25 junho 2026

Michelle X Flávio: durante jogo do Brasil, casa do senador virou comitê de crise que discutiu punição para ex-primeira-dama


A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, lado a lado, em manifestação na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em outubro de 2025 — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Por Letícia Pille/O Globo

O que seria uma noite de Copa do Mundo em família virou um comitê de crise improvisado na casa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para conter o desgaste político gerado com os vídeos publicados pela ex-primeira-dama Michelle expondo uma briga com o parlamentar. O pré-candidato à Presidência se preparava para acompanhar Brasil x Escócia em sua residência, em Brasília, quando a sua madrasta postou, nas redes sociais, uma gravação em que diz ter sido “humilhada” e “maltratada” pelo parlamentar. A partir daí, o jogo da seleção ficou em segundo plano.

Pouco antes de a bola rolar, Flávio participou de uma transmissão ao vivo nas redes sociais e tentou demonstrar tranquilidade diante da repercussão da declaração pública de Michelle.

— Hoje é dia de jogo. Nada nem ninguém me aborrece. Vamos tratar aqui de coisa boa, de futebol, porque o nosso Brasil a gente vai conseguir resgatar juntos. Tenho certeza de que esse é um projeto de Deus — afirmou.

Nos bastidores, porém, o clima era diferente. Segundo relatos de interlocutores do senador, Flávio foi surpreendido pela postagem e ficou abatido e irritado. A aliados, dizia que jamais havia sido desrespeitoso dessa forma, em público.

Enquanto o Brasil construía a vitória por 3 a 0, o senador dividia a atenção entre telefonemas e mensagens com assessores e pessoas próximas da pré-campanha. O grupo discutia o impacto do episódio e a melhor estratégia de reação.

A movimentação também se espalhou por grupos reservados de aliados. Em uma conversa, um interlocutor perguntou qual seria o futuro de Michelle no PL e se ela poderia ser punida pelo partido por esse tipo de conduta.

Apesar do incômodo entre aliados, o senador evitou elevar a temperatura da crise com Michelle e passou boa parte da noite ouvindo avaliações sobre a melhor forma de reagir. A pessoas próximas, disse que trataria do caso diretamente com o seu, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Após o apito final da partida, Flávio permaneceu em contato com assessores e aliados próximos para calibrar o tom da nota. Houve divergências sobre o caminho a seguir. Parte dos interlocutores defendia aguardar mais tempo, sob o argumento de que uma manifestação imediata poderia ampliar a repercussão. Flávio, porém, decidiu publicar o texto ainda na noite de quarta-feira, numa tentativa de conter a crise antes que ganhasse proporções maiores.

No comunicado, o senador negou ter desrespeitado a esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pediu desculpas caso ela tenha se sentido ofendida e reafirmou estar “de coração aberto” para uma reaproximação. “Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil”, escreveu ele.

Flávio também afirmou que havia tentado procurar a ex-primeira-dama antes da gravação. Segundo ele, pediu à senadora Damares Alves (Republicanos-DF) que organizasse um encontro com lideranças femininas conservadoras e sugeriu incluir Michelle na agenda. Disse ainda ter telefonado para ela na manhã de quarta-feira, mas não foi atendido nem recebeu retorno.

“Hoje pela manhã, eu mesmo fiz questão de ligar para Michelle e convidá-la, pessoalmente. Fiz mais um gesto não correspondido. Não atendeu. Deixei mensagem. Também não retornou. Para minha surpresa, na tarde de hoje ela publicou o vídeo”, escreveu o pré-candidato à Presidência. “O convite segue de pé e o coração segue aberto, pois temos um Brasil para tirar das mãos do PT”, complementou.

A manifestação de Flávio foi seguida por uma publicação de sua mulher, Fernanda Bolsonaro. Pouco depois, ela foi às redes sociais para defender o marido. Sem citar Michelle ou o conflito familiar, afirmou conviver diariamente com um homem “leve, respeitoso, carinhoso, restaurado e um pai dedicado às nossas duas filhas”.

“Como esposa, eu escolho olhar para aquilo que vejo todos os dias: um homem leve, respeitoso, carinhoso, restaurado e um pai dedicado às nossas duas filhas. Tudo o que fazemos nasce do mesmo desejo: que elas cresçam em um Brasil onde possam viver com liberdade, segurança, valores e oportunidades para realizar seus sonhos. As pessoas podem discordar dos caminhos, mas eu nunca tive dúvidas sobre a sinceridade desse propósito”, escreveu.

A ofensiva de Michelle

Apesar da nota divulgada por Flávio na quarta-feira à noite, aliados de Michelle avaliam que a tentativa de reaproximação só ocorreu depois que ela sinalizou, publicamente, que voltaria ao caso do Ceará.

Após a crise escalar, nesta quinta-feira, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro afirmou, em uma rede social, que não "tem raiva de ninguém" e que "não há briga, nem competição".

“Para ficar claro: eu não tenho raiva de ninguém. Apenas esclareci uma situação que estava sendo deturpada”, escreveu Michelle.

Na mensagem, a ex-primeira-dama procurou baixar a temperatura da crise e reforçou a necessidade de união da oposição contra o governo Lula. “Vamos todos trabalhar juntos para derrotar o atual desgoverno”, afirmou.

Em dois vídeos divulgados ontem nas redes sociais, a ex-primeira-dama afirmou que foi “maltratada” pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após se posicionar contra uma aliança entre o PL e o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) no Ceará. Em vídeo divulgado nas redes sociais, Michelle disse que o enteado a tratou com rispidez ao telefone e afirmou que ela deveria ficar fora das decisões partidárias por não entender de política.

Segundo Michelle, a ligação ocorreu horas depois de ela tornar públicas as críticas às negociações com Ciro. Ela afirmou que tentou contato com Flávio por telefone e que, quando ele retornou, ouviu que seria melhor não interferir nos rumos do partido.

— Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone. Disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política — afirmou.

Em outra parte do vídeo, Michelle detalha o atrito que teve com Flávio após se posicionar contra uma aliança entre o PL e Ciro Gomes no Ceará. A ex-primeira-dama afirma que ficou surpresa ao ver publicações do senador em defesa da articulação e diz que ele e os irmãos, Carlos e Eduardo Bolsonaro, fizeram ataques "de forma coordenada", sem antes procurá-la para conversar.

— Vi as postagens do Flávio contra mim nas redes sociais. Palavras duras, tom agressivo, defendendo o André Fernandes e, em consequência, apoiando a aliança com o homem que chamou a ele, a mãe e seus irmãos de corruptos e de ovos de serpentes nazistóides. E não foi só ele. Os irmãos vieram juntos, de forma coordenada, com textos bem parecidos uns com os outros. Pareceu combinado, premeditado — afirmou.

Michelle contou que tentou ligar para Flávio após as críticas públicas, mas que o senador não atendeu às primeiras ligações. Segundo ela, quando o enteado retornou o contato, a conversa foi marcada por cobranças e críticas à sua atuação política.

A ex-primeira-dama afirmou ainda que, depois da conversa, decidiu "se recolher" e que nunca mais procurou o senador. Segundo ela, Flávio também não voltou a abordá-la sobre o assunto.

A origem do atrito remonta ao fim do ano passado, quando Michelle entrou em rota de colisão com parte da família Bolsonaro ao se opor às negociações conduzidas pelo PL cearense para construir uma aliança com Ciro. Ela defendia que a legenda lançasse a vereadora Priscila Costa ao Senado, nome apoiado pelo PL Mulher. Na ocasião, Flávio classificou a postura da madrasta como “autoritária”, enquanto Carlos e Eduardo endossaram a estratégia partidária. Dias depois, o senador pediu desculpas, e as conversas foram suspensas temporariamente. O diretório estadual, contudo, segue reafirmando apoio ao ex-ministro.

O novo embate ocorre num momento em que a pré-campanha de Flávio tenta ganhar espaço entre as mulheres e consolidar a candidatura presidencial dentro da direita. Nos bastidores, aliados divergem sobre o tamanho do desgaste, mas reconhecem que a prioridade é recompor a relação entre madrasta e enteado antes do início oficial da disputa.

Por Letícia Pille/O Globo

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