência desses desmandos nos usos das águas do Velho Chico é traduzida na atual situação de penúria hídrica, vivenciada em toda sua bacia hidrográfica. As tentativas de não se permitir que a represa de Sobradinho alcance o volume morto, em novembro próximo, vem provocando muitos transtornos na vida do cidadão residente tanto no Submédio quanto no Baixo São Francisco, limitando suas possibilidades de irrigar terras, de beber água de boa qualidade, de gerar energia e, mais recentemente, de abastecer a região do Setentrional com as águas provenientes do projeto da Transposição. A represa de Sobradinho vem defluindo, atualmente, cerca de 600 m³/s, e já se comenta a possibilidade desse valor ser reduzido para 500 m³/s. O desastre está se configurando!", escreve João Suassuna, Eng° Agrônomo e Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, em artigo publicado por EcoDebate, 13-06-2017.
Eis o artigo.

Antes das intervenções no São Francisco, com as construções das barragens de Três Marias (1962) e Sobradinho (1979), visando à regularização volumétrica do rio, a vazão média histórica do Velho Chico situava-se em torno de 2.800 m³/s. Apesar de não existirem barreiras artificiais que impedissem o fluxo natural das águas, a amplitude volumétrica do rio se comportava de forma preocupante, prejudicando, e muito, as pretensões das instituições responsáveis pela geração elétrica da região (Cemig e Chesf), de obterem uma energia, segura e estável.

As secas na bacia do Velho Chico, sempre existiram (em outubro de 1955, houve registro de vazão da ordem de apenas 595 m³/s). Enchentes monumentais também foram apontadas, com a calha do rio escoando volumes da ordem de 20.000 m³/s (na cheia de 1979).
Diante de números tão díspares, a construção de represas reguladoras de volumes, no Velho Chico, se fazia necessária. Sobradinho, por exemplo, quando foi construída, regularizou a vazão média do Submédio e do Baixo São Francisco, em cerca de 2.060 m³/s, volume que solucionou, por um bom período de tempo, os problemas de geração de energia no complexo da Chesf, em Paulo Afonso.

Com o desenvolvimento do Nordeste, os grandes empreendimentos – demandantes de significativo volume de energia – foram se ampliando, a população da região foi crescendo, e a potência geradora de energia ofertada pela Chesf, de 10.000 MW, permaneceu inalterada. Esse fato resultou em sérias limitações no atendimento da demanda energética, sob a responsabilidade da Chesf. Em 2010, por exemplo, o complexo produtor da Companhia gerou uma energia equivalente a 6.000 MW médios para um consumo de cerca de 8.000 MW. Portanto, 2.000 MW médios já tiveram que ser transmitidos de outras fontes geradoras de energia do País, localizadas fora da região Nordeste.

Atualmente, com a existência de grandes represas reguladoras de volumes no rio (Três Marias e Sobradinho), o São Francisco passou a ter suas vazões controladas artificialmente, sendo possível, por exemplo, de acordo com os percentuais volumétricos existentes nos reservatórios, reduzir e aumentar as vazões na calha do rio, independentemente da situação do tempo reinante: se na quadra chuvosa ou em período de estiagem. Para facilitar as ações de geração, a Chesf implantou, ao longo do São Francisco, estações mensuradoras de vazões, que monitoram seus volumes, principalmente aqueles decorrentes das chuvas caídas ao longo de sua bacia.

Vale salientar que, mesmo após a construção das represas reguladoras de Três Marias e Sobradinho, por conseguinte com o mecanismo regulador de vazão em pleno funcionamento, houve registros, nos postos de observação de São Romão e São Francisco, de vazões inferiores a 400 m³/s, abaixo, portanto, da vazão registrada no período de estiagem de 1955, de cerca de 595 m³/s, na região de Juazeiro/Petrolina, considerada, até então, a menor, em valor, apontada no São Francisco.

Além disso, um fato assustador ocorreu na grande estiagem de 2015, quando o Velho Chico desidratou de vez: a sua nascente secou, o rio Verde Grande interrompeu seu curso, a represa de Sobradinho chegou a 1% do seu volume útil e houve o perigo de o rio São Francisco vir a interromper o seu curso na altura de Pirapora, limite do Alto com o Médio São Francisco, fato que felizmente não se concretizou, em virtude do início da quadra chuvosa salvadora.

Outro fator que merece registro é o uso indiscriminado, pelo agronegócio, das águas subterrâneas dos principais aquíferos do Rio São Francisco, a exemplo do Urucuia, que vem interferindo nas vazões de base do rio. Nos subsolos desses aquíferos, os fluxos de base se fazem em direção à calha do rio, normalmente de forma lenta e gradual, chegando a ocorrer numa escala de apenas alguns centímetros por dia. Em contrapartida, as irrigações praticadas pelo agronegócio, como as da região da MAPITOBA, no extremo-oeste baiano, que utilizam pivôs centrais, chegam a retirar, do subsolo, volumes de cerca de 2.600 m³ por hora.

Adotando essa prática, as empresas irrigantes, sempre vorazes em grandes volumes de água, chegam a provocar a interrupção dos fluxos de base no Rio São Francisco em direção à sua calha, prejudicando sobremaneira o regime de suas vazões. Para se ter ideia da importância dessas vazões de base, o hidrogeólogo José do Patrocínio Tomaz Albuquerque, em seus trabalhos, afirma que, os fluxos de base provenientes do aquífero Urucuia, representam cerca de 50% das vazões do São Francisco que alimentam a represa de Sobradinho. Atualmente, os frequentes períodos de seca na bacia do rio, somados aos usos indiscriminados das águas de subsolo dos seus principais aquíferos, vêm resultando na diminuição das vazões regularizadas do rio em sua foz. Mensurações realizadas recentemente dão conta de valores de cerca de 1.850 m³/s, com tendências a caírem mais ainda.

Todo esse balanço hídrico, atualmente tão desfavorável à manutenção da vida do rio São Francisco, necessita ser revisto em futuros planejamentos que venham a ser efetivados na sua bacia e que visem ao desenvolvimento daquela região. Infelizmente, o que se percebe é um enorme empirismo na gestão dos recursos sanfranciscanos. A prova disso é a construção das hidrelétricas de Riacho Seco e Pedra Branca (2013), localizadas na cascata entre Sobradinho e Xingó, obra fisicamente impossível de obter êxito, devido à falta de água no rio São Francisco. Na maioria das vezes, as ações de desenvolvimento são propostas e realizadas como se a água fosse um bem natural infinito e, portanto, sujeita a usos igualmente ilimitados.

A consequência desses desmandos nos usos das águas do Velho Chico é traduzida na atual situação de penúria hídrica, vivenciada em toda sua bacia hidrográfica. As tentativas de não se permitir que a represa de Sobradinho alcance o volume morto, em novembro próximo, vem provocando muitos transtornos na vida do cidadão residente tanto no Submédio quanto no Baixo São Francisco, limitando suas possibilidades de irrigar terras, de beber água de boa qualidade, de gerar energia e, mais recentemente, de abastecer a região do Setentrional com as águas provenientes do projeto da Transposição. A represa de Sobradinho vem defluindo, atualmente, cerca de 600 m³/s, e já se comenta a possibilidade desse valor ser reduzido para 500 m³/s. O desastre está se configurando!

Apesar desse preocupante cenário, no início do mês de maio, para surpresa de muitos, as autoridades iniciaram uma manobra, na represa de Xingó, aparentemente sem propósito, abrindo suas comportas e deixando verter um significativo volume de água, num momento de grave crise no agravamento das questões hídricas em toda a bacia do São Francisco, deixando boquiabertos muitos cidadãos. Afinal, como seria possível uma decisão daquelas, quando a economia de água seria mais sensata e de mais valia? Que sentido haveria na abertura das comportas da hidrelétrica com o consequente desperdício de um grande volume de água? Em tal caso, o desperdício, puro e simples, do precioso líquido, parecia prevalecer! Além disso, houve o desligamento de uma máquina com potência equivalente a 500 MW, certamente desfalcando a oferta geradora do País, de um significativo pacote de energia, em um momento no qual os reservatórios das hidrelétricas do Sudeste, os mais importantes da nação brasileira em termos de geração de energia, se encontram com menos da metade de suas capacidades (junho/2017).

Com o passar do tempo, as informações foram circulando na academia e passou-se a entender melhor o porquê daquele vertimento, aparentemente fora de propósito. Na verdade, a abertura das comportas de Xingó deveu-se a uma necessidade de ajustes do setor de geração de energia elétrica da região. Para operar com duas, das suas seis máquinas, a hidrelétrica de Xingó, necessitava de um aporte de água de cerca de 700 m³/s, provenientes de Sobradinho, e de outros volumes provenientes do complexo hidrelétrico de Paulo Afonso. Cada turbina de Xingó tem potência instalada de cerca de 500 MW e uma vazão de engolimento, de cerca de 500 m³/s. Ocorre que o atual período de estiagem na bacia, juntamente com a falta de gestão dos recursos hídricos da região, obrigaram as autoridades a diminuírem, ainda mais, a defluência de Sobradinho, para cerca de 500 m³/s, visando livrar a represa do fantasma do volume morto, a partir de novembro. Essa nova defluência da represa de Sobradinho inviabilizou a operação simultânea das duas máquinas de Xingó, com o consequente desligamento de uma delas. Essa nova realidade na hidrelétrica, operando com apenas uma máquina, resultou em sobras volumétricas da máquina desligada, fazendo com que o saldo desses volumes, agora sem função aparente, fosse liberado pelas comportas da hidrelétrica. Essa foi o nosso entendimento para a razão do vertimento da hidrelétrica de Xingó, em período de grave escassez hídrica na bacia do Rio São Francisco.

Após esse relato, dá para perceber o tamanho do problema que as autoridades do setor hídrico do nosso País vão ter que enfrentar e resolver. Nesse sentido é importante insistir na necessidade, para aqueles que têm o poder decisório nas mãos, de considerarem, doravante, os recursos hídricos, como uma questão de segurança nacional!

Fonte: IHU/Adital


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