segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Linguagem, interação e aprendizagem no Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)

A especialista em educação especial, Mara Cruz, ministra palestra durante o IV Simpósio Internacional de Psicopedagogia, sobre estratégias para compreender e incentivar a interação de alunos autistas no ambiente escolar

Desde dezembro de 2012 está em vigor a Lei nº 12764, que institui a “Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista”, que protege o direito das crianças autistas de estudarem em qualquer escola regular tanto na educação básica, quanto na profissionalizante. Considerada mais uma vitória na luta pela inclusão, a lei gera discussões até hoje sobre qual o melhor ambiente para acolher crianças sobre o espectro autista, e muitos profissionais defendem que lidar com os problemas de socialização e convivência dos autistas em escolas regulares os ajuda a aprender a conviver em sociedade, além de ajudar os demais alunos a aprender a conviver com pessoas com TEA. Para abordar a questão sobre atualidades em relação ao diagnóstico e caracterização do Transtorno do Espectro Autista (TEA), bem como estratégias para compreender e incentivar a interação de alunos com TEA em ambiente escolar, o IV Simpósio Internacional de Psicopedagogia, que acontece nos dias 21 e 22 de outubro em São Paulo, traz Mara Monteiro da Cruz, fonoaudióloga e Mestre e Doutora em Educação Especial, para falar sobre o tema.

A especialista, juntamente com uma equipe de profissionais de educação especial, trabalha em uma instituição pública de ensino superior onde são desenvolvidos projetos de ensino, extensão e pesquisa, com alunos da Educação Básica, Gradução e Pós-graduação – mestrado profissional em Ensino de Educação Básica. No momento, na área do atendimento educacional especializado a crianças com autismo, estão sendo realizadas pesquisas sobre ensino colaborativo / bidocência e recursos tecnológicos para favorecer a acessibilidade ao currículo para estes estudantes.

Para avaliar os resultados do ensino colaborativo no processo de inclusão de um estudante com autismo do 5º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública do Rio de Janeiro, a autora realizou com sua equipe uma pesquisa documental com 17 estudantes desta turma que é assistida pelo Atendimento Educacional Especializado por conter uma criança com TEA há cerca de um ano. A partir das perguntas “para que servem os amigos?” e “quem são seus melhores amigos na turma”, o objetivo da pesquisa foi investigar se os alunos associavam os colegas a atividades escolares e, se o aluno com autismo apareceria em algum desses relatos, sendo citado pelas crianças dentro de seus melhores amigos ou de algum outro modo que pudesse envolver relações no ambiente escolar. O aluno também foi entrevistado para dar seu depoimento sobre suas relações de amizade.

O Atendimento Educacional Especializado nessa turma foi desenvolvido a partir do ensino colaborativo/bidocência, uma prática pedagógica que inclui a presença de dois docentes em sala de aula para promover um ambiente mais adequado para atender às necessidades educacionais especiais dos estudantes. No início da convivência do aluno com a turma, ele apresentava uma relação de distanciamento dos colegas, com comportamentos como ecolalia, gritos e arremessos de objeto, que geraram reações de receio e temor nos colegas.

Depois de um ano de convivência da turma, a equipe chegou a conclusões interessantes com os depoimentos, entendendo que o aluno com TEA passou a ser visto pelo grupo como membro efetivo da turma desde o início do ano e não como ‘aluno incluído’. “Ao reforçar a necessidade de colaboração entre todos, ainda que considerando a maior necessidade de alguns, as diferenças foram vistas como características naturais e a cooperação como estratégia necessária para o melhor aproveitamento de todos. Neste contexto, observamos, através de relatos do aluno com TEA que este passou a observar o comportamento dos colegas e, seus comportamentos ‘agressivos’ reduziram consideravelmente ao longo do ano”, explica Mara.

Para a especialista, a mediação entre o estudante e os conteúdos curriculares não é uma tarefa exclusiva do professor, já que os próprios colegas também podem assumir esse papel, se houver um trabalho pedagógico de envolver o aluno, durante as atividades escolares, em relações com todo o grupo, colegas e professores. Isto não costuma acontecer no modelo mais comum atualmente de mediação, quando se contrata um “professor mediador” para acompanhar exclusivamente o aluno com TEA. Nestes casos, o aluno costuma permanecer isolado, pouco interagindo com o grupo na maior parte das atividades, pois costuma se reportar sempre ao “mediador”, não criando vínculos com o professor regente da turma, nem com os colegas.

Na pesquisa citada, o ensino colaborativo favoreceu a consolidação de um lugar de estudante para o aluno com autismo e suas diferenças passaram a ser respeitadas e reconhecidas pelo grupo. “A atuação das discentes, ao longo do ano, informando ao grupo sobre as características e necessidades educacionais especiais do colega, atuando com firmeza e serenidade, convidando as crianças a participarem do processo de mediação, ao mesmo tempo em que atendiam as outras crianças da turma em diferentes momentos de dúvida ou dificuldade, gerou um ambiente de colaboração entre docentes e discentes”, finaliza.

Serviço:
IV Simpósio Internacional de Psicopedagogia
21 e 22 de outubro das 8h às 19h
UNIP – Campus Paraíso
Rua Vergueiro, 1211 – São Paulo, SP
Informações, inscrições e programação completa através do site:
http://www.abppeventos.com.br

Sobre a ABPp

A ABPp é uma associação de âmbito nacional, sem fins lucrativos e econômicos, de caráter técnico, científico e social, com atividades no exercício da Psicopedagogia. Fundada em 1980, a ABPp agrega psicopedagogos brasileiros com a finalidade de propiciar o desenvolvimento, a divulgação e o aprimoramento desta área de conhecimento por meio de debates, reuniões, conferências, cursos, seminários, simpósios e eventos de âmbitos regional, nacional ou internacional. Atua também na publicação de artigos científicos de profissionais conceituados alimentando a pesquisa e a formação continuada, facilitando o acesso dos profissionais a conteúdos pertinentes à sua área de atuação. Atualmente a ABPp possui 15 Seções e 3 Núcleos distribuídos pelo território nacional e vinculados sob sua orientação. www.abpp.com.br

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