sábado, 30 de setembro de 2017

Homossexualidade no Sertão: Preconceito agride e mata comunidade LGBT em Alagoas


Thalita Araújo fala sobre a transexualidade no Sertão de AL (Foto: Arquivo pessoal)


Preconceito, homofobia e machismo. Em terras de Lampião, o conservadorismo e a resistência ao novo, ao diferente, fazem vítimas sem dó, nem piedade. A intolerância ainda impera, provoca transtornos e leva à morte, e as tentativas de encarar a homossexualidade de frente no interior de Alagoas, em especial no Sertão, esbarram em uma muralha de ignorância que parece ser intransponível. Enquanto isso, famílias se autodestroem e muitas pessoas são obrigadas a esconder desejos e sentimentos com medo do julgamento alheio.

Assim foi e continua sendo com Thalita da Silva Araújo, mulher transexual de 21 anos que é natural de Inhapi, no Sertão de Alagoas. Desde que decidiu assumir a identidade trans, aos 15 anos, ela é vítima de deboches e xingamentos infundados. Mas a história começou bem antes, aos 8 anos de idade, quando ela já não se sentia confortável sendo um menino.

"Desde os meus oito anos de idade eu já não me reconhecia no meu sexo biológico e, conforme o tempo foi passando, fui descobrindo que realmente era transexual. Quando completei 15 anos, assumi publicamente. Ser uma transexual em pleno Sertão alagoano não é fácil, especialmente no que diz respeito a questões de trabalho", afirma.


A situação é tão séria que acabou interferindo, inclusive, na escolha da profissão que ela seguiria, a de cabeleireira. "Eu preferi essa profissão porque sei que é um trabalho autônomo, onde eu controlo as regras. Em um emprego formal, em sociedade, é mais difícil porque as pessoas ainda levam para o lado do machismo. Ouvimos muitos insultos, muitas piadinhas. A gente sofre demais com isso no Nordeste, mas é uma realidade", conta Thalita, que também atua como bombeira civil.

Assim como ela, muitas pessoas são vítimas do preconceito que, em alguns casos, leva à morte. Em Alagoas, de 1º de janeiro até o final do mês de setembro deste ano, já foram registrados 13 assassinatos que vitimaram membros da comunidade LGBTTT. A maioria deles em cidades do interior. O número da violência coloca o estado no 10º lugar do ranking nacional de mortes. No Nordeste, ocupa a 4ª posição, de acordo com dados divulgados pelo Grupo Gay da Bahia, entidade responsável por reunir todas as informações. Isso sem contar a subnotificação, que ainda é grande e acaba ocultando muitos casos que ocorrem no estado.

O Disque 100, canal por meio do qual são registrados os casos de violência, constata a intolerância contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros no interior de Alagoas. Conforme dados da Secretaria de Estado da Mulher e dos Direitos Humanos, de todas as ligações recebidas, 90% são oriundas do Agreste e Sertão e relatam casos de LGBTfobia.

"Isso nos leva a duas reflexões: a primeira é pensar sobre o espaço onde esta violência está acontecendo e depois é perceber que as pessoas estão buscando ajuda, pois sabem identificar as formas de opressão, ofensa e violação, que muitas vezes acontece não somente de maneira física, mas também psicológica", observa a Superintendente de Direitos Humanos e de Igualdade Racial da Secretaria da Mulher e dos Direitos Humanos (Semudh), Rita de Cássia Tenório Mendonça.

Ela acredita que a violência e o preconceito estão diretamente ligados à não aceitação das diferenças. "As pessoas têm muita dificuldade em aceitar a orientação sexual e a identidade de gênero. Em função disso, a comunidade LGBT acaba sofrendo muito preconceito e discriminação e enfrenta desigualdades nas oportunidades, tendo seus direitos humanos violados unicamente em razão disso", pontua.

O presidente do Grupo Gay de Alagoas (GGAL), Nildo Correia, fala sobre as dificuldades de aceitação da homosexualidade no interior do estado, independentemente da classe social na qual a pessoa esteja inserida. "Partindo da questão do preconceito, no interior é muito mais complicado. Eu tenho acompanhado o caso de um garoto de 13 anos que perdeu o pai em um acidente e agora está vivenciando um problema sério com a família, que já teria chegado ao ponto da agressão física por causa da orientação sexual dele", cita.

AS MORTES EM 2017

A morte é o estopim do preconceito e mostra o quão a sociedade se preocupa, de forma crítica e negativa, com a vida do outro. Na maioria dos casos registrados, a violência se faz presente e transforma os crimes em atos frios e cruéis.

O primeiro caso de assassinato em Alagoas no ano de 2017 contra uma pessoa da comunidade LGBTTT foi registrado no dia 22 de fevereiro. Sérgio Vieira da Silva, de 50 anos, morreu após ser brutalmente assassinado com diversos golpes de martelo na cabeça. O corpo do homem foi encontrado por vizinhos dentro da residência dele, no bairro da Santa Lúcia, na região da periferia da capital.

Onze dias depois deste caso, na cidade de Major Izidoro, que fica localizada no Sertão de Alagoas, a quase 200 quilômetros de Maceió, foi registrada outra morte, dessa vez suicídio. Em 8 de março, um homicídio em Jacuípe chamou a atenção da população pelos requintes de crueldade. Everson Inácio da Silva, de apenas 23 anos, foi morto após ser atingido por diversos golpes de faca.

No dia 27 de março, em Girau do Ponciano, um jovem de 18 anos identificado apenas como Jonas faleceu depois de ser atingido por tiros em várias partes do corpo. O crime aconteceu na zona rural do município, no Povoado Chã do Pai Gonçalo.

Wellington Felipe Silva dos Santos, de 21 anos, morreu no dia 7 de março. Um mês depois, os restos mortais foram encontrados em uma cova rasa no povoado da Massagueira, no município de Marechal Deodoro. Quatro pessoas confessaram o homicídio e disseram que cometeram o crime por conta do comportamento sexual da vítima.

Após estes casos, mais oito foram registrados no estado até o mês de setembro, sendo quatro em Maceió e os outros quatro nos municípios de Rio Largo, Porto Calvo, Palmeira dos Índios e Arapiraca.

"MACHISMO NÃO É CULTURA"

Diante dessa realidade cruel, o presidente do GGAL fala que as pessoas precisam acabar com a visão de que o machismo e o preconceito nas cidades interioranas são uma questão cultural. Para ele, trabalhar o assunto em sala de aula é uma saída para difundir a prática do respeito e da tolerância com as diferenças.

"É importante se trabalhar a questão do respeito e da tolerância dentro da escola. Isso não é querer empurrar de goela abaixo a homossexualidade dos outros. É trabalhar a cabeça não só da sociedade, mas da própria população LGBTTT. Todos precisam entender que homolesbotransfobia, racismo e machismo não são culturais. Isso não é normal. Precisamos tratar esses tipos de comportamento como intolerância", afirma.

A mesma ideia é defendida pela superintendente Rita de Cássia. Para ela, a solução para tentar minimizar o problema do preconceito e da intolerância parece simples e passa pela educação. "A gente tem que aprender a respeitar e conviver com a diversidade e isso inclui o meio educacional. A escola é fundamental nesse processo junto com a educação não formal que é feita fora da sala de aula. Por isso, precisamos realizar formações que envolvam os estudantes, os professores de escolas e universidades e a comunidade de uma maneira geral para que as pessoas sejam levadas a refletir e se perceber enquanto cidadãos e promover as defesas dos seus próprios direitos", afirma.

Uma das vítimas desse preconceito velado foi o professor Daniel Macedo, de São José da Tapera, no Sertão de Alagoas. Ele desenvolveu um projeto junto com um grupo de alunos da 2ª série do Ensino Médio Integral da Escola Estadual Lucilo José Ribeiro e foi alvo de muitas ameaças. O trabalho "Diário de gente: Gênero e Sexualidade na Escola" teve a intenção de fazer com que os estudantes compreendessem e respeitassem a diversidade da Identidade de Gênero e da Sexualidade Humana, além de sensibilizar a comunidade escolar para coibir comportamentos de preconceito e discriminação.

Na ação, comunicada e autorizada previamente pela escola e pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc), os alunos participaram de uma série de discussões e, inclusive, chegaram a se vestir com roupas do sexo oposto.

"A discussão de gênero precisa ser urgente, pois nossos alunos vivenciam na pele as manifestações de preconceito e discriminação que os fazem sofrer, levando-os, muitas vezes, à automutilação ou ao suicídio. O índice de evasão escolar da população LGBT é alto e isso é resultado de uma escola que não sabe lidar com as questões de gênero. Discutir gênero é ir além de oferecer a explicação de conceitos. É fomentar um universo de respeito e cordialidade diante das manifestações do devir humano. A escola não pode reproduzir padrões de opressão e naturalizar o preconceito. Discutir gênero é reduzir as desigualdades, é respeitar os direitos humanos, é garantir o princípio constitucional de que a educação é direito de todos e dever do estado", afirma.

Para o educador, este tipo de discussão é indispensável e não pode ser ignorado. "Não dá mais para colocar este debate debaixo do tapete. As questões de gênero e sexualidade são demandas que exigem discussão sobretudo na adolescência. É um processo que exige maturidade da família e da escola. As unidades de ensino precisam ser instrumentalizadas para lidar com todas estas referências. Quiçá todas tivessem um psicólogo. Não podemos aceitar que um aluno seja agredido por suas manifestações de gênero e sexualidade ou que abandone a escola porque esta não consegue lidar pedagogicamente com isso", observa Macedo.

Se discutir este assunto já é complicado e desafiador, quando ele é levado para o interior do estado, em especial para o Sertão, parece que a situação fica ainda mais difícil. "O machismo na região ainda é predominante. Os modelos familiares reforçam o padrão heteronormativo. As filhas são educadas para o matrimônio e as atividades domésticas. Também está no Sertão o maior número de denúncias de violência contra a população LGBT. Nessa perspectiva, a escola tem papel preponderante. É necessário discutir o lugar ocupado pela mulher e pela população LGBT e questionar a institucionalização da violência. Fechar os olhos para o preconceito e para a discriminação nos corredores escolares é reforçar essa violência", acredita.

O professor conta que educar nos tempos de hoje não é uma tarefa fácil. A dificuldade, muitas vezes, começa dentro da própria instituição de ensino, que na opinião dele, se mostra muito preconceituosa. "Nos últimos dias tenho percebido isso com muito mais clareza. A escola 'encaixota' todo mundo. São os negros, os gordos, os magros, os nerds, os bons em esporte, os gays, os do sítio, os da cidade. As pessoas vão sendo colocadas 'nas caixas de preconceito'. Ocupar esses lugares é receber todo um conjunto de referências na maioria das vezes negativas. O preconceito rotula, segrega, marginaliza, desqualifica, oprime. Toma-se por base um padrão e tudo que é diferente desse padrão será alvo de hostilização", opina o educador.

Apesar do projeto ter sido realizado em uma cidade que fica a quase 220 quilômetros de distância de Maceió, as ações repercutiram de tal forma que chegaram a ser tema de pronunciamento na Assembleia Legislativa do Estado (ALE). O professor também foi alvo do que pretendia combater: o preconceito. Recebeu diversas ameaças e chegou a registrar um boletim de ocorrência e a deletar o perfil dele nas redes sociais.

"Digamos que diante dessa experiência realizada com os alunos existiram momentos de intenso desconforto. Fui hostilizado, agredido e dilacerado na minha dignidade profissional. Penso que aqueles que consideram que a escola não deve ser local para os estudos de gênero e sexualidade precisam encontrar uma alternativa para a díade agressor-vítima. Os agressores e as vítimas estão dentro da escola. E é lá que as cenas de hostilização emergem. A experiência escolar pode ser traumática para muitos. Espero que com sensatez, respeito e cordialidade se encontrem alternativas para a construção de uma escola que respeite aquele que não segue o padrão que é estabelecido pela maioria", disse Daniel Macedo, que também é psicólogo.

Por isso ele conta que atuar como professor é uma atividade muito desafiadora. "Ser professor e psicólogo muito mais, porque conhecemos o que está por trás dos discursos. Somos sensíveis ao sofrimento existencial do outro. Os alunos precisavam de ajuda. Eu só tinha duas alternativas: negligenciava seus discursos ou dava novo sentido à experiência escolar. Escolhi o segundo. Afirmo que 'Diário de gente' veio para combater o preconceito e a discriminação e deixar claro que todos devem ser respeitados. Continuo respeitando todos os posicionamentos contrários. Com serenidade e coração aberto, estou disponível para explicar o projeto para quem quiser conhecer".

'CURA GAY'

Além das dificuldades diárias enfrentadas pela comunidade LGBTTT não só em Alagoas, mas em todo o país, uma decisão proferida neste mês de setembro pelo juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, do Distrito Federal, causou ainda mais polêmica e provocou indignação entre muitos brasileiros. A liminar concedida pelo magistrado, na prática, torna possível, de forma legal, que psicólogos ofereçam pseudoterapias de reversão sexual, ou seja, tratem a homosexualidade como doença que precisa ser curada.

Para Nildo Correia, a decisão do juiz abre brechas para que as pessoas, insatisfeitas com a orientação sexual de um membro da família, o obriguem a buscar um tratamento, mesmo contra a vontade do mesmo.

"A decisão do juiz é clara e diz que o homossexual que se sentir no direito e quiser buscar tratamento através do psicológico isso será possível. É uma opção, não é obrigatório. Mas infelizmente uma situação como essa abre brechas para que familiares imponham uma internação para tratamento, assim como acontecia até a década de 80. Nós sabemos que funciona assim. É uma ferramenta para reprimir a sexualidade das pessoas, para querer mexer com o psicológico dessas pessoas", afirma o presidente do GGAL.

Como resultado dessa decisão está o crescimento do medo entre a comunidade LGBTTT, que já é alvo de tanta violência. "Eu temo pela vida dessas pessoas. Essa questão de os familiares obrigarem os homossexuais a tratarem essa questão como doença pode fazer crescer o número de suicídios. É colocar uma mordaça para que as pessoas não vivam a sua sexualidade", fala Nildo.

Ele cita ainda relatos registrados pelo GGAL datados da década de 70 e que tratam da história de uma travesti, filha de um coronel alagoano, que foi internada contra a própria vontade por várias vezes, tendo em vista que a família não aceitava a homosexualidade dela. Ao perceberem que a orientação sexual não mudaria, ela foi morta a mando dos próprios parentes.

Ana Moura, líder LGBT em Delmiro Gouveia, conta que não são poucos os casos de preconceito por lá, que se concretizam especialmente em agressões verbais ou físicas. Ela também cita alguns casos de homicídio registrados na cidade sertaneja.

"Por morarmos no Nordeste, principalmente em Alagoas, estado que é estereotipado como sendo de terra de 'cabra macho', não são poucos os casos de preconceito contra os LGBTs. Desde agressões verbais a físicas são presenciadas com frequência mediana aqui no Sertão. Vários casos de assassinatos a homossexuais já ocorreram aqui em Delmiro, os mais recentes foram o do Clebynho, do Audalio, do Neném e o de Zé Dedinho - Esse último no município de Pariconha, porém ele era Guarda Municipal em Delmiro", relembra.

Ela fala ainda sobre a impunidade nos casos de crimes envolvendo LGBTs. "Aqui no Sertão há algumas diferenças quando o assunto são os casos de preconceito contra LGBTs. Seja por influência política, financeira ou até mesmo desinteresse policial em defender a comunidade LGBT, os bandidos em alguns casos ficam impunes, como é o caso do nosso amigo e parceiro Clebynho, que foi morto covardemente a tiros e seus assassinos seguem em liberdade. Essa falta de interesse em dar segurança à comunidade LGBT é a principal propulsora que influencia cada vez mais o crescimento da onda de crimes contra nós aqui no Sertão", pontua.

DENÚNCIA

Para denunciar os casos de violência contra LGBTs, as pessoas podem usar o 181 - através de ligação ou do aplicativo - e o Disque 100. "Além desses mecanismos, o Governo do Estado lançou recentemente no Sertão, o Observatório de Violência e Discriminação de Raça Gênero e Diversidade Sexual que vai mapear os números concretos dessa violência possibilitando assim sabermos onde exatamente ela acontece, como ocorre, quem são e quantas são as pessoas envolvidas. Dados essenciais para estabelecer políticas públicas e estratégias de combate", explica Rita de Cássia.

Gazeta Web


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