Crônicas & Contos


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FALTA DE ABSURDO

Valdeane Santos - 20/05/2010

     Nas ruas do centro mora um mendigo. Numa mão ele carrega uma sacola plástica pequena, com todas as suas posses. Alguém - não lembro quem, nem pergunte! - disse que só devemos ter aquilo que podemos levar sempre junto da gente. A outra mão está segurando um cigarro ou estendida pedindo um real, em frente à padaria, onde ele se senta com as pernas elegantemente cruzadas. Na Índia, ele provavelmente iria andar nu e seria digno de alguma honra, como sábio, talvez. Mas aqui, ele é somente um mendigo doido. Não tem emprego, casa, família, aposentadoria, documentos nem memória. Mas não faltam mãos amigas pra lhe dar uns centavos, pão, cigarro e roupas usadas. Esse homem costuma dizer frases cheias de palavras difíceis, completamente sem sentido. Deve ter enlouquecido ouvindo discursos políticos. Uma dessas frases, ou melhor, o pedaço de um discurso incompreensível para alguém “normal”, ficou em minha cabeça:

     - É muita falta de absurdo!, gritou ele com seus poucos botões sujos.

     - Melhor passar mais por longe... Ele deve estar em surto, falei eu para os meus brincos, e nos afastamos sem olhar pra ele.

     Mas, aquela falta de falta de absurdo grudou em mim. O que é isso? Que doidice! É só delírio de quem não tem o juízo certo.

     - Amiga, tu viu o jornal ontem? Viu umas pessoas chorando por causa de umas cobras torradas? Que povo mais besta!

     - Não vi, mas ouvi falar das cobras... Coitadas! Foi uma grande perda pro Brasil! Eu não assisto mais jornal, desde que passou aquela aposentada da Justiça que batia na menina que tava adotando... Só passa desgraça, tragédia, catástrofe natural e artificial. Tô com saudade do tempo que só saía um escândalo aqui, outro ali, pra gente esquecer o anterior! Coisas light, tipo mensalão, desvio de dinheiro. Tu lembra?

     - Lembro, mas faz tempo. Tá fora de moda, miga! Fashion é notícia de padre pedofiliando. Tu perdeu a do padre que foi preso bêbado, só de camisa e cueca, cantando uma de menor. Por que padre gosta tanto de criança? “Deixai vir a mim as criancinhas”... Será que tem cinto de castidade pra homem? O Papa devia mandar inventar e distribuir pros padres, né?

     - Caraca! Que ideia, sua doida! Do jeito que as meninas tão precoces, tá meio difícil dizer quem pedofilia quem.

     - É... Mas é melhor o Papa liberar geral, pra entrar mais homem no mercado. Eu já vi uns padrezinhos que ó! O daqui mermo, se desse mole, eu ó, ia!

     - Sarta fora, mulher! Quem garante que eles vão entrar no mercado certo?

     - É mermo, né? Ei, tu soube do rapaz que cortou o cabelo da ex pra vender e comprar crack?

     - É piada? Eu só vi coisa parecida em programa humorístico.

     - Tu disse a merma coisa, quando eu falei daquele cara que degolou a mulher, por causa que ela virou homem quando eles tavam transando.

     - Eu ainda não engoli essa não!

     - Juro! Pode procurar na net! Foi lá no sul.

     - Na internet é onde tem mais mentira...

     - Mentira? É quase tudo verdade!

     - Tu nem sabe ver a net direito sozinha, besta! Eu, hein!

     - Vai! Entra aí e procura o babado do cara que matou a família na marretada, deu um tiro na cabeça e pulou da ponte.

     - Deu um tiro na cabeça de quem?

     - Na dele! Depois pulou da ponte. Ou foi o contrário? Foi em Paulo Afonso, tá ligada? Bem ali ó!

     - Tu tá é tirando onda... Quem já viu: um tiro na cabeça e um salto?

     - Certeza! Vi passar no rádio. Disseram até que acharam o revólver dentro do carro dele... Quem manda tu ser desinformada? Eu sei até do PM que matou um morador da favela que tava armado com uma furadeira.

    - Pó parar! Vamo trabalhar? O patrão tá riscando aí, daqui a pouco...

    - Ô miga, mas dá uma procuradinha básica, discretamente, aí na net, pelas fotos da chacina lá de Floresta, vai? Karla me disse que dá pra ver no gúgol. É só botar assim: “chacina de Floresta”.

    - Pois aprenda a usar o computador e procure só! Eu que não quero ver morto morto! Não se contenta com as fotos deles quando tavam vivos? Tu podia até conhecer alguém. Parece que é doida, doida!

    - Não, mulher! Eu quero ver como eles morreram... É massa demais ver foto de morto, principalmente se tiver esbagaçado! Tu procura?

     O doido é quem tem razão: é muita falta de absurdo! Um diz “tá todo mundo louco” e tem quem grite “oba!”. A falta de noção de absurdo é generalizada. Pra viver, matar e morrer aparece uma absurdidade nova quase todo dia. Então, para o mundo que eu quero descer. Já passou da hora de ele acabar e, quando finalmente acabar, eu vou gritar:

     - URRUUU! DEMORÔ!