segunda-feira, 31 de julho de 2017

Reaproveitamento da casca do coco é desafio do setor


Se estimado matematicamente o que de fato é utilizado em geral do coco, representa nada mais que 15% do seu peso. Os outros 85% são jogados fora. Ou seriam por completo, não fosse a inventividade de institutos de pesquisa e de empreendedores que fazem do reaproveitamento dos resíduos do coco uma fonte de renda. Mas como a nenhum projeto basta começar, é justamente a manutenção o maior desafio à criatividade. No Ceará, muito do que já andou hoje está parado.

A casca de coco tem várias maneiras de não ir para o lixo: triturada, constitui alternativa à fibra de madeira na indústria moveleira e na construção civil (do piso à porta); do substrato, ou "tanino", tem-se um defensivo natural, de perfil fungicida. Mas o próprio farelo, prensado, ajuda a reter a água e ainda serve como adubo; extração da celulose a partir da fibra da casca. Também dela se retira um líquido que, fermentado, produz biogás, ou seja, energia.

"Há uma série de trabalhos que envolvem o coco e continuam sendo feitos. É um trabalho que não para. Transferimos tecnologias para que sejam aplicadas tanto em órgãos públicos quanto não governamentais e empresas", explica Adriano Mattos, analista da Embrapa Agroindústria Tropical. A instituição é responsável por grande parte das pesquisas inovadoras que hoje são a base de vários empreendimentos empresariais que têm o coco como sua matéria-prima.

Auge do processamento


Entre os anos de 2008 e 2012, algumas unidades de processamento da casca funcionavam em Fortaleza e no Interior, em boa parte canceladas antes mesmo do início da crise hídrica. Em Fortaleza, até 2012, estava em atuação uma unidade no bairro Jangurussu, com maquinário da própria Embrapa e administração pela Prefeitura Municipal.

No Interior, havia uma unidade em Icapuí, com recurso do Governo do Estado via Fundo Estadual de Combate à Pobreza (Fecop). Ambas estão paradas, sendo a de Icapuí com maior perspectiva de retomada.

"A realidade hoje é que a região semiárida do Nordeste, principalmente as que não dependem do Rio São Francisco, estão passando por uma época de incertezas. Ninguém sabe quanto vai chover. O plantio de coco requer muita água", alerta Fernando Abreu, doutor em engenharia de processamentos industriais e engenheiro de alimentos da Embrapa.

Segundo o especialista, o que mais tem dado certo são os coqueiros irrigados, que necessitam de 150 a 200 litros de água por dia. "Com a crise hídrica, agora no sexto ano, ficou a incerteza nos perímetros irrigados do Vale do Acaraú, Vale do Curu, Pentecoste e em Sousa, na Paraíba. São regiões que conseguiram manter porque passaram a perfurar poços", diz o engenheiro da Embrapa, que há alguns anos transfere a expertise do processamento do coco na parte alimentícia, no que inclui a água.

Tempos de escassez

Para Fernando Abreu, a continuidade do desenvolvimento de tecnologias de processamento e inovação na área depende, de um lado, da água, cada vez mais escassa e usada indiscriminadamente, e, do outro, do próprio financiamento aos estudos.

"O setor de pesquisa ficou ameaçado com a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que congela o teto dos gastos públicos nos próximos 20 anos", reclama. Com a proposta, promulgada em dezembro de 2016, o crescimento dos gastos federais fica limitado à inflação do ano anterior. A medida afeta diretamente a Embrapa.

Hoje, a indústria da água de coco se beneficia das pesquisas desenvolvidas pela Embrapa. Começou com uma máquina para a extração, depois, a conservação térmica, pasteurização, resfriamento, e foi evoluindo. "O setor ficou tão grande que perdeu controle. E a crise hídrica está ameaçando milhares de empregos", lamenta Fernando Abreu.

Da casca se extrai o pó e a inclusão social no Interior

O processamento da casca de coco em Icapuí chegou como uma boa notícia para o município do Litoral Leste. O beneficiamento do produto em pó tinha a compra certa de empresas agrícolas, sobretudo na área de fruticultura. Pelo menos dez famílias atuavam diretamente na extração do "tanino", substrato em tecido natural com função fungicida, além de ser um adubo natural.

"Ainda fazíamos outro subproduto, como uma manta, que servia de acessório em carro, e outras coisas. As máquinas pararam, mas a perspectiva é retomar até o fim deste ano", lamenta por um lado, mas se enche de esperança, por outro, Maria Aparecida de Alcântara, da Associação Caiçara, que exerce atuação no município de Icapuí e fora dele em projetos envolvendo a socioeconomia solidária.

A atividade parou em 2008 com a suspensão do convênio com o Governo do Estado, por meio do Fundo Estadual de Combate à Pobreza. Agora, a associação espera voltar a gerar renda para as famílias em convênio prestes a ser firmado com Instituto Agropolos. Por enquanto, as máquinas estão paradas, esperando pela casca de coco.

Diário do Nordeste


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