domingo, 21 de agosto de 2016

Petrolândia Cultural: "100 anos bem vividos" - Cordel de Neide Sandes para biografia resumida de Francisca Dias das Neves


Neide Sandes e dona "Chiquinha" (Foto: Assis Ramalho) 

No final de maio, em Missa de Ação de Graças, foi celebrado o Centenário de Francisca Dias das Neves, conhecida como dona Chiquinha. A empresária e poetisa Neide Sandes foi responsável por transformar em cordel a biografia resumida (são 100 anos!) da homenageada, com livretos distribuídos aos familiares, parentes e amigos que participaram do evento.

Reproduzimos o cordel "100 Anos Bem Vividos", em que Neide Sandes consegue passar com delicadeza a vida da biografada e, ainda, pontuar o trabalho com preciosidades da história e dos costumes locais. Vale a pena ler e enaltecer a Cultura de Petrolândia.

100 ANOS BEM VIVIDOS

Esta é uma história fantástica
Que pra você vou contar
De uma criatura corajosa
Dona de uma memória sem par.

Detalhes minuciosos de sua vida
Ela conta sorridente
Diz que tem orgulho de seu passado
Nada pra se arrepender, faria tudo novamente.

Filha de Izaura Dias da Silva
E Manoel Dias das Neves
Casal simples e humilde
Que criou seus filhos como se deve.

Nascida em Jatobá de Tacaratu
Nome antigo de nossa Petrolândia atual
No dia 27 de abril de 1916
Sexta filha do harmonioso casal.


Batizada com o nome de "Francisca Dias das Neves"
Carinhosamente chamada de "Chiquinha"
Criança que trouxe alegria aos seus pais
Menina sapeca e trelosinha.

A família convidou para padrinho de Chiquinha
O amigo Silvinho Delgado
Que a afilhada gostava de pedir presentes
Mas, segundo ela, o padrinho era muito amarrado.

Teve como irmãos:
Vicente, Nininha, Veneranda, Luiza e João
Todos gostavam de brincar com Chiquinha
Por ser divertida e brincar até de jogar pião.

Gostava de ajudar o marchante "Tio Tilino"
Levando comida pra os cangaceiros
Ossos e fato de bode lavados
Para alimentar os desordeiros.

Eles ficavam escondidos na "Serrota"
Na gruta chamada "Furna do Padre"
Alguns petrolandenses ajudavam os cangaceiros
Temendo suas terríveis maldades.

Lampião ficava esperto
Planejando a quem ia atacar
Chamava Chiquinha "neguinha mal criada"
Por ela responder aos seus cabras sem pestanejar.

Chiquinha adorava dançar
Seu parceiro preferido era Noé Francelino
Os dois abriam o "Salão de Dança"
E rodopiavam que nem meninos.

Esperta e trabalhadora ajudava em família
Passava e lavava roupa muito bem
Não enjeitava nenhum trabalho
Pra ganhar alguns vinténs.

O que ganhava já tinha um destino
Comprar rapadura em "Chico de Dé"
Ou tecido pra fazer uma saia rodada
E dizia: "só é isso que a morena quer".

Buscava lenha na beira do rio
Pra sua vó "Mãezinha" cozinhar
Um dia quando pegava uma tora na água
Faltou pouco pra o jacaré lhe devorar.

Nadava muito no rio São Francisco
A morena parecia até um peixinho
Lavava trouxas de roupas nos lajedos
A fim de ganhar uns trocadinhos.

Gente nova chegou em Jatobá
Por ordem de Manoel Neto - "o Capitão"
Eram policiais fortes e destemidos
Pra perseguirem o bando de Lampião.

Na tropa veio o policial "Inácio Veloso"
Que gostava de farra e festança
A morena "Chiquinha" chamou sua atenção
Pela sua desenvoltura na dança.

De longe começou o flerte com o piscar de olhos
E a morena gostou e se animou
De repente já estavam namorando
Pouco tempo depois o casamento marcou.

O noivo muito mais experiente
Porém, nada disso pesou
Queria casar logo com a morena
Porque assim que a viu se apaixonou.

Veloso com 21 anos de idade e Chiquinha com 13
Contraíram matrimônio na Igreja São Francisco de Assis
Na época as moças casavam jovens
Isso é o povo que diz.

Após o casamento foram morar na "rua dos Cruz"
À beira do rio da cidade
Uma vida difícil e de luta
Mas com muita felicidade.

São filhos do casal:
Nicinha, Liinha, Armando,
Neza, Tera, Brígida, Peônia e Carlinho
Foram criados aos pais ajudando.

Oito filhos, oito vidas!
Muita dificuldade pra criar
Pois Veloso ganhava pouco
Pra tanta gente sustentar.

Chiquinha sempre forte e guerreira
Com o coração cheio de amor
Ainda adotou uma menina "Valéria"
E garante que nada lhe faltou.

Quando o marido voltava das viagens
O casal ia dançar um forró pegado
A música predileta "Chega morena prá cá
Deixa a vergonha de lado pra dançar o xaxiado".

Naquele tempo se dançava com o lenço na mão
Chiquinha segurava o seu com empolgação
Veloso sempre arrumado e vaidoso
Ela acenava o lenço pra quem tava fora do salão.

Veloso gostava de vinho "São João"
Sua bebida mais apreciada
Já Chiquinha, da bebida "rapa de pau"
Que lhe servia de remédio e a deixava mais animada.

Cansado de ser militar Veloso pediu demissão
A vida do casal passou por grande mudança
Ele foi logo trabalhar na Suvale
Pensando em melhorar as finanças.

A suvale emprestou um imóvel ao casal
Na Rua da Linha que lhe serviu de moradia
O trem passava na porta apitando
O povo da rua fazia a maior folia.

A Rua da Linha era "Rua Marquês de Olinda"
Situada num local tranquilo demais
No calor seus moradores deitavam na calçada
E ali mesmo pernoitavam em paz.

Das amigas que a ajudavam ela gosta de lembrar
Alcina, Lili, Maria Joaquina, Ana de Chico Titia,
Faustina, Meranda, Nicó e Ana Campos
Povo querido com ela convivia.

No ano de 1940, o casal tomou uma decisão
Sua união civilmente foi oficializada
A festança foi a noite inteira
E a folia varou a madrugada.

Em 1949, nove anos depois
Como bom festeiro Veloso foi farriar
Na festa de Nossa Senhora da Saúde (Tacaratu)
Sentiu-se mal e quase não volta de lá.

Adoentado veio embora apressado
Mas, ainda passou na casa da amiga Sindô
E quando chegou em casa disse à Chiquinha:
"Dessa vez, minha véia, acho que me vou".

Veloso partiu para eternidade
Foi morar com o Criador
Acometido de uma anemia profunda
O médico assim diagnosticou.

Deixou sua mulher com os filhos
Uns tão pequenos de se cobrir com cestos
Chiquinha quase morre de preocupação
Mas disse com muita fé: "Jesus vai dar um jeito".

Ficou viúva nova e a todo mundo dizia:
"Meus filhos sozinha vou cuidar
Não dou eles pra ninguém criar
Nem que pra isso tenha que trabalhar até envergar".

Sofreu mais que "couro de pisar fumo"
Mas criou os filhos decentemente
E como diz o dito popular:
"Todos deram pra gente".

Chiquinha tem uma tristeza na alma
um problema que não pôde resolver
Seu filho Armando sumiu como por encanto
Dor que ela não consegue esconder.

Seus filhos são seu maior patrimônio
Hoje na família tem gente de montão
A ramificação dela e de Veloso foi maravilhosa
Prestem bem atenção.

Netos: 21
Bisnetos: 40 ou até mais
Tataranetos: 2 e um a caminho
Ninguém passa Chiquinha pra trás.

Agradece a Deus todos os dias
Por tudo que Ele lhe deu na vida
Hoje sente-se feliz, rica e poderosa
Esqueceu toda trajetória sofrida.

Agradece ainda a todos que estão aqui
E que vieram lhe prestigiar
Aconselha a todos que vivam com alegria
Pra nessa terrinha muito tempo ficar
Jesus lhe disse: Essa morena é alegre demais
Por isso nem tão cedo vou levar".

Cordel "100 Anos Bem Vividos"
Biografia Resumida de Francisca Dias das Neves
Autora: Neide Sandes
Petrolândia: 27/05/2016

Matéria relacionada:
>Família Veloso celebra os 100 anos de dona Chiquinha com missa de ação de graças

Redação do Blog de Assis Ramalho


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