quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Pokémon e o sequestro do desejo

Novo jogo escancara: na vida urbana mediada pelo celular, as corporações definem o que nos falta — e nos vendem a reconfortante ilusão de que decidimos.

O artigo é de Alfie Bown, publicado por Roar e reproduzido por Outras Palavras, 01-08-2016. A tradução é de Inês Castilho.

Alfie Bown, é autor de "Enjoying It: Candy Crush and Capitalism" (Zero, 2015) e "The PlayStation Dreamworld" (Polity, a ser lançado em 2017). Coeditor da "Hong Kong Review of Books" e escreve sobre política de tecnologia e videogames para várias publicações.

Eis o artigo.

Este artigo tem um título clickbaity mas aponta uma questão simples e preocupante. Em 2010, o Google lançou aquilo que é hoje uma subsidiária muito importante, a Niantic Inc. A mega-empresa lança muitas filiais por ano e adquire outras, não há nada de especial nisso. A questão é: o caso da Niantic mostra que há mais do que desejo de poder econômico nesta expansão.

Seis anos depois de nascer, a Niantic chega às manchetes com o lançamento de seu maior jogo, o Pokémon Go. O público finalmente volta os olhos à empresa. Gente à esquerda propõe até mesmo boicotá-la. Na verdade, há vários anos a Niantic vem trabalhando na psicologia e organização social dos celulares. Uma análise dos dois maiores lançamentos da empresa, Ingress e Pokémon Go, revela algumas verdades importantes sobre o mundo em que estamos vivendo, o controle que as corporações exercem e o poder dos nossos celulares para organizar nossos desejos.

A Niantic desenvolveu seu primeiro grande jogo, o Ingress, em 2011. O jogo, um dos mais importantes dos últimos anos, é uma ferramenta ideológica chave para o Google – e ao contrário do Pokémon Go, é pouco divulgado. OIngress tem sete milhões ou mais de jogadores e as tatuagens Ingress mostram a que ponto as pessoas se autodefinem pelo aplicativo. Alguns jogadores até descrevem o Ingress como um “estilo de vida” ao invés de um “jogo”. O leitor pode ser perdoado por pensar: “Eu não jogo, então por que isso se aplicaria a mim?” Mas o entretenimento criado pelo Google via Niantic alinha-se com o projeto mais amplo de regular nossos movimentos e experiências do mundo físico. Isso se aplica a você, a não ser que não use o Google ou qualquer de seus aplicativos, muitos dos quais já vivem em nossos celulares.

O Ingress reflete a tendência de desenvolvimento de aplicativos para celulares (que inclui Google Maps e o Uber, entre outros bem conhecidos) projetados para regular e influenciar nossa experiência de cidade, transformando osmartphone num novo tipo de inconsciente: uma força ideológica que guia nossos movimentos enquanto nos mantemos apenas semiconscientes do que nos move e da razão por que somos movidos nessa direção.

Inicialmente, considerei que a importância dos jogos para smartphones devia-se a uma espécie de “distração” – argumento que usei em meu livro e num artigo relacionado que escrevi para o The New Inquiry. Mais tarde, quando jogava Ingress pela primeira vez, percebi que havia muito mais do que isso. O Ingress, ao contrário de simplesmente nos distrair da cidade ao redor, na verdade nos treina para ser cidadãos perfeitos do Google. No Ingress, o jogador move-se ao redor do ambiente real capturando “portais” representados por marcos, monumentos e obras de arte públicos, assim como outras características da cidade. É necessário que o jogador esteja dentro da área física do “portal” para capturá-lo. Por isso, o jogo está sempre rastreando o jogador via GPS. Significativamente, não monitora apenas aonde vamos, mas nos dirige para onde deseja que a gente vá.


Fonte: Instituto Humanitas Unisinos


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