sábado, 1 de julho de 2017

"Governo fabrica déficit para emplacar suas reformas", diz auditora Lucia Fattorelli

"O problema da crise não está nos gastos sociais, mas no pagamento da dívida pública", afirma Fattorelli (Foto: Divulgação)

Auditora fiscal da Receita condenou a forma como o governo passa dados para a população sobre as reformas que tramitam no Congresso, durante palestra no IV Congresso Nacional da Nova Central. Para a especialista, déficit previdenciário não existe

Brasília, 27 de junho de 2017 -- A auditora aposentada Maria Lucia Fattorelli, fundadora da associação Auditoria Cidadão da Dívida e uma das responsáveis por auditorias na Grécia e no Equador, afirmou que o governo Temer cria factoides para embutir na consciência da população que apenas com as reformas Trabalhista e Previdenciária o Brasil voltará a crescer. O tema foi debatido durante o segundo dia do IV Congresso Nacional da Nova Central Sindical de Trabalhadores (NSCT), que ocorre em Luziânia (GO) entre 26 e 28 de junho, com a participação de mais de mil sindicalistas.

" A conta está errada e o governo fabrica esse déficit propositalmente e de forma criminosa. Ao apresentar os gastos previdenciário, o Governo Federal não considera a cesta toda. Ele pega somente a contribuição do INSS e compara com a despesa total, desprezando Confins, PIS, PASEP e outros recursos que fazem parte da Seguridade Social", afirma Fattorelli.

Para a especialista, ao contrário do que afirma a equipe do Planalto, a dívida pública é a grande responsável pela atual crise econômica, mais que os casos de desvio de verbas oriundos da corrupção. "De 1995 a 2015, tivemos um superávit primário de um trilhão de reais. Quer dizer, o problema da crise não está nos gastos sociais ou no investimento público, mas na prática de juro abusivo e de amortização de um passivo sem fim, que hoje consome 44% do Orçamento Geral da União. Gastos com saúde, educação e Previdência, juntos, não ultrapassam os 30% desse montante. Essa conta mostra que estamos priorizando o mercado ou invés da população", finaliza Lucia.



"O problema da crise não está nos gastos sociais, mas no pagamento da dívida pública", afirma Fattorelli

O economista Márcio Pochmann, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), também participou do IV Congresso e ressaltou outros aspectos importantes para o reaquecimento da economia, como a volta de investimentos em infraestrutura. "A dívida pública é expressiva e corrói parte importante do orçamento nacional, sufocando o país com altas taxas de juros. Além disso, o Brasil tem uma estrutura defasada e em construção. Se iniciou uma renovação da nossa infraestrutura nos anos 2000, mas não se conseguiu concluir. O Estado fez muita coisa, mas se pressupõe um apoio do setor privado, que está acorrentado pelo processo de financeirização das riquezas nacionais”, concluiu.

IV Congresso Nacional da Nova Central

A Nova Central, que reúne mais de 1.200 entidades sindicais em todo o Brasil e representa mais de 10 milhões de trabalhadores e trabalhadoras, realiza o seu IV Congresso Nacional, que visa deliberar, entre as suas mais de mil entidades sindicais filiadas presentes, os desafios do movimento sindical brasileiro e a agenda programática sindical da entidade nos próximos quatro anos.

O Congresso, que reúne mais milhares sindicalistas de todas as regiões do País, realiza debates sobre o Mundo do Trabalho, Políticas Públicas, Sistema Político Nacional e Seguridade Social. Também são realizadas palestras com importantes referências do quadro sindical e trabalhista brasileiro. Entre eles, Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do DIEESE, a auditora fiscal Maria Lúcia Fatorelli, fundadora do movimento “Auditoria Cidadã da Dívida no Brasil”, e o economista Márcio Pochman, professor da UNICAMP.

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