domingo, 20 de agosto de 2017

Lula cura suas feridas nos braços do povo

"Antes, não passávamos da porta da universidade. Isto é o que os ricos do Brasil não aceitam. Como eu, nordestina, negra, pobre, trabalhadora rural e mulher, estou na faculdade, ao lado dos que têm dinheiro", lembrou Maria Helena da Conceição que caiu no choro ao lembrar que Lula pode acabar na prisão. Para ela, foi o presidente que lhe abriu as portas para a universidade, que acabou com a fome de sua família.

Maria Helena da Conceição cai no choro quando pensa que Lula pode acabar na prisão. Para ela, foi o presidente que lhe abriu as portas para a universidade, que acabou com a fome de sua família e não o condenado por corrupção que tenta voltar ao poder.

Exibindo um cartaz mostrando a foto de sua formatura em direito, esta estudante de psicologia de mais de 40 anos aguardava, esperançosa, a terceira escala da caravana do ex-presidente (2003-2010) por 28 municípios do nordeste, seu reduto político.

"Antes, não passávamos da porta da universidade. Isto é o que os ricos do Brasil não aceitam. Como eu, nordestina, negra, pobre, trabalhadora rural e mulher, estou na faculdade, ao lado dos que têm dinheiro?", lembrou.

Milhares de pessoas atenderam ao chamado desse passado que julgam melhor do que o hoje em Feira de Santana, a 100 km de Salvador, onde Lula foi recebido com cartazes que diziam "eterno
presidente".

E embora ali não tenha surgido o Lula que governava impetuoso o Brasil emergente de uma década atrás, era alguém muito parecido.

Vestindo camisa azul claro e calça marrom, o veterano líder da esquerda repetiu o ritual de beijar e abraçar quem se aproximava dele no galpão onde se realizava o ato "em defesa das políticas públicas para a agricultura familiar".

Uma multidão vestida de vermelho, a cor do PT, repetia seu nome como nos velhos tempos, e explodiu em aplausos quando ele pôs o chapéu e o colete de couro típicos do sertanejo nordestino.

Homens e mulheres do campo entregaram-lhe cestos com produtos da terra. Cantores locais entoavam músicas que davam por certo seu retorno em 2018, por mais complicado que pareça.

"Essa gente quis destruir minha vida, acreditando que eu ia baixar a cabeça", disse, em alusão às "elites" que, segundo ele, querem afastá-lo da corrida presidencial.

"Mas não se preocupem comigo. O único que quero que saibam é que se um dia eu voltar a governar, vamos fazer mais", prometeu, interrompido pelos gritos de "Lula presidente".

- Raízes -

Aos 71 anos, o ex-líder sindical mantém o carisma no microfone e voltou a emocionar os seus, relembrando esta improvável jornada pessoal que começou com a infância pobre no nordeste e terminou com um político de projeção internacional.

"Eu sei de onde vim e para onde vou. Não vou a Paris, nem a Londres. Aqui têm um companheiro disposto a lutar até o fim", garantiu, com a sua voz rouca.

É pela volta daquele presidente que fez com que deixasse de se sentir esquecida que reza Maria José Pereira da Silva, agricultora de 65 anos, que acordou às 5h da manhã para ouvi-lo.

"Hoje eu me considero rica porque a gente tem tudo. Tem água, tem luz, tem geladeira, tem televisão em casa. Tem todos os benefícios, tudo foi Lula que trouxe para os brasileiros", contou, feliz por ter visto seu ídolo de perto.

"Nós o consideramos como um pai".

- Incerteza -

Mas, a volta ao Planalto, o que virou sua obsessão, pode se complicar antes do tempo e Lula pode acabar na prisão.

Com vários processos abertos na Justiça, o ex-presidente foi condenado em julho a nove anos e meio prisão pelo juiz Sérgio Moro por corrupção passiva e lavagem de dinheiro por receber um tríplex no Guarujá, em caso relacionado às suspeitas de recebimento de propina em contratos da empreiteira OAS com a Petrobras. Lula, no entanto, foi autorizado a recorrer em liberdade.

Os escândalos, a crise e os anos corroeram aqueles 80% de popularidade históricos com os quais Lula deixou a Presidência em 2010, e sua figura divide os brasileiros entre os que o amam e os que o odeiam.

Consciente disto, seu primeiro grande movimento após ter sido condenado - e antes de voltar a se apresentar perante Sérgio Moro, em 13 de setembro - foi voltar às áridas estradas do nordeste.

É ali que permanecem as marcas das ambiciosas políticas sociais que permitiram a milhões de brasileiros sair da pobreza durante seus dois mandatos, beneficiados pelo boom das matérias-primas.

"Viver na Bahia antes do governo do PT era uma situação de escravidão e de miséria. Após o governo do PT, a gente criou uma autoestima e começou a se desenvolver melhor. Ainda tem muita carência e muito precisa ser feito", lembrou Diaciso Ribeiro, agricultor do município de Anagé.

Certo de que a Bahia rural voltará a apoiar Lula, agora ele só espera que o restante do país pense igual.

Uol Notícias


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