domingo, 3 de setembro de 2017

Criado no Recife, cobogó continua forte nos projetos contemporâneos


Projeto de Lúcio Costa para o Parque Guinle, um clássico carioca (Foto: Camilla Maia)

Cada feixe de luz que cruza os furos de um cobogó é uma ode aos trópicos. Este charmoso elemento arquitetônico tem os pés fincados no Brasil, mais precisamente no Recife, onde foi patenteado em 1929. O próprio nome de batismo guarda o registro de sua autoria. Trata-se da junção das primeiras sílabas dos sobrenomes de seus criadores: Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis. Tendo o modernismo como um de seus momentos mais prósperos, nunca saiu de moda e, ao longo das décadas, se reinventou em versões que transitam entre as mais diferentes formas e ambientes.

Referência em pesquisas de azulejaria, a arquiteta e urbanista Dora Alcântara conta que os três colegas criaram inicialmente peças de concreto vazadas, para que fossem usadas em substituição ao pau-a-pique.

— A malha daquela técnica de vedação tradicional, feita em madeira, ao ser substituída pelo concreto, poderia desempenhar, também, uma função estrutural — conta ela. — Mas o invento, apesar de engenhoso, não teve o maior sucesso inicialmente.

Segundo a arquiteta do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) Sandra Branco, o cobogó ganhou projeção mesmo com o modernismo, num primeiro momento na arquitetura de Luis Nunes, no Recife, ainda em blocos de concreto. Depois, veio um novo impulso com projetos no Rio, assinados por nomes como Lúcio Costa, Jorge Moreira e Oscar Niemeyer, já utilizando sua versão em cerâmica.

— Não está presente somente em projetos premiados. Pode ser encontrado em residências unifamiliares mais exclusivas e sofisticadas, como a residência Moreira Salles, na Gávea, e também em casas mais modestas na Zona Norte e no subúrbio — observa ela. — Também foi utilizado nas fachadas de edifícios residenciais multifamiliares como recurso plástico ou prático, escondendo as áreas de serviço ou a ventilação de banheiros.

USO CONTEMPORÂNEO

Todas essas finalidades seguem fazendo muito sentido nos projetos mais contemporâneos. O arquiteto Pedro Kastrup é um dos entusiastas desse material. Como ele destaca, além de garantir a ventilação, o cobogó rompe uma barreira de iluminação.

— Também adiciona um ar poético aos ambientes, já que a forma como ele desenha a luz nos espaços pode se alterar ao longo do dia e até conforme a época do ano — reflete ele.

Para quem é simpático à ideia, Kastrup afirma se tratar também de um ótimo recurso para divisão de ambientes, como área e cozinha, dando transparência e privacidade na medida certa.

— Fora que resgata o que, na minha opinião, é a melhor fase da arquitetura nacional: o modernismo — enfatiza ele.

Kastrup acredita, ainda, ser este um recurso que tem tudo a ver com o Rio. E isso não se resume à capacidade de amenizar os 40° do verão. Como na cidade há um histórico de muita proximidade entre os edifícios, o cobogó é capaz de proporcionar privacidade, sem vedar o respiro das construções.

Caro? Depende. E é aí que entra mais um item favorável ao uso desta invenção. O mercado oferece desde exemplares assinados por designers renomados, como Zanini de Zanine, que lançou recentemente dois modelos pela Solarium Revestimentos, a produtos bem baratinhos.

— Dá para comprar até em lojas de departamento, por preços em torno de R$ 18 a unidade. Já para um tipo mais sofisticado, aí este valor pode chegar a R$ 100 — comenta Kastrup.

Tem para todos os gostos e o viés democrático, diga-se de passagem, não termina por aí. Segundo o arquiteto, a aplicação é fácil e intuitiva. Não requer grandes complicações.

— É a verdadeira prova de como é possível fazer arquitetura de qualidade com pouco — exalta ele.

O arquiteto Marcio Kogan, do Studio MK27, chega a brincar que o único jeito de o cobogó não cair bem num projeto é se “o usuário do espaço for um político corrupto”. Ao lado da co-autora Carolina Castroviejo, ele assinou a Casa Cobogó, em São Paulo. O projeto tem corrido revistas e sites especializados, em função da beleza que a solução encontrada por eles para reverenciar este elemento da arquitetura nacional traz.

— O desenho do cobogó utilizado foi elaborado pelo artista austro-americano Erwin Hauer, que desde a década de 1950 faz esculturas concebidas para o espaço arquitetônico. A incorporação de linhas curvas infinitas ao desenho é uma referência à arquitetura moderna brasileira, especialmente a de Oscar Niemeyer. Cada módulo, de pedra fundida, mede 20,5 cm x 20,5cm — descreve ele.

Para Kogan, a criação de um volume inteiramente revestido por este material resulta em um “espaço único, de atmosfera reflexiva”.

— Efeitos plásticos de luz e sombra tornam-se protagonistas do projeto, a partir da interação entre os elementos construídos e os naturais — diz ele, comentando um dos motivos pelos quais gosta tanto dessa criação brasileira. — O elemento vazado proporciona o controle da luz e da ventilação com técnicas e materiais simples. E a simplicidade é essencial à boa arquitetura.

Se os arquitetos frequentemente exaltam os resultados poéticos que partem do cobogó, a designer Silvana Minello, que desenvolve os produtos da Manufatti, reforça essa interpretação. Desde que recebeu a incumbência de desenhar modelos deste produto para a marca, ela passou a ter um verdadeiro fascínio pela produção. Os exemplares ainda são fabricados a partir de fôrmas, e levam até dez dias para ficarem prontos.

— Quando tive contato com o processo artesanal de fabricação, fiquei encantada. Cada item se torna uma obra de arte, já que não existe um igual ao outro. Isso é revolucionário dentro de um mercado onde o porcelanato apresenta diferenças de apenas milímetros. Em meio a tanta demanda por perfeição, ter algo natural dessa forma faz um sentido muito grande para o nosso dia a dia — comenta a designer, que cria os padrões a partir de argila e gesso.

Para Silvana, a tendência mundial de uso de materiais tridimensionais e com volumes nos projetos arquitetônicos deu um gás na demanda pelo cobogó, que se encaixa perfeitamente nestas soluções. E para surfar nessa onda, as empresas investiram em modelos que trazem diferenciais como a limpabilidade obtida pela esmaltação e desenhos elaborados. Quase nove décadas depois de que o cobogó foi patenteado, suas possibilidades parecem longe de se esgotar. Salve Recife!

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