Nascido no Sertão, em Petrolândia (PE), fui atleta amador por diversão, treinador físico por paixão, músico por encantamento e topógrafo por necessidade. Hoje, aposentado, vejo no meu filho, professor de educação física, a realização de um sonho que também foi meu.
VALDÃO: UMA VIDA DE SUOR, MÚSICA E GRAMADOS
O DESPERTADOR DAS MADRUGADAS
Diariamente, às três horas da manhã ele já estava na rua, passando de casa em casa, para acordar seus colegas. Na velha Petrolândia, tinha gente que chegava a deixar um cordão na janela, atado ao dedão do pé enquanto dormia, para que Valdão puxasse e obrigasse o dorminhoco a se levantar para o treino físico. E quando o sonolento perguntava que madrugada era aquela que a rua ainda estava escura, ele sempre adiantava o relógio e três horas viravam quatro ou cinco. O negócio era ganhar mais tempo para treinar!
A maratona começava no campo da Gameleira, ali perto da Estação Ferroviária, e seguia até o campo de aviação. Não raro avançava ainda mais, estendendo-se até o Areão, à beira do rio, onde enormes dunas serviam de arena natural para os exercícios aeróbicos e para o fortalecimento das pernas. Muitas vezes, sob o frio das madrugadas de junho os passos ecoavam pelas ruas desertas antes de alcançarem a areia. O ar gelado ardia na pele, mas ninguém recuava. O Independente Futebol Clube, de Tuí, e o Olímpico, de Nestor, confiavam o preparo de seus atletas a Valdão, certos de que, por falta de fôlego, jamais perderiam uma partida no campo de areia do Estádio do Hiltão.
PRIMEIROS PASSOS
Desde a escola primária, na Escola Maria Cavalcante, conhecida como Aliança (em função do programa americano que a financiou), Valdão pegou gosto pela Educação Física. Na escola não havia ensino formal nessa área, mas o time da escola e a rivalidade com o Grupo Escolar Delmiro Gouveia exigiam um bom preparo do time de jogadores de futebol (mesmo sendo eles ainda crianças). Ele fazia parte do time e tinha um fôlego invejável. Todos queriam adquirir o mesmo preparo. Com prazer, ele assumiu ares de professor e exigia esforço dos seus alunos-colegas. O pagamento? Uma caneca do famoso chocolate quente ao leite, americano, servido na cantina na hora do recreio. Cada dia, um aluno cedia seu lanche ao professor, que nem se dava ao trabalho de pegar a fila da merenda.
ORIGENS
Filho de Maria Barros Epifânio e Expedito Epifânio, seu pai veio morar em Petrolândia fugindo da seca braba dos anos 30. Quando frequentava os forrós dos baianos na Fazenda Saco, do outro lado do rio, conheceu a que seria a mãe de seus filhos. Dessa união, em 12.07.1956, nasceu Edvaldo Epifânio Barros (Valdão), segundo filho dos 15 que tiveram. Desses, três não resistiram à falta de assistência médica e saneamento básico daquela Petrolândia ainda tão atrasada nos anos 50. Sobraram 9 homens e 3 mulheres.
A CORRIDA QUE VIROU LENDA
Até hoje, em Petrolândia, todos da sua geração lembram de uma corrida promovida pelo colégio em que ele era o favorito disparado. Para ele, correr de Petrolândia até Barreiras, distante 10 km, fazer a volta na Igreja (hoje submersa) e voltar, sem intervalo, era corriqueiro.
Assim, quando surgiu a notícia da corrida, ele foi o primeiro a se inscrever. Com ele, mais uns vinte. Apenas para participar da brincadeira. Todos sabiam que ninguém ganharia para Valdão, o “professor”. Nesse dia, Valdão acordou cedo e, como de costume, antes de tomar café, foi para o colégio, de onde sairia o transporte que o levaria para Barreiras. Ele e os demais colegas de Petrolândia se aboletaram na Rural de Itamar e seguiram para o ponto de largada da corrida.
Ocorre que, com início previsto para as 7h, organiza daqui, espera dali, a corrida só começou às 11h. Mas tudo bem, tudo era festa. Os colegas cumprimentavam Valdão, considerado favorito sem sombra de dúvida. Ele próprio estava confiante. O trajeto era moleza para ele.
Dado o sinal de largada, ele disparou na frente. Conforme o esperado, deixou os concorrentes comendo poeira. Ganhou tanta distância que um carro passou por ele e informou: não tem nem graça. Não dá nem para avistar o segundo colocado.
Mas veio o cansaço, o sol a pino e a falta de alimentação e de hidratação, pois nem água levava. Não deu noutra: ao chegar ao Posto Fiscal, entrada da cidade, após haver corrido uns 8 km, Valdão foi olhar para trás para conferir a que distância vinha seu concorrente, e viu o mundo girar. Um funcionário do posto lhe apoiou a tempo de evitar a queda. Ele desmaiou.
Sorte que, em poucos minutos, chegava a Rural de Itamar, cheia de outros estudantes em igual situação. Todos foram levados para o hospital, para tomar soro, e a corrida estava perdida para eles.
Até hoje, Valdão tem que aturar essa história sendo contada na cidade, em meio a risos e zombarias.
PRIMEIRO TRABALHO FORMAL
Naquele período, Itamar Leite, professor de Educação Física do Colégio Municipal de Petrolândia, já o havia “promovido” a ajudante. Valdão era responsável pelo aquecimento das turmas e organização do material esportivo. Acompanhava o professor até em Barreiras, auxiliando também na escola do distrito.
Não havia vínculo formal nem remuneração. Havia trabalho, responsabilidade e promessa, esta última, segundo ele, jamais cumprida.
Seu Expedito, pai de Valdão, eletricista, era funcionário da Prefeitura, encarregado de, diariamente, ligar e desligar as lâmpadas dos postes da cidade, uma a uma. Com o tempo, passou a ser também responsável por fazer funcionar as bombas do abastecimento d’água. Por meio dele, Valdão conseguiu um emprego na Compesa. Era preciso trabalhar para ajudar em casa. Afinal, a função de treinador só lhe rendia respeito e admiração dos colegas. Dinheiro, que era bom, nada.
A BARRAGEM
Naquele final dos anos 70, as empresas começaram a chegar a Petrolândia para a construção da barragem. A demanda por trabalhadores era grande. Bom jogador, Valdão participava das peladas promovidas pelos engenheiros da Chesf que, sem muitas opções de lazer, formavam times com os moradores locais.
Foi num desses encontros que seu conterrâneo e parceiro de futebol, Nandão, lhe falou de uma vaga nas obras. O salário era bom. O trabalho exigia viagens constantes — com direito a dobrar o rendimento com as diárias — atuando na topografia da barragem, vinculado ao Departamento de Implantação do Reservatório (DIR), percorrendo cidades vizinhas para o levantamento cadastral de casas e terrenos sujeitos a indenização. Ele nada sabia de topografia, mas a empresa oferecia treinamento. Era, sem dúvida, uma bela oportunidade.
Por outro lado, Valdão estava abalado com o acidente ocorrido com um colega de trabalho que, ao entrar na água de um tanque, recebeu uma descarga elétrica e faleceu na hora. Aquela morte súbita o atravessou. Não pensou duas vezes: foi ao Recife e pediu demissão. Caiu no mundo. Tornou-se “pinhão” da empreiteira Themag e depois na Gilvo de Castro. Ganhou bastante dinheiro; pela primeira vez, parecia que a vida lhe sorria com generosidade.
Porém, quando as construções da Usina Hidrelétrica de Sobradinho chegaram ao término, a mão de obra de lá foi transferida para a Usina de Itaparica — gente especializada, experiente, já treinada no ritmo pesado das barragens. Ele acabou substituído.
MÚSICA E ESTRADA
De uma hora para outra, o dinheiro certo, mês a mês, cessou. Casado, sem casa própria, viu-se novamente diante da incerteza. Foi então que contou com a boa vontade da Assistência Social da Chesf. Em regime de mutirão, começou a erguer sua casa na nova Petrolândia. Recebeu o terreno; a empresa forneceu o material básico; ele entrou com a mão de obra. Foi a salvação.
Valdão e seus irmãos, desde pequenos, envolveram-se com o futebol e a música. Ainda crianças, formaram uma banda apenas com instrumentos percussivos feitos de lata, o que causava admiração: a Xuncurus. Então, quando ele ficou desempregado, a primeira ideia foi formar uma banda com os irmãos. Pegou todo o dinheiro da demissão, mais o que havia juntado, comprou um ônibus velho e instrumentos e, com seus irmãos — Zé Epifânio (vocal), Renato (iluminação e som), Ednaldo (vocal), Neide (cantora), Edvaldo (guitarrista), Edvânio (baixo) e Ivo (tecladista) —, formaram a Banda The Brothers.
Durante cinco anos, entre 1988 e 1993, tocaram em Petrolândia e região, chegando a acompanhar o cantor Biafra em shows e a se apresentar em festas nas cidades de Paulo Afonso, Catende, Vitória de Santo Antão e Maceió, entre outras. A essa altura, já casado e com filhos, o dinheiro pago pelas prefeituras mal dava para o básico — e ainda demorava a cair na conta. Não era uma vida fácil. Um dia, em Maceió, o ônibus se chocou com uma viatura da polícia. Foi a gota d’água. O perrengue foi tanto que eles desistiram da vida de artista.
TENTATIVA NO SERVIÇO PÚBLICO
As obras da barragem, àquela altura, estavam concluídas. Emprego era difícil. O jeito foi voltar para o que mais sabia e gostava de fazer: educação física. Tinha experiência e muita competência, só lhe faltava o diploma.
Na base da camaradagem, conseguiu ser contratado pela Prefeitura no cargo de Auxiliar de Serviços Gerais para atuar no Projeto AABB Comunidade. Este era um projeto do Banco do Brasil em convênio com a Prefeitura: o Banco cedia as instalações do clube, a Fundação BB custeava o material pedagógico e a municipalidade fornecia a mão de obra. E foi assim que Valdão entrou no projeto.
Independentemente do que registrava sua carteira de trabalho, ele passou a atuar como educador físico. Amava fazer aquilo. Mas durou pouco. Uma denúncia levou a fiscalização do Conselho a autuá-lo, sob a ameaça de que, se reincidisse na prática, seria preso. Teve receio. Caiu fora! Sabia que o empregador não iria bancar o risco por ele.
CARREIRA NO FUTEBOL REGIONAL
Mas ele tinha filhos para criar e precisava se virar. Na época, o Grêmio, time local, estava em ascensão e participava do Campeonato Estadual. Patrocinado por associados empolgados, chamaram-no para treinar a equipe. O salário era de cem reais por mês. Teve que fazer bicos: com Adelmo Cordeiro, aprendeu a costurar bolas e chuteiras para ganhar um trocado a mais. A situação, que já não era fácil com três filhos e a esposa para sustentar, ficou ainda mais difícil quando se desentendeu com ela. Arribou no mundo. Foi novamente buscar fazer o que sabia.
A TRAJETÓRIA NOS CLUBES DA REGIÃO
Com seu trabalho de treinador físico conhecido no meio futebolístico da região, conseguiu colocação nos clubes da redondeza. No Itacuruba F.C., então na segunda divisão, trabalhou por quatro anos e viu o time subir para a elite. Em Serra Talhada (PE), prestou serviço ao Serrano Futebol Clube, na primeira divisão, por quatro anos, e ao Ferroviário, na segunda divisão, por dois anos. Trabalhou ainda em Catende, Afogados da Ingazeira, Murici (AL), São Domingos (Maceió) e no Salgueiro, time de primeira divisão, onde atuou por um ano.
Valdão recorda esse tempo com saudade até da comida, nem sempre boa, preparada pelo técnico de alguns times; comia de bom grado, uma vez que a cozinha nunca foi o seu forte. Mesmo assim, preocupado com o desempenho dos atletas, preparava um aditivo energético pré-jogo. Tinha o nome de Jacuba e era uma mistura de caldo de cana, com rapadura, limão e guaraná em pó que turbinava a atuação do time.
RETORNO E FAMÍLIA
Com os pais idosos e doentes, retornou a Petrolândia para cuidar deles. Entre os irmãos, era o único sem emprego fixo, o que facilitou assumir essa responsabilidade. Com apoio da família e da filha mais velha, acompanhou os dois até o fim da vida.
LEGADO
Hoje, aos 69 anos, viúvo, reconhece erros e frustrações, mas celebra uma conquista que considera maior que qualquer troféu: a alegria de ver seu filho realizar um sonho que um dia foi seu. O rapaz é professor graduado em Educação Física, honrando, com diploma na mão, o talento que o pai sempre carregou no coração e na prática.
Fonte: https://museudapessoa.org/historia-de-vida/valdao-uma-vida-de-suor-musica-e-gramados/
FOTOS/ARQUIVO
Fotos/arquivo: Valdão
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