domingo, 23 de julho de 2017

A agonia do Velho Chico! o rio sofre uma das suas piores secas da sua história

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Caso a chuva não regularize a partir de novembro no semiárido, os 69 municípios pernambucanos banhados pelo rio São Francisco podem sofrer graves problemas, inclusive com a captação de água para consumo humano

A recente redução de 650 m³ por segundo para 550 m³ por segundo da vazão diária de água da barragem de Sobradinho, no Norte da Bahia - o menor patamar já adotado pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) - poderá afetar diretamente as populações ribeirinhas dos municípios pernambucanos. São quase 70 cidades do Sertão do Estado banhados pelo Velho Chico - sendo Petrolina o primeiro a ser atingido por ser o mais próximo, a 40km da barragem. A situação para Pernambuco é preocupante, alerta o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), visto que o Estado é totalmente dependente da vazão de Sobradinho. É essa usina hidrelétrica que regula o nível de água não só para o baixo, mas para toda a parte submédia da bacia do rio, onde Pernambuco está inserido.

As chuvas abaixo da média nos últimos cinco anos, justifica a ANA, tem sido o motivo principal para a instituição vir autorizando a redução da vazão mínima defluente (água que sai). A vazão de Sobradinho, que começou a operar em 1979, vem diminuindo desde abril de 2013, quando passou a ser menor do que 1,3 mil metros cúbicos por segundo, a vazão ambientalmente correta. E agora, passa a operar com 550 m³/s. De acordo com a ANA, a nova regra vale até 30 de novembro, quando finaliza o Dia do Rio.

O marco, instituído no último dia 20 de junho, estabelece a suspensão da captação d’água no rio São Francisco todas as quartas-feiras, a partir do dia 28, com exceção das indústrias e mineradoras que utilizam acima de 13 horas por dia, que reduzirão em 14% o volume recolhido. O objetivo é preservar os estoques nos reservatórios da bacia do rio São Francisco. A medida é mais um esforço para evitar recorrer ao volume morto de Sobradinho até novembro, quando está previsto o fim do período seco.

Porém, caso não haja a regularidade das chuvas a partir de novembro na região norte de Minas Gerais e Oeste da Bahia, a situação se tornará ainda pior, avalia um dos membros do comitê e reitor da Univasf, Julianeli Tolentino de Lima. “Na realidade, já vivemos grande dificuldade para a manutenção das atividades, especialmente, agrícolas, pesqueiras e de navegação. A falta de chuvas, aliada à diminuição significativa do volume de água em Sobradinho, agravará ainda mais a situação do rio e quem depende dele”, prevê. Hoje, a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) abastece 39 municípios no Sertão pernambucano, atendendo cerca de 800 mil pessoas por meio da captação de água do São Francisco.


A escassez no reservatório de Sobradinho, que hoje opera com 13% da sua capacidade total, obrigou outras barragens a suprirem a demanda de abastecimento. De acordo com a Compesa, desde março, a captação do Sistema Adutor do Pajeú, situado no município de Floresta, passou a atender também a cidade de Princesa Isabel, na Paraíba.

Em Pernambuco, segundo a companhia, os custos com a instalação de equipamentos para a adequação das captações, tendo em vista a estiagem prolongada, giram em torno de R$ 14 milhões. O relatório foi encaminhado ao Ministério da Integração Nacional e o Governo de Pernambuco está no aguardo da liberação do recurso. “É muito importante a liberação dos recursos e que os serviços sejam executados para que a população não corra o risco de ficar sem o abastecimento de água”, reconhece a Compesa em nota.

Salinização
A seca prolongada também tem contribuído para um outro grave problema: a salinização. O fenômeno já atingiu a foz do Rio São Francisco, em Sergipe, espalhando-se até regiões vizinhas, como o município de Piaçabuçu, em Alagoas, realidade apontada pelo CBHSF. Devido à redução da vazão das barragens, especialmente da hidrelétrica de Sobradinho, faz com que o rio perca a força e a água do mar passe a “invadir” o seu leito.

Sobre esse problema afetar Pernambuco, Julianeli Lima afirma que as chances são, praticamente, nulas. “Por conta de dois fatores. Primeiro é a distância da foz até o curso do rio em Pernambuco, entre os municípios de Petrolândia e Petrolina. Segundo, é a existência de dois obstáculos, as barragens de Xingó, no Baixo São Francisco, e o complexo de Paulo Afonso, entre o Baixo e o Submédio São Francisco”, explica.

Mau uso da água e do solo é agravante
No caso de Pernambuco, o mau uso da água e do solo (desmatamento irregular, com a degradação da mata ciliar) ainda continuam sendo os principais responsáveis pela escassez da água em Pernambuco. “O mau uso da água também inclui o manejo inadequado, com a pesca predatória, desrespeito ao período de defeso e a introdução de espécies exóticas, que acabam por dizimar espécies endêmicas”, diz Lima. Um levantamento do comitê, inclusive, aponta que de 360 espécies de peixes nativos que existiam na bacia do rio, apenas 152 ainda são encontradas. E escassamente.

No estudo, as áreas baixa e submédia da bacia são as mais críticas. Antes encontrados em abundância nas águas que cortam Petrolina, Belém do São Francisco, Cabrobó e Jatobá, o mandi-bagre, piaba, pacamão, cascudo, cambeva e barrigudinho não são mais encontrados. Até espécies endêmicas, como o pirá, peixe símbolo do Velho Chico, já não é mais visto nas redes dos pescadores artesanais. João dos Santos, 41 anos, é um desses pescadores artesanais.

No ofício há 30 anos, hoje aposta em outras fontes de renda. “Tive que ser criativo, começar a construir embarcações e tecer redes de pesca. Dá um aperto no coração ver o Chico assim. Antes, num dia bom para a pesca, eu tirava 10 kg facilmente. Hoje, não pego a metade”, lamenta.

Na intenção de “salvar” o rio São Francisco, o Ministério da Integração Nacional instituiu o “Plano Novo Chico”, um programa de revitalização das bacias do rio São Francisco. De acordo com a pasta federal, só este ano, foram inclusos cerca de três milhões de alevinos das espécies piau, xira, matrinxã, curimatã pioa, surubim, pacamã e pirá nos trechos do rio São Francisco dos estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Minas Gerais, Goiás e região do Distrito Federal. De acordo com o ministério, a soltura constante dos peixes nativos possibilitou que espécies antes sumidas na região, como a curimatã pioa e a matrinxã, voltassem a ser pescadas. Desde 2007, foram reproduzidos aproximadamente 150 milhões de alevinos.

Folha de Pernambuco


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