31 janeiro 2026

Petrolândia dividida entre o "silêncio ensurdecedor" de instituições e os ruídos das ruas e das redes sociais

Petrolândia imergiu em uma crise de representatividade do Legislativo (Foto: Gemini AI)

O trágico destino do servidor público, empresário do turismo e mergulhador profissional Samyr Oliveira, falecido em 22 de janeiro, deixou Petrolândia dividida entre silêncios e ruídos. Desde o dia 13 de janeiro, data em que o petrolandense foi vitimado por tiros, várias instituições permanecem caladas, enquanto nas ruas e nas redes sociais os ruídos crescem. Apenas a Câmara Municipal foi incluída em pronunciamentos e, através de nota, passou a constar nos noticiários policiais. 

Na sequência cronológica dos fatos, no início da manhã de 13/01/26, Samyr Oliveira foi atingido por vários disparos de arma de fogo, após uma perseguição de moto que se estendeu do Sítio Serrota até o centro da cidade de Petrolândia, onde a vítima caiu, foi socorrida e transferida para hospital de Serra Talhada. Neste primeiro dia, nenhuma instituição de Petrolândia divulgou nota de pesar pelo estado gravíssimo de Samyr nem de repúdio pela violência registrada em plena luz do dia, em uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Porém, as centrais de boatos trabalharam como nunca. Desde as primeiras horas após o crime, com os moradores ainda em estado de perplexidade, eram ventilados nomes de pessoas supostamente envolvidas no atentado, por autoria ou colaboração.

No dia seguinte (14), já circulava abertamente o nome do vereador Cristiano Lima como autor da perseguição e dos disparos em via pública. Nessa data, o vereador Dedé de França cometeu o grande equívoco de publicar uma nota de esclarecimento (reproduzida no final desta postagem) e assinar como "Erinaldo Alencar Fernandes (Dedé de França), Presidente da Câmara Municipal de Petrolândia". A partir desse momento, o nome da Câmara Municipal de Petrolândia foi definitivamente vinculado às notícias sobre o atentado. 

Mas, até onde se sabia, Cristiano supostamente não teria motivações políticas para o crime. Ou seja, se a investigação era de um crime com motivações de cunho supostamente pessoal e os esclarecimentos foram prestados sob cunho pessoal, sem acusação formal ao vereador Dedé e sem envolver diretamente a Casa Aureliano Menezes, por que redigir uma nota institucional em vez de (um pouco menos burramente, mas tão burramente quanto), escrever uma nota pessoal, na qualidade de cidadão? Afinal, "quem se desculpa sem ser acusado, se culpa", diz o ditado e o disse-me-disse crescente na boca do povo. 

No dia 15, o irmão de Samyr, Said Sousa, publicou um vídeo no qual revelou que Cristiano, de fato, era o autor do atentado. Em aparente arrependimento, o vereador telefonou para ele e teria confessado a agressão, com um pedido de desculpas à família da vítima. O motivo para o ato seriam desavenças pessoais entre ele e Samyr. 

Cristiano fugiu e teve a prisão decretada pelo juiz da Comarca de Petrolândia, no dia 16. O presidente da Câmara seguiu emitindo notas sob o brasão do Legislativo Municipal, mantendo-se em evidência nos comentários sobre os fatos. Por outro lado, todas as demais instituições (prefeitura, diretórios políticos) mudas estavam e caladas ficaram. 

O crime parece ter sido de tão pouca importância para os políticos locais que, no lugar de uma nota de mínimo repúdio pelo crime, quando o nome do vereador acabara de ser confirmado nas páginas policiais, a prefeitura preferiu anunciar a programação do Carnaval. A ação foi interpretada como ato de desprezo pela vítima e tentativa de abafar a repercussão do fato na cidade. 

Durante os dez dias em que Samyr esteve internado, circularam mensagens de indignação e pedidos de justiça, ao lado das mensagens de apoio e solidariedade à família e de orações para o restabelecimento da saúde dele, cujo estado era gravíssimo. Acompanhado pelas lideranças políticas do estado Ricardo Teobaldo e Regina da Saúde, Said foi ao Recife, visitou o Palácio das Princesas, em reunião com o secretário de Segurança Pública de Pernambuco. O diálogo com governadora Raquel Lyra garantia que o crime seria apurado de forma rápida.

Infelizmente, Samyr não resistiu à gravidade do atentado. Ele faleceu no final da manhã de 22 de janeiro e sua morte provocou forte comoção em Petrolândia. Familiares, parentes e amigos ficaram em choque com a notícia. Apesar de ser esperado um milagre para a sobrevivência dele, foi muito difícil aceitar o desenlace. Espontaneamente, a cidade viveu um clima de sincero luto coletivo pela morte precoce de uma pessoa que era cheia de vida. 

Reconhecido dentro e fora de Petrolândia por sua dedicação ao turismo de Petrolândia, Samyr não teve sua trajetória reconhecida com decreto de luto oficial no município. Os pesares oficiais, no dia do falecimento, aparentavam ser divulgados sob pressão protocolar, exceto a primeira nota, em nome da Secretaria Municipal de Turismo.

O velório teve início na noite do dia 23, depois de uma longa e angustiante espera. O enterro, na manhã do dia 24, foi realizado após cortejo com um trajeto simbólico, acompanhado pela multidão que foi se despedir de Samyr Oliveira. Ele foi homenageado como o filho, o pai, o marido, o irmão, o colega de trabalho, o parceiro de empreitada, o empresário, o guia turístico, o mergulhador, o profissional, o cliente, o anfitrião, o petrolandense que engrandeceu o nome da cidade como poucas pessoas fizeram. O sepultamento foi realizado sob dor, inconformação, clamor por justiça. 

O enterro foi acompanhado pelos mesmos políticos que apoiaram Said no Recife. Depois do sepultamento, em um vídeo gravado ainda no cemitério, no qual Said expressava sua dor e revolta, Ricardo Teobaldo garantia a ele que a justiça alcançaria todos os envolvidos no crime, estivem onde estivessem, mesmo que estivessem na Câmara de Vereadores, fosse vereador, presidente, prefeito, qualquer pessoa. 

Rapidamente, sentindo-se ofendido com o conteúdo publicado com forte repercussão no Instagram, o presidente da Câmara divulgou mais uma nota de repúdio do Poder Legislativo de Petrolândia, anunciando a tomada de medidas legais contra quem divulgou o vídeo. E como foi recebida a nova nota do vereador nas redes? Com amplo número de comentários irônicos à atitude do presidente da Câmara. Virou chacota.

A morte de Samyr intensificou os pedidos de investigação, de prisão e de punição para o autor do crime e outros supostos envolvidos. Em rede social, Said clamava à Câmara Municipal o afastamento do vereador foragido até a apuração do fato. 

No dia 28, data prevista para a primeira sessão ordinária da Câmara Municipal em 2026, depois do recesso parlamentar, os vereadores se reuniram para formalizar o afastamento do vereador Cristiano Lima. A reunião aconteceu a portas fechadas no gabinete do presidente da mesa diretora da Câmara. Apenas um vereador presente à reunião deixou de votar, Gil da Cesta Básica, cuja abstenção repercutiu mal nas redes sociais. 

O presidente da Câmara anunciou o afastamento com postagem no seu perfil em rede social. 

"Na manhã desta quarta-feira (28), presidi a Sessão Extraordinária da Câmara Municipal de Petrolândia, convocada por meio do Edital nº 002/2026, para apreciação do Ato da Mesa Diretora nº 001/2026, que deliberou pelo afastamento preventivo do vereador Cristiano Lima da Silva, conhecido como Cristiano da Van, pelo prazo de 60 dias (sem remuneração). A sessão foi iniciada às 7h30, na sede da Casa Legislativa Aureliano de Menezes, e a decisão foi tomada com base no Regimento Interno, na Lei Orgânica do Município e no Código de Ética do Legislativo, conforme os documentos oficiais publicados no dia 27 de janeiro de 2026", informa. "O ato também determina a suspensão das atividades do gabinete do vereador e dos servidores a ele vinculados durante o período de afastamento", diz ainda a postagem do presidente da Câmara. 

"O afastamento preventivo foi determinado em razão da gravidade dos fatos apurados e tem como objetivo preservar a imagem institucional da Câmara Municipal (grifo nosso), além de garantir a normalidade e a moralidade dos trabalhos legislativos. Nosso compromisso é com a transparência, o respeito às garantias legais e a preservação da ordem institucional da Câmara Municipal de Petrolândia", afirma mais à frente. 

A frase em negrito acima é questionável, visto que Cristiano foi quem menos atingiu a "imagem institucional da Câmara Municipal". Ele não cometeu o crime durante o expediente na Câmara Municipal, não cometeu o crime dentro do gabinete, estava foragido e em silêncio. Ele não foi às redes sociais divulgar notas como vereador, vinculando o nome da Câmara à repercussão regional e estadual do crime. Segundo ele reafirmou ao ser preso, no dia 28, o crime foi motivado por desavenças pessoais. 

Simultaneamente à reunião em que era formalizado seu afastamento da Câmara, Cristiano era capturado em Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste de Pernambuco, onde estava escondido na casa de parentes. 

"As investigações conduzidas pela Delegacia de Polícia de Petrolândia envolveram a oitiva de testemunhas, a coleta de imagens de câmeras de segurança e perícias técnicas e indicaram a participação de pelo menos quatro pessoas", destacou o delegado Daniel Angeli, na notícia da prisão de Cristiano. 

Em menos de três dias, mesmo com o afastamento e a prisão de Cristiano, a imagem da Câmara não foi desgastada, foi simplesmente jogada no esgoto. O anúncio da eleição da próxima Mesa Diretora (2027/2028) gerou rupturas internas, denúncias ao Ministério Público, trocas de acusações e lavagem de roupa suja em redes sociais, com direito a assuntos pessoais divulgados com grande sensacionalismo e músicas épicas. Obviamente, a audiência aplaudiu o "fogo no parquinho". 

No dia 29, os vereadores Fabrício Cavalcante, Delano de Dona Santa, Jadinho da Clínica e Evaldo da Melancia, vereador mais bem votado em 2024 e vice-presidente da Mesa Diretora, solicitaram o cancelamento da eleição marcada para 30 de janeiro. Segundo eles, o momento ainda é de luto, há vereadores sob investigação criminal e não seria a oportunidade propícia para escolher representantes futuros. O MPPE acolheu o pedido dos vereadores e recomendou à Câmara Municipal a não realização da eleição, classificada como inconstitucional. A decisão do MPPE foi comemorada nas redes sociais. 

A recomendação foi ignorada com sucesso pela Mesa Diretora. No dia seguinte (30), a eleição foi confirmada e a chapa única foi eleita (Evaldo Professor, Keno da Lagoinha e Velto da Agrovila). A reunião durou menos de 10 (dez) minutos e foi presidida por Dedé de França, que saiu rapidamente depois do anúncio do resultado da votação (8x0). Os quatro vereadores que procuraram o MPPE não participaram e foram parabenizados.   

O anúnciou de que a Câmara havia ignorado a recomendação do MPPE e realizado a eleição foi suficiente para despertar o "cancelamento" da Câmara Municipal de Petrolândia como representativa do povo. Em algumas publicações divulgadas nas redes sociais, aparece a foto da fachada da Câmara de Petrolândia com a legenda "Essa Câmara não me representa". A repercussão negativa ainda provocou uma onda de críticas aos vereadores que participaram da eleição, acusações de ter sido uma manobra para favorecer quem está no poder. E a enlameada imagem da Câmara de Petrolândia não foi preservada por mais um dia e por mais uma noite. 

Na manhã de hoje, sábado, 31 de janeiro, quando a Câmara nem tem expediente, foi publicada mais uma nota pela Mesa Diretora para defender a legalidade da eleição que aconteceu ontem. Entre muitas palavras, é dito que a eleição deve ocorrer entre os meses de janeiro e junho. Portanto, os quatro vereadores e o MPPE estão corretos. Não existe urgência e o momento é inoportuno. 

A eleição foi mero desgaste de imagem do Legislativo e o causador não está preso. "Se o pau que dá em Chico, dá em Francisco", esse ou esses também deveriam ser afastados da atividade legislativa ou pedir afastamento da Mesa Diretora, para afastar a fumaça tóxica da fogueira das vaidades que contamina o ar na Casa Aureliano de Menezes. A "ordem institucional" e a "preservação da imagem" do Legislativo de Petrolândia jamais estiveram tão abaladas perante a opinião pública. Quanto a moralidade e normalidade, melhor não comentar, pois não posso contratar advogado neste momento. 

Enquanto os vereadores, alguns do mesmo partido, se estranham na Câmara, sem o menor indício de haver uma liderança, pessoas que já foram combativas parecem estar entorpecidas ou deslumbradas pelo poder conquistado com a fragmentada "base unida para desenvolver Petrolândia".  

Estamos em ano eleitoral e o "silêncio ensurdecedor" das instituições contrasta com os ruídos das ruas e das redes sociais, ignora que vínculos podem construídos na solidariedade do pesar e na busca por justiça. Em constante movimentação, sem se calar e sem se esconder da população, existe uma voz que está aumentando sua influência na política, enquanto a "base" transparece cansaço, desprezo e discórdia. Outubro está próximo.  

Por Lúcia Xavier Ramalho
Blog de Assis Ramalho

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