domingo, 10 de setembro de 2017

Estudante baiana tenta levar tecnologia que purifica água ao semiárido


Anna Luísa Beserra, 19, quer arrecadar R$ 23 mil para implantar 15 unidades-testes de seu invento, o Aqualuz, que 'potabiliza' a água armazenadas em cisternas no semiárido

Com um sorriso largo de menina estampado no rosto, cabelo ao vento e repleta de sonhos, Anna Luísa Beserra, 19 anos, demonstra a primeira vista ser como a maioria das jovens de sua faixa etária. Mas essa aluna de Biotecnologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) já alçou grandes voos, apesar da pouca idade. A Safe Drinking Water For All (SDW), startup socioambiental que ela ajudou a criar há dois anos desenvolveu um produto capaz de transformar a vida de milhões de pessoas do semiárido, região que costuma sofrer com os efeitos da estiagem.

A inovação atende pelo nome de “Aqualuz”, um dispositivo à base de energia solar voltado à desinfecção da água de cisternas. “Basta bombear a água da cisterna para o equipamento. Primeiro ela passa pelo filtro e as partículas sólidas que deixam o líquido escuro são retiradas. Depois disso segue para um reservatório, onde fica exposta ao sol por um período que vai de uma a quatro horas. O controle é feito por um sistema de monitoramento que avisa quando a água está pronta e o operador, assim, pode retirá-la diretamente da torneira”, explica.


Em agosto do ano passado, a estudante representou a Bahia e o Brasil em uma das melhores universidades do mundo, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, onde participou do Global Entrepreneurship Bootcamp, evento dedicado a treinar jovens empreendedores sociais de todo o mundo. Anna Luísa aproveitou a oportunidade para apresentar o seu projeto.

R$ 500 por unidade

Segundo a SDW, o Aqualuz é um dispositivo de desinfecção solar da água que aproveita os efeitos da luz solar: radiação no espectro da luz UV-A (comprimento de onda 320-400nm) e calor (aumento de temperatura da água) para atacar a vulnerabilidade dos micro-organismos patogênicos. Isso sem usar nenhum composto químico e com uma estrutura que permite uma excelente durabilidade, sem a necessidade de ter que trocar filtro. O custo do equipamento é de R$ 500,00 por unidade.

Para realizar a manutenção do equipamento bastam água e sabão. Já as fibras de sisal, que também compõem o Aqualuz, podem ser trocadas facilmente. Não há adição de produtos químicos. Um manual de instruções demonstra ao consumidor como proceder através de imagens intuitivas. Testes preliminares conduzidos em laboratório certificado, que utilizaram parâmetros da portaria 2.914 do Ministério da Saúde, revelaram que a inovação reduziu em 99,9% a presença de bactérias-referência.

Infância

Anna Beserra recorda que o gosto pelo estudo veio desde cedo. “Lembro que aprendi a ler e escrever mais cedo que meus colegas de escola, pois minha avó (professora de Português) me ensinava e via tudo como diversão. Gostava também de brincar de cientista, fazia experiências de criar formigas, lagartas ou criar poções com terra, folhas, sempre deixando minha imaginação falar mais alto”.

Faixa azul de jiu-jitsu, esporte que pratica desde os oito anos, e moradora da Ribeira, na Cidade Baixa de Salvador, a jovem lembra também que foi aprovada no vestibular para cursar Biotecnologia com apenas 17 anos, quando ainda estava no ensino médio. “Não cheguei a cursar o terceiro ano. Meu pai teve que entrar na Justiça, já que eu ainda tinha 17 anos e não tinha concluído o ensino médio”, conta.

Campanha

O novo projeto da jovem estudante tem o objetivo de implantar 15 unidades-testes do Aqualuz no município de Valente (a 238 km de Salvador), no Semiárido baiano. Para concretizar a meta, a SDW lançou uma campanha de financiamento coletivo (www.doar.sdwforall.com) através da plataforma PagSeguro.

“Precisamos de R$ 23 mil para beneficiar essas famílias. A cada R$ 30 doados é possível ajudar uma família a ter 50 dias de água potável”, diz.

Na etapa de implantação em Valente, a SDW se responsabilizará pela construção dos equipamentos prometidos e financiados, sendo que a entrega será feita pela organização parceira, o Consórcio Público de Desenvolvimento Sustentável do Território do Sisal (Consisal). “A SDW fará o acompanhamento e realizará um mutirão cultural envolvendo temáticas da água, incluindo a explicação de como funcionará o projeto”, informa o texto da iniciativa.

Sonho

Em entrevista ao CORREIO Sustentabilidade, Ana Beserra afirma que percebeu a possibilidade de usar a criatividade para ajudar as pessoas que carecem de água potável. “É o empreendedorismo social unido à sustentabilidade, já que o Aqualuz é um produto que utiliza energia solar e fibras de sisal para ‘potabilizar’ a água. Apesar de já serem quatro anos tocando esse projeto sem nenhum retorno financeiro, faço com muita paixão e em momento algum penso em desistir”, ressalta, com brilho nos olhos.

A jovem estudante comemora o fato de hoje contar com um sócio no projeto, o estudante de Engenharia Mecânica Thiago Lima. “Temos uma equipe maior de pessoas comprometidas e estamos quase perto de entrar em operação, o que falta é o piloto para validar a tecnologia, por isso estamos lançando a campanha Piloto Aqualuz no Semiárido - P.A.S”.

Escassez

Atualmente, quase 800 milhões de pessoas carecem de acesso à água potável limpa e de qualidade segura. As Nações Unidas estimam que em 2025 até 1,8 bilhão de seres humanos viva em países ou regiões com extrema escassez do recurso.

No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há mais de quatro milhões de famílias agricultoras camponesas. Destas, 50% vivem no Nordeste, a maior parte delas no Semiárido, região de um milhão de km², superior às áreas da Alemanha e França juntas.

A cada período de estiagem, milhares de pessoas não conseguem satisfazer suas necessidades de acesso à água e aos alimentos básicos, e uma pessoa pode gastar até 36 dias por ano exclusivamente em busca desse recurso básico.

Para mais informações: info@sdwforall.com.br

Fonte: Correio da Bahia


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