Por Lúcia Xavier Ramalho
"Ora, assim nas autocracias, como nas oligarquias, o poder corre ao encontro dos maus exemplos, como a limalha ao do ímã", escreveu o célebre baiano Rui Barbosa (1849-1923) no longínquo ano de 1920, ao descrever os efeitos nefastos do domínio político exercido de forma absoluta por um pequeno grupo pertencentes ao mesmo partido, classe ou família, sem resistência nem oposição. Em Petrolândia, no Sertão de Pernambuco, no meio tempo entre 13 de janeiro e 19 de fevereiro, um turbilhão de acontecimentos tem levado à sarjeta a credibilidade de instituições, políticos locais e aliados, após o assassinato do empresário do turismo, servidor público e mergulhador profissional Samyr Oliveira. O homicídio tentado no dia 13, com atentado a tiros, desferidos pelas costas, em movimentada via pública, foi consumado no dia 22 do mesmo mês, data em que a vítima não resistiu aos gravíssimos ferimentos e faleceu. Passou-se um mês e a sociedade ainda espera a voz das autoridades sobre o assunto, informada sobre o caso apenas por vazamentos, "furos" e publicações não oficiais, insuficientes para saciar a sede de justiça de quem aguarda respostas sobre o crime premeditado, cometido à luz do dia.
Nesse período, consequências inusitadas se sucedem na esteira do homicídio que chocou a sociedade petrolandense: o vereador suspeito fugiu, foi preso e confessou o crime; preso, foi afastado temporariamente do mandato; a Câmara de Vereadores, depois de meia dúzia ou mais de notas publicadas, retomou o ano legislativo sem abertura solene, realizou reuniões às pressas e dedicou-se a amenidades (eleições antecipadas para a mesa diretora), ato este que provocou reações de poucos vereadores (menos de metade), enquanto os demais ratificaram o escárnio à população; o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) foi acionado para apurar supostas irregularidades na Câmara para reconduzir o rito do legislativo às raias da ética e da moralidade; vereadores trocaram ofensas do mais baixo nível com publicações em redes sociais; um dos vereadores investigado foi afastado; a Câmara não cumpriu o calendário de reuniões divulgado no dia 9 de janeiro e, indignamente, fechou as portas ao povo sem nenhum aviso ao público; após suposta apreciação da Comissão de Ética Parlamentar de um pedido de afastamento do presidente da mesa diretora foi indeferido, porque "pau que dá em Chico não dá em Francisco"; livres como inocentes passarinhos, dois assessores parlamentares, cujos nomes também foram citados nas investigações, conforme documentos divulgados em redes sociais, foram exonerados da Câmara Municipal. Em resumo, após um mês de intenso desgaste, a Casa Aureliano de Menezes (e grande parte de seus inquilinos) teve imagem, representantividade, credibilidade e moralidade destruídas de um modo jamais antes visto nos 116 anos de história de Petrolândia. Nesse contexto, a frase de Rui Barbosa cabe como uma luva para descrever a situação do Legislativo municipal.
Mas, como toda sociedade tem sua larga cota de degenerados e interesseiros, inclusive Petrolândia, existem pessoas dedicadas a colocar panos quentes na situação. Para isso existem os "cidadãos" que tentam justificar ou amenizar o crime, os que aprovam o crime e se solidarizam com os autores e ainda os que culpam a vítima pela própria morte. Todos eles apostam na completa impunidade de um, dois ou de todos os indivíduos supostamente envolvidos. E os envolvidos são empregados do povo petrolandense, em serviço temporário no Legislativo Municipal, remunerados com gordos salários pagos com dinheiro do povo, através de repasses do cofre da Prefeitura.
Entre ações e omissões praticadas desde o primeiro instante após o crime, a mais estranha foi o silêncio das autoridades do município, a falta de repúdio contra a violência. O silêncio foi adotado como capa para tentar proteger reputações e como tapete para tentar abafar a imensa repercussão do caso. A mensagem passada por tais pessoas foi de nada excepcional ter acontecido na cidade, o homicídio foi aceitável, justificado, pode até ser repetido à vontade "se a vítima der motivo". O recado entendido foi "a cidade voltou ao tempo da pistolagem, período em que crimes eram praticados, todos fingiam demência para ignorar os fatos, e as conversas eram sopradas entre mãos, aos cochichos, como ainda hoje é imposto fazer quando se trata dessa época, não tão distante assim, porém, convenientemente escondida sob o tapete".
Essa postura de silenciamento disparou o alerta entre indignados cidadãos, dignos do título, que se mobilizaram para instalar outdoors em vários pontos da cidade, com o lema "justiça por Samyr", para cobrar apuração de um caso que tem sido atualizado exclusivamente através de fofocas e disse-me-disse, com documentos de investigação e denúncias, divulgações "bombásticas", "exclusivas", sem acompanhamento de uma voz oficial. A regra é o silêncio como tapete, o silêncio como capa.
O processo na Polícia Civil e Justiça aparenta celeridade, apesar do silêncio. No início de fevereiro, sem coletiva à impresa, o relatório das investigações policiais foi entregue ao Ministério Público, o que causou certo espanto. Em geral, crimes de grande repercussão, que provocam a consternação da opinião pública, recebem outro tratamento, com esclarecimentos à sociedade sobre o que foi apurado, medidas tomadas e próximas fases.
Há muitas interrogações suspensas no ar e a principal dúvida de quem acompanha as informações e documentos divulgados é: se o arsenal de provas é tão robusto quanto aparenta ser, por que ninguém mais foi preso, além do autor confesso dos disparos? No cotidiano, algumas pessoas chegam a relatar que se sentem constrangidas ao encontrar alguns dos envolvidos no caso, mesmo acidentalmente, devido à repulsa de sentir o deboche revestido pela certeza de impunidade.
Nesta última semana de fevereiro estão marcadas duas sessões da Câmara Municipal e não podem mais ser adiadas. Em seu convite aberto no site institucional, publicado no dia 9 de janeiro, diz-se que: "a Câmara torna público o calendário oficial das Sessões Ordinárias referentes ao 1º semestre de 2026, reforçando seu compromisso com a transparência, a organização dos trabalhos legislativos e a participação da população nas decisões do Poder Legislativo. A presença da sociedade é fundamental para o fortalecimento da democracia e o acompanhamento das ações parlamentares. A Câmara de Petrolândia convida todos os cidadãos a participarem das sessões, acompanhando de perto os debates, projetos e decisões que impactam diretamente o desenvolvimento do município". O convite não parecia sincero e hoje soa bastante falso, pois o andar do legislativo não tem nem aparência de normalidade.
Como "mar calmo nunca fez bom marinheiro", o caos se instalou na Câmara Municipal de Petrolândia. Falta gestão de crises e sobra medo ou nojo do povo, a quem os vereadores devem prestar contas, mais do que ao prefeito, de quem deveriam fiscalizar os atos. Sessões públicas foram canceladas. Pelo menos uma sessão secreta, a portas fechadas, que exige a assinatura de dois terços dos vereadores (9 vereadores) para ser convocada, foi realizada. Em seguida, uma sessão relâmpago para eleição de mesa diretora, em desrespeito a recomendação do MPPE.
No último dia 11, diante do clamor da população que pretendia ir à Câmara, após uma mobilização em rede social, com pedido de justiça por Samyr, houve o cancelamento da sessão ordinária prevista, sem aviso sequer a assessores, que compareceram no horário habitual e encontraram a Casa Legislativa às escuras. O motivo alegado para o cancelamento da sessão foi "força maior", justificativa que não consta do Regimento Interno da Câmara. Se existe força maior para o presidente se ausentar, ele nem faz falta. A mesa diretora pode ser presidida pelo vice-presidente, pelo secretário. Indispensável para a instalação é o quórum, o número de vereadores presentes.
Mobilização O Luto Virou Luta
De portas abertas ou fechadas para o povo, a Câmara Municipal vai realizar suas sessões esta semana. Em resposta às manobras da Câmara Municipal para evitar encarar a sociedade, também esta semana está prevista a realização de uma caminhada com pedidos de justiça, na mobilização "o luto virou luta #justiçaporsamyr". A data inicial marcada foi segunda-feira (23), com a concentração na Praça da Quadra 02, às 19h00. A população é convidada por familiares e amigos para participar da caminhada em prol da rapidez na elucidação do crime.
Blog de Assis Ramalho

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