quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O que leva pessoas a fazerem selfies em situações inapropriadas?

As imagens mostram agentes felizes. Em uma delas, o próprio traficante aparece sorrindo. Após sair em fotos, delegado critica: 'Está sendo corrigido'.

A prisão do traficante Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, na manhã desta quarta-feira, foi amplamente divulgada não só pela imprensa, mas por policiais que tiraram selfies com o prisioneiro algemado. Nas imagens que circulam nas redes sociais, PMs sorriem, exibem suas armas e posam ao lado do traficante. As atitudes geraram polêmica e levantam a discussão: por que as pessoas tiram selfies em situações consideradas inapropriadas?

Sobre as imagens de policiais ao lado de um dos traficantes mais procurados do Rio, a psicóloga acredita que mostram um caráter exibicionista de quem fez os registros. Para ela, seria também como exibir uma conquista, diante dos sorrisos exibidos nas fotos. Por outro lado, explica ela, há também um tom perverso.

Segundo Carlos Nepomuceno, consultor de inteligência competitiva digital, as selfies, em geral, podem ser consideradas um sinal de um fenômeno de massa, que pode ser explicado por uma busca por visibilidade e identidade. Se elas são feitas em locais conhecidos ou com pessoas famosas, esta seria uma forma de potencializar essa visibilidade.

Ele explica que vivemos um momento de transição, em que há mudança de mídia, saindo da centralização em jornais, rádio e TV para a descentralização das redes sociais.


- Ao mesmo tempo em que alguém da televisão pode ser muito conhecido, com detalhes de sua vida expostos, há uma subexposição de milhares de pessoas. Quando surge uma mídia descentralizada, como as redes digitais, há uma demanda emergente de querer sair da invisibilidade. Nessa passagem, há gente e situações de todos os tipos - observa Nepomuceno. - Em vez de tirar a foto da árvore, por exemplo, tira-se uma foto de si mesmo com a árvore. A pessoa não quer ver a árvore, mas sair na foto com ela. Estamos vivendo um tipo de surto de procura de identidade das pessoas que se reflete nisso (nas selfies).

A psicóloga Luciana Nunes classifica três perfis de pessoas que fazem e divulgam suas selfies. O primeiro deles seria o exibicionista, que se fotografa no elevador, na academia e abusa dos filtros e retoques. Um segundo grupo seria composto por aqueles que fazem fotos quando acordam tristes, por exemplo, e compartilham esse sentimento com amigos, criando um sentimento de compaixão por parte de seus seguidores.

Há ainda um terceiro grupo, os da "assinatura digital".

- Pessoas que gostam de demonstrar autenticidade no momento em que uma situação foi vivenciada. Não basta só ir a algum local, tem que clicar e deixar sua assinatura digital ali. São internautas que legitimam o que querem passar como autêntico, como seu, como uma vitória - diz a psicóloga.

Luciana ressalta que a indústria está acompanhando e colaborando com essa tendência das selfies, com melhorias nas câmeras frontais dos aparelhos móveis, por exemplo. Se os celulares estão prontos para capturar imagens, por que não fazer isso?

- A vivência das situações no mundo digital pode ser postergada e prolongada. Não só vou num show e vivo aquele momento, como posso prolongar essa sensação no meu mundo digital e compartilhar com os outros - aponta Luciana. - Como seres sociais, desejamos pertencer a grupos. E a participação atualmente para determinadas pessoas vem com a validação de um like, um comentário. Não basta só ter seguidores que sejam seus amigos, mas eles precisam curtir, comentar e compartilhar.

O Globo


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