segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Bahia vive pior período de estiagem desde 1910


O sertão pegava fogo, o sol chupava os poços e o casal sonhava desgraças. Se achassem água ali por perto, beberiam muito, sairiam cheios, arrastando os pés. Quando escreveu Vidas Secas, em 1938, Graciliano Ramos não conhecia os lavradores Matheus Dias, 19 anos, e Valquíria Oliveira, 19, mas conhecia Fabiano e Sinhá Vitória.

Os da vida real ainda parecem estar na puberdade, mas já são castigados pela seca desde os primeiros dias da vida – tal qual os da ficção. Para cuidar da rotina da casa, Matheus e Valquíria precisam buscar água longe. Diariamente, saem para pegar água em um riacho que fica a alguns minutos de onde moram, já numa das áreas mais pobres do centro de Morrinhos, povoado na zona rural de Feira de Santana, no distrito de Jaguara. Na casa sem pintura onde moram há seis meses com o filho Allysson, 3, não existe água encanada.

“Aqui (nos baldes), é água salgada. Água doce é no tanque, mas o tanque está seco. A gente tem que sair procurando até achar onde tem água”, revela Valquíria. Matheus nem sabe direito quando foi a última vez que choveu. “Para falar a verdade, não lembro quando vi uma seca como essa.

Nunca vi até hoje. Tá mostrando o chão, capim não mostra mais não. Ali era. Aqui também. Todo canto era verde. Zona rural é mais mato, onde olha é verde. (Hoje), não vê mais verde mais aí. São poucos, poucas coisas”, diz, apontando para os lados.

A cerca de um quilômetro dali, a lavradora Ana Rita Oliveira da Silva, 45, vê o declive que funcionava como um poço de água secar todos os dias.

É o buraco onde a vaca Rainha, do primo de seu marido, ficou presa por horas, depois de tentar beber um pouco da água enlamada. E é a mesma fenda a qual recorreu tantas vezes, quando não tinha água em lugar algum. Assim como para o gado e outros animais, aquele açude natural era a fonte de água dela e da família.

“Aqui, quando chove, fica a coisa mais linda, mas quando bate o verão, acaba com tudo”, começou a dizer, antes de voltar à realidade: há tempos, não chove.

A casa de Ana Rita também não tem sistema hidráulico. “Agora, a gente tem que pegar água no rio”, conta. Mas diz que não tem problema. Ana Rita é pequenininha – tem pouco mais de 1,50 m – mas é forte. E se gaba disso: faz roça, faz cerca, arranca “toco” (troncos de árvores para abrir espaço para lavoura), carrega peso e até entra na lama para ajudar no resgate da vaca que atolou. “Sou pequena, mas me viro. Se eu tiver podendo andar, faço meu trabalho. Eu não tenho medo”.
Pior período de seca desde 1910

Os personagens de Morrinhos poderiam estar nos livros de Graciliano, mas também em qualquer uma das 78 cidades baianas que fecharam o ano de 2016 em situação de emergência por seca ou estiagem: ou seja, são um em cada cinco municípios baianos nessa penúria.

Correio da Bahia


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